{"id":10618,"date":"2020-10-26T08:00:11","date_gmt":"2020-10-26T08:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10618"},"modified":"2020-11-06T18:51:59","modified_gmt":"2020-11-06T18:51:59","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-4-a-accao-reformadora\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (4) \u2013 A ac\u00e7\u00e3o reformadora"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acompanhamos a obra de Charles Taylor, <em>A Secular Age<\/em>, cujo objecto foi enunciado na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira<\/a> destas glosas. Nos dois textos seguintes (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">2<\/a> e <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">3<\/a>), procur\u00e1mos ver quais as caracter\u00edsticas que conduziam a que, no ano de 1500 \u2013 ou, de acordo com os lugares, mesmo noutro momento temporal mais pr\u00f3ximo \u2013 a experi\u00eancia de f\u00e9 fosse tida por natural, \u00f3bvia, sendo virtualmente imposs\u00edvel que n\u00e3o suscitasse a ades\u00e3o natural da pessoa. Come\u00e7aremos agora a ver o que poder\u00e1 ter desencadeado o processo tendente a uma radical altera\u00e7\u00e3o deste quadro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atentaremos por isso na parte correspondente \u00e0s pp. 61-75, tamb\u00e9m do cap\u00edtulo 1 (\u201cOs baluartes da f\u00e9\u201d\/ <em>The Bulwarks of Belief<\/em>), o primeiro da Parte I (\u201cA obra de reforma\u201d\/ <em>The Work of Reform<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 13. <em><u>A ac\u00e7\u00e3o de reforma.<\/u> \u2013 <\/em>De entre os v\u00e1rios factores que conduziram \u00e0 altera\u00e7\u00e3o desse espec\u00edfico modo de olhar o mundo no qual a f\u00e9 estava como que naturalmente alicer\u00e7ada, e que ser\u00e3o estudados em diferentes momentos (humanismo, revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u201cEstado de pol\u00edcia\u201d, Reforma), Taylor come\u00e7a por destacar, para lhe oferecer particular relev\u00e2ncia, aquilo que designa por \u201cmovimento de reforma\u201d (pp. 61-75). Traduzirei por <em>reforma, <\/em>com min\u00fascula, o que o Autor designa por <em>Reform<\/em>; e por <em>Reforma, <\/em>com mai\u00fascula, o que o Autor designa por <em>Reformation<\/em>, que corresponde \u00e0 <em>Reforma protestante<\/em>. O movimento de <em>reforma <\/em>\u00e9 tido, pois, por realidade em parte mais ampla do que a <em>Reforma protestante, <\/em>perspectivada como um (muito significativo) dos seus momentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa tra\u00e7ar a diferen\u00e7a entre essas duas acep\u00e7\u00f5es, dado que a preocupa\u00e7\u00e3o de reforma da cristandade latina precede em v\u00e1rios s\u00e9culos a ruptura protestante. O in\u00edcio de tal movimento, de acordo com Taylor, pode mesmo remontar \u00e0s iniciativas <em>hildebrandinas <\/em>(p. 786, n. 92), assim aludindo \u00e0 chamada \u201creforma gregoriana\u201d, nome por que se designa um amplo conjunto de iniciativas do papado em nome da <em>liberdade <\/em>da Igreja promovidas a partir da segunda metade do s\u00e9c. XI, e que teve por particular expoente o Papa Greg\u00f3rio VII (de nome monacal Hildebrando).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00f3bil do referido movimento de <em>reforma<\/em> \u00e9, segundo Taylor, a \u201cinsatisfa\u00e7\u00e3o profunda com o equil\u00edbrio hier\u00e1rquico entre a vida laical e as voca\u00e7\u00f5es renunciativas\u201d (p. 61) \u2013 uma das tens\u00f5es pr\u00f3prias, e caracter\u00edsticas, do cristianismo medieval (cf. as reflex\u00f5es sob o <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">n.\u00ba 8<\/a>). Tal compreens\u00e3o, que distinguia formas de vida mais exigentes de outras que eram tidas por comuns<em>, <\/em>tinha por poss\u00edvel efeito, no espec\u00edfico modo como era entendida, que grandes massas da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o vivessem as exig\u00eancias pr\u00f3prias do Evangelho (pp. 61-62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora este problema n\u00e3o seja <em>apenas <\/em>do cristianismo latino \u2013 a saber: o de grandes massas de popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o observarem, sen\u00e3o muito imperfeitamente, um padr\u00e3o de actua\u00e7\u00e3o tido por adequado \u2013, j\u00e1 ser\u00e1 espec\u00edfico a <em>grau de insatisfa\u00e7\u00e3o<\/em> gerado com este estado de coisas, a ponto de motivar v\u00e1rios movimentos tendentes a reduzir, ou mesmo eliminar, o fosso entre as diferentes formas de vida (p. 62). E logo num duplo n\u00edvel: n\u00e3o s\u00f3 no de promover pequenas reformas, pequenos reajustes, em todo o caso transigentes com o quadro geral (exemplifica com a prega\u00e7\u00e3o das, rec\u00e9m-criadas no quadro medieval, ordens mendicantes), mas sobretudo \u201c[n]uma preocupa\u00e7\u00e3o crescente com a reforma, uma mudan\u00e7a que reconfigure a sociedade para padr\u00f5es mais elevados\u201d (p. 63), a ponto de poder colocar em causa da estrutura fundamental da sociedade. \u00c9 este <em>zelo pela ordem<\/em> (\u201c<em>rage for order<\/em>\u201d) que poder\u00e1 explicar a \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o do antigo cosmos encantado, e a cria\u00e7\u00e3o de uma alternativa vi\u00e1vel no humanismo exclusivo\u201d (p. 63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos progressivamente alguns movimentos tendentes a <em>reduzir <\/em>o fosso entre as diferentes formas de vida (n.\u00ba 14), para depois considerarmos outras tend\u00eancias desta vez conducentes a novas cesuras (n.\u00ba 15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 14. <em><u>Movimentos de aproxima\u00e7\u00e3o<\/u><\/em><u>.<em> A atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte; a individua\u00e7\u00e3o e a solidariedade da intercess\u00e3o.<\/em><\/u> \u2013 Vimos que uma das tens\u00f5es pr\u00f3prias da sociedade medieval (Baixa Idade M\u00e9dia) era entre as chamadas voca\u00e7\u00f5es <em>espec\u00edficas, celibat\u00e1rias, asc\u00e9ticas, <\/em>e as voca\u00e7\u00f5es <em>ordin\u00e1rias, comuns <\/em>(<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/\">n.\u00ba 8<\/a>). Entre outros aspectos, a diferen\u00e7a entre os dois estados expressava-se nas modalidades de viv\u00eancia religiosa preferidas. Da parte das voca\u00e7\u00f5es <em>asc\u00e9ticas <\/em>encontramos um f\u00e9 mais estruturada nos seus conte\u00fados, e, ao n\u00edvel da viv\u00eancia espiritual, reservando mais espa\u00e7o para a ora\u00e7\u00e3o interior; do lado das grandes massas da popula\u00e7\u00e3o, uma f\u00e9 menos estruturada nos seus conte\u00fados, e uma viv\u00eancia espiritual com uma n\u00edtida sobrerelev\u00e2ncia da pr\u00e1tica exterior, mediante ritualiza\u00e7\u00f5es de intensa express\u00e3o comunit\u00e1ria: jejum, absten\u00e7\u00e3o de trabalho em certos dias, missa dominical, comunh\u00e3o uma vez por ano, prociss\u00e3o do <em>Corpus Christi, <\/em>devo\u00e7\u00e3o aos santos, a Nossa Senhora, rel\u00edquias\u2026. (p. 63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, algumas novas formas de espiritualidade contribuem para estreitar este fosso. \u00c9 o caso, nomeadamente, de uma espiritualidade de acento cristoc\u00eantrico, que se vai divulgando de modo crescente a partir de cerca do ano 1000, e que \u00e9 apta a ser vivida pelos diferentes estados de vida, permitindo, ali\u00e1s, o afastamento de pr\u00e1ticas provenientes do paganismo. Acresce o esfor\u00e7o de redu\u00e7\u00e3o de outras diferen\u00e7as ainda subsistentes nas formas de viv\u00eancia da f\u00e9 \u00a0(pp. 64-65). Note-se \u00e0 margem que \u00e9 precisamente neste quadro que emerge uma figura tal como S. Francisco de Assis, que justamente em si conjuga o elemento <em>asc\u00e9tico<\/em> com o elemento radicalmente <em>popular<\/em> \u2013 <em>Ordem dos Frades <u>Menores<\/u> \u2013<\/em>, e que vive, muito precisamente, uma espiritualidade cristoc\u00eantrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro eixo central \u00e9 o da crescente preocupa\u00e7\u00e3o com a morte, para a qual contribu\u00edram de modo decisivo as rec\u00e9m-constitu\u00eddas ordens mendicantes (pp. 65-75). Destaca-se particularmente o papel da ainda agora referida <em>Ordem dos Frades Menores<\/em> (Franciscanos), fundada por S. Francisco de Assis, e da <em>Ordem dos Pregadores<\/em> (Dominicanos), por S. Domingos de Gusm\u00e3o. Ora, a crescente preocupa\u00e7\u00e3o com a morte, acentuando-se, pelo contraste, a t\u00e3o-s\u00f3 <em>vaidade<\/em> das paix\u00f5es terrenas, surge estreitamente ligada a um quadro teol\u00f3gico que acentua de modo muito significativo o momento do \u201cju\u00edzo final\u201d e do destino <em>depois da morte<\/em>, apresentado como momento de presta\u00e7\u00e3o de contas pelo modo como fora conduzida a totalidade da vida (p. 66). Ao crescer a intensidade desta preocupa\u00e7\u00e3o \u2013 permitindo remover, ali\u00e1s, o espa\u00e7o para outras formas de compreens\u00e3o do \u201cal\u00e9m\u201d pr\u00f3prias do paganismo (p. 66) \u2013, as <em>formas de vida <\/em>tendem a ser cristianizadas antevendo as poss\u00edveis consequ\u00eancias do ju\u00edzo final. Isto \u00e9, o receio acerca do pr\u00f3prio destino no <em>al\u00e9m <\/em>conduz a que, no <em>aqu\u00e9m<\/em>, nela se assumam certos <em>fins <\/em>que v\u00e3o al\u00e9m da simples realiza\u00e7\u00e3o humana imanente, precisamente para obviar \u00e0s temidas consequ\u00eancias negativas de uma vida mal conduzida (p. 67). Taylor n\u00e3o deixa de fazer uma ressalva importante: apenas se est\u00e1 a analisar qual o tipo de compreens\u00e3o generalizada, e n\u00e3o se esta compreens\u00e3o b\u00e1sica de soma e subtrac\u00e7\u00e3o dos m\u00e9ritos e pecados, quase <em>contabil\u00edstica <\/em>da salva\u00e7\u00e3o, tinha (mesmo ao tempo) adequado suporte teol\u00f3gico (p. 67). Cf. as observa\u00e7\u00f5es j\u00e1 antes feitas na al\u00ednea a) do <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">n.\u00ba 4<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta concentra\u00e7\u00e3o no <em>ju\u00edzo individual, <\/em>neste s\u00e9culo em que os frades medicantes se dispersam por toda a cristandade latina em esp\u00edrito de \u201ccruzada\u201d pregando a penit\u00eancia e a convers\u00e3o, tem uma forte consequ\u00eancia antropol\u00f3gica. Dela resulta, com efeito, a quest\u00e3o da <em>responsabilidade individual<\/em>, uma vez que cada um se experimenta como um indiv\u00edduo que ter\u00e1 de, nessa sua precisa condi\u00e7\u00e3o individuada, responder pelo modo como conduziu a sua pr\u00f3pria vida (p. 67). Semelhante individua\u00e7\u00e3o da f\u00e9 obscurece, naturalmente, a dimens\u00e3o colectiva, eclesial, predominante em per\u00edodos anteriores. Dada como exemplo desta nova acentua\u00e7\u00e3o <em>individual <\/em>da f\u00e9, e apresentada como momento <em>a quo <\/em>(sempre aproximativo) deste novo estado de coisas, est\u00e1 a prescri\u00e7\u00e3o da confiss\u00e3o auricular (isto \u00e9, a confiss\u00e3o \u201cao ouvido\u201d, conservada at\u00e9 ao presente), para todos os fi\u00e9is, pelo IV Conc\u00edlio de Latr\u00e3o de 1215 (note-se que entre as pr\u00e1ticas antes indicadas como pr\u00f3prias de um laicado centrado na pr\u00e1tica colectiva, nenhuma sup\u00f5e um tal n\u00edvel de introspec\u00e7\u00e3o e de exame de si). Esta individua\u00e7\u00e3o \u00e9 propiciada, ainda, por factores de ordem demogr\u00e1fica: este per\u00edodo coincide com o crescimento das cidades e com a ruptura de muitos la\u00e7os de perten\u00e7a religiosa pr\u00f3prios do mundo rural (p. 68), o que certamente agudiza a experi\u00eancia de si como indiv\u00edduo. Como express\u00e3o de uma f\u00e9 mais concentrada na viv\u00eancia individual est\u00e1 a circunst\u00e2ncia de, por ex., a prega\u00e7\u00e3o moral passar a acentuar mais as quest\u00f5es de <em>pureza sexual <\/em>do que outro tipo de pecados mais ligados \u00e0 dimens\u00e3o social da pessoa, como o uso da viol\u00eancia ou a injusti\u00e7a interpessoal (p. 69).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMas ao mesmo tempo, numa mudan\u00e7a que veremos repetidamente ao longo da nossa hist\u00f3ria, a nova individualidade trouxe consigo um novo tipo de liga\u00e7\u00e3o social\u201d: nomeadamente, a \u201csolidariedade da intercess\u00e3o\u201d (p. 69). Os vivos podem interceder pelos mortos; como o podem os Santos ou a Virgem Maria. Seja a partir dos v\u00e9rtices eclesiais, seja a partir das bases, desenvolvem-se, pois, doutrinas e pr\u00e1ticas muito significativas como a do <em>purgat\u00f3rio <\/em>(tornado um \u201cponto focal de grande parte da pr\u00e1tica crist\u00e3 na Igreja medieval tardia\u201d, p. 70); ou a do <em>tesouro dos m\u00e9ritos dos santos, <\/em>a poderem ser distribu\u00eddos pelos pecadores; ou a das <em>indulg\u00eancias<\/em> (p. 69). Novos v\u00ednculos de rec\u00edproca perten\u00e7a, portanto, num contexto em que para amplos conjuntos da popula\u00e7\u00e3o alguns outros v\u00ednculos, tradicionais, come\u00e7avam a dissolver-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, pode dizer-se que toda a \u00e9poca \u00e9 marcada por uma forte <em>ansiedade<\/em> em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio destino, tornada uma preocupa\u00e7\u00e3o <em>englobante<\/em>, <em>transversal<\/em>, e, por isso, <em>transformadora<\/em> do conjunto da sociedade (p. 70; cf. tb. as reflex\u00f5es \u00e0s pp. 88-89).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 15. <em><u>Movimentos de dissocia\u00e7\u00e3o<\/u><\/em><u>. <em>Interioridade. Recusa da pr\u00e1tica sacramental. Salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9.<\/em><\/u> \u00a0\u2013 Mas a par daquelas tend\u00eancias de estreitamento do fosso entre as diversas formas de vida religiosa, descobrimos tamb\u00e9m outros movimentos, que, inversamente, conduzem \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novas diferen\u00e7as (p. 70). \u00c9 o caso, por ex., de certos movimentos de promo\u00e7\u00e3o de uma vida devocional interior mais intensa (<em>Meister Eckhart; A Imita\u00e7\u00e3o de Cristo <\/em>de <em>Thomas de Kempis<\/em>). Embora, <em>enquanto tais<\/em>, estas novas pr\u00e1ticas devocionais n\u00e3o implicassem uma ruptura com formas tradicionais de viv\u00eancia religiosa, \u201calguns dos adeptos de uma devo\u00e7\u00e3o mais interior sentem avers\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a essas formas, vendo-as como divergindo de modo indevido da verdadeira piedade\u201d (p. 71). \u00c9 o caso dos crist\u00e3os humanistas, como Erasmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta acentua\u00e7\u00e3o da necessidade da convers\u00e3o interior, tomada como o modo pr\u00f3prio de viver a f\u00e9, pode conduzir, por\u00e9m, a consequ\u00eancias mais vastas, contribuindo para romper com o quadro pr\u00e9-moderno no qual a f\u00e9 estava naturalmente alicer\u00e7ada. Se o acento est\u00e1 na convers\u00e3o anterior, ent\u00e3o devem recusar-se, desde logo, formas de \u201cpoder causal\u201d de certos objectos ou de certos ritos (<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">n.\u00ba 6<\/a>). Levando esta posi\u00e7\u00e3o ao extremo, toda a pr\u00e1tica sacramental da Igreja encontra-se colocada em crise, e em crise vem a ser colocada, ent\u00e3o, precisamente a pr\u00f3pria Eucaristia \u2013 foi este ali\u00e1s um lugar comum de muitas das heresias medievais (p. 72). Note-se que este movimento de revolta era tamb\u00e9m dirigido, por uma via indirecta, contra a hierarquia eclesial, que, de acordo com tais perspectivas, faria sua a ileg\u00edtima pretens\u00e3o de, atrav\u00e9s do rito (mais precisamente: atrav\u00e9s do poder resultante do sacramento da <em>Ordem<\/em>), controlar o \u201cpoder de Deus\u201d (p. 73).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas recusando-se a pr\u00e1tica sacramental, qual o meio de defesa dispon\u00edvel para enfrentar os m\u00faltiplos perigos de um mundo <em>encantado <\/em>(<a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-2-os-alicerces-de-uma-fe-natural\/\">n.\u00ba 6<\/a>)<em>? <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra as amea\u00e7as resultantes dos \u201cesp\u00edritos\u201d presentes do mundo, s\u00e3o duas, em abstracto, as poss\u00edveis reac\u00e7\u00f5es: a primeira \u00e9 recorrer a contrapoderes \u2013 salv\u00edficos, divinos \u2013, capazes de limitarem essas m\u00faltiplas for\u00e7as que marcam presen\u00e7a no mundo <em>encantado<\/em>; a segunda \u00e9 confiar-se totalmente a Deus, negando, afinal, a exist\u00eancia das alegadas for\u00e7as demon\u00edacas: e assim se <em>desencantando <\/em>o mundo. Ali, aquelas for\u00e7as exteriores s\u00e3o <em>temidas<\/em>, mas confia-se num contrapoder de que se disp\u00f5e para as combater; aqui, pelo contr\u00e1rio, todas aquelas for\u00e7as s\u00e3o experimentadas como privadas do seu poder, como meras \u201cnegatividades\u201d, puras aus\u00eancias, sendo o \u00fanico real poder existente o do pr\u00f3prio Deus: e, por isso, o \u00fanico <em>temor <\/em>que existe j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para os perigos putativamente presentes no mundo exterior, mas para o pr\u00f3prio Deus. Com uma diferen\u00e7a essencial: j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um <em>temor <\/em>que diminui, que limita, que anula e degrada a pessoa, mas que, devidamente observado, conduz ao exacto inverso \u2013 \u00e0 convers\u00e3o e eleva\u00e7\u00e3o do respectivo padr\u00e3o de vida. O medo \u00e9 revertido para um valor positivo (p. 74). Muito sugestivamente, Taylor explora o ponto aludindo ao embate entre o profeta Elias e os profetas de Baal no Monte Carmelo (p. 74; cf. <em>1 Rs <\/em>18, 20-40).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos, finalmente, a um aspecto central, j\u00e1 n\u00e3o somente nas diferentes ac\u00e7\u00f5es de reforma, mas que implicar\u00e1 a pr\u00f3pria <em>Reforma protestante<\/em> em sentido estrito: a no\u00e7\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9. Escreve Taylor: \u201c\u2026ao propor a salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9, Lutero estava a tocar <em>no <\/em>ponto nevr\u00e1lgico do seu tempo, a preocupa\u00e7\u00e3o e o medo centrais\u201d (p. 75). F\u00e1-lo na medida em que toda esta enorme carga de ansiedade, de receio, toda a consci\u00eancia da pr\u00f3pria impot\u00eancia e da pr\u00f3pria vulnerabilidade (n.\u00ba 14), \u00e9 concentrada num \u00fanico ponto focal. Isto \u00e9, o medo \u00e9 revertido em sentido positivo, e torna-se assim uma fort\u00edssima fonte de inspira\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o j\u00e1 de limita\u00e7\u00e3o, para a ac\u00e7\u00e3o humana: \u201cA mensagem de Lutero era que todos somos pecadores, e merecemos castigo. A salva\u00e7\u00e3o envolve enfrentar e aceitar isto inteiramente. S\u00f3 ao aceitar a nossa total pecaminosidade podemos confiar-nos totalmente \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus, somente atrav\u00e9s da qual estamos justificados.\u201d (p. 75)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9, o excessivo acento colocado pela prega\u00e7\u00e3o <em>cat\u00f3lica<\/em> na convers\u00e3o, no pecado e no arrependimento acabou por abrir o campo a que justamente a mensagem de <em>salva\u00e7\u00e3o pela f\u00e9<\/em> pudesse ser percebida como uma enorme liberta\u00e7\u00e3o, como uma boa nova (p. 75).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordando-se a c\u00e9lebre express\u00e3o atribu\u00edda a J\u00falio C\u00e9sar: os dados foram lan\u00e7ados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluiremos a an\u00e1lise da ac\u00e7\u00e3o reformadora, e do primeiro cap\u00edtulo, no pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem: https:\/\/pixabay.com\/pt\/<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10619,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-10618","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10618"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10618\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10622,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10618\/revisions\/10622"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10619"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}