{"id":10570,"date":"2020-10-09T17:51:10","date_gmt":"2020-10-09T16:51:10","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10570"},"modified":"2020-10-09T17:51:10","modified_gmt":"2020-10-09T16:51:10","slug":"joao-cesar-das-neves-morte-e-ligeireza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/joao-cesar-das-neves-morte-e-ligeireza\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves | Morte e ligeireza"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-325\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/joaocesarneves.jpg\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/joaocesarneves.jpg 268w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/joaocesarneves-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 203px) 100vw, 203px\" \/>O Expresso Curto (mensagem electr\u00f3nica que o jornal envia diariamente, resumindo a sua edi\u00e7\u00e3o) de 9 de Outubro estava intitulado \u00ab<em>Em janeiro tudo eram rosas, agora o Governo est\u00e1 rodeado de espinhos<\/em>\u00bb. O texto come\u00e7a a not\u00edcia dizendo: \u00ab<em>Fa\u00e7amos um exerc\u00edcio de mem\u00f3ria: <strong>lembra-se de onde estava a 1 de janeiro de 2020?<\/strong> Se o Governo fosse uma pessoa n\u00e3o hesitaria em dizer que estava num belo passeio na praia, mesmo que encasacado e com medo de uma trai\u00e7oeira onda externa. (\u2026) Prova disso \u00e9 que, em fevereiro, <strong>o grande tema pol\u00edtico era a legaliza\u00e7\u00e3o da morte medicamente assistida <\/strong>(vulgo eutan\u00e1sia). Algu\u00e9m se lembra hoje deste tema? (Na verdade sim, voltamos a isto mais abaixo.)<\/em>\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornalista (ali\u00e1s an\u00f3nimo) est\u00e1 a fazer uma an\u00e1lise justa da enorme transforma\u00e7\u00e3o do clima pol\u00edtico nacional em poucos meses por causa da pandemia. Mas o aspecto mais curioso \u00e9 a escolha que fez do s\u00edmbolo m\u00e1ximo de um tempo sereno: a quest\u00e3o da eutan\u00e1sia. Quando as coisas azedam, quem se lembra mais disso? De facto nem sequer o pr\u00f3prio articulista, porque se esqueceu da promessa de voltar ao assunto adiante e omite-o no resto da longa mensagem. Isto pode parecer um facto menor, mas mostra bem a atitude de fundo da sociedade portuguesa acerca destes assuntos. E resume a maior inf\u00e2mia que rodeia este caso da eutan\u00e1sia lusitana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se diga que o esquecimento resulta simplesmente de nos momentos de emerg\u00eancia se omitirem coisas importantes. Nunca passaria pela cabe\u00e7a do rep\u00f3rter usar como tema ocioso, ilustrativo de uma \u00e9poca politicamente pac\u00edfica, assuntos como a elimina\u00e7\u00e3o da democracia, a restaura\u00e7\u00e3o da escravatura ou da pena de morte. Se esses fossem os t\u00f3picos de discuss\u00e3o, estar\u00edamos evidentemente em \u00e9pocas de grande tumulto c\u00edvico. Mas a eutan\u00e1sia \u00e9 mesmo um assunto indolente, que s\u00f3 se trata quando n\u00e3o h\u00e1 mais nada de interessante para discutir. Eutan\u00e1sia s\u00e3o rosas, or\u00e7amento s\u00e3o espinhos. Ao diz\u00ea-lo, este jornalista n\u00e3o \u00e9 aberrante, e a sua afirma\u00e7\u00e3o concorda com a chamada opini\u00e3o p\u00fablica. Toda a gente sabe que assuntos como eutan\u00e1sia, reprodu\u00e7\u00e3o medicamente assistida, mudan\u00e7a de sexo, div\u00f3rcio e afins s\u00e3o legisla\u00e7\u00e3o que se ressurge quando n\u00e3o h\u00e1 mais nada de importante na agenda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ponto \u00e9, no fundo, o mais grave de toda a luta que travamos nas quest\u00f5es da vida e da fam\u00edlia: aqueles que pretendem revolucionar a ordem tradicional nestes campos fazem-no com uma incr\u00edvel ligeireza e nas horas vagas. Se ao menos trouxessem gravidade \u00e0 discuss\u00e3o, mostravam um respeito m\u00ednimo pelos temas da vida. Mas n\u00e3o, s\u00e3o assunto de d\u00e9cima escolha, no fundo da escala dos programas eleitorais. Por isso \u00e9 que tantos partidos se esqueceram mesmo de os mencionar nos seus, confirmando a opini\u00e3o do jornalista do Expresso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto n\u00e3o quer dizer que esses activistas n\u00e3o saibam o que \u00e9 gravidade. Nunca proporiam a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos, do estatuto democr\u00e1tico, da dignidade pessoal, mas acham normal que se permita matar algu\u00e9m que est\u00e1 doente, simplesmente porque se conseguiu convenc\u00ea-lo a dar o seu consentimento. E, com esta fal\u00e1cia e aporia, at\u00e9 se chega a defender que tal morte faz parte integrante dos direitos humanos, do estatuto democr\u00e1tico, da dignidade pessoal. Sem nunca se darem conta que \u00e9 precisamente com racioc\u00ednios desses que pessoas s\u00e9rias e razo\u00e1veis justificaram a escravatura, a pena de morte, a purifica\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a e outros horrores. Todos esses casos t\u00eam em comum precisamente o argumento central da defesa da eutan\u00e1sia: s\u00e3o vidas que n\u00e3o vale a pena serem vividas. Chega a ser espantoso ver pol\u00edticos, que se dizem democr\u00e1ticos e civilizados, entrar em atitudes que tanto dizem repudiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este paradoxo \u00e9 bem explicado na \u00faltima enc\u00edclica do Papa Francisco, quando fala das \u00absombras dum mundo fechado\u00bb (cap\u00edtulo I). A\u00ed diz explicitamente: \u00abAs guerras, os atentados, as persegui\u00e7\u00f5es por motivos raciais ou religiosos e tantas afrontas contra a dignidade humana s\u00e3o julgados de maneira diferente, segundo convenham ou n\u00e3o a certos interesses fundamentalmente econ\u00f3micos: o que \u00e9 verdade quando conv\u00e9m a uma pessoa poderosa, deixa de o ser quando j\u00e1 n\u00e3o a beneficia.\u00bb (<em>Fratelli Tutti<\/em>, 25).<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor catedr\u00e1tico de Economia<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/sabinevanerp-2145163\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3666974\">Sabine van Erp<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3666974\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10572,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[53,146],"tags":[],"class_list":["post-10570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joao-cesar-das-neves","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10570"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10570\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10573,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10570\/revisions\/10573"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}