{"id":10538,"date":"2020-10-10T08:00:29","date_gmt":"2020-10-10T07:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10538"},"modified":"2021-07-10T10:27:20","modified_gmt":"2021-07-10T09:27:20","slug":"carlos-costa-gomes-eutanasia-a-morte-por-compaixao-e-a-morte-da-compaixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/carlos-costa-gomes-eutanasia-a-morte-por-compaixao-e-a-morte-da-compaixao\/","title":{"rendered":"Carlos Costa Gomes | Eutan\u00e1sia: a morte por compaix\u00e3o \u00e9 a morte da compaix\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Letra viva | Valores de uma cultura que cuida e n\u00e3o mata<\/strong><br \/>\n<em>Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre o dever de cuidar de todos <\/em><em>e os riscos de legalizar a eutan\u00e1sia<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>(Artigo em parceria com o Centro de Estudos de Bio\u00e9tica)<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Carlos Costa Gomes*<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-8127\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Carlos-Costa-Gomes.jpg\" alt=\"\" width=\"129\" height=\"168\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1 &#8211; Ouve-se muitas vezes dizer que a morte provocada a quem est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade extrema, como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de um doente terminal ou de doen\u00e7a incur\u00e1vel, \u00e9 uma morte por miseric\u00f3rdia ou por compaix\u00e3o. Precisamente \u00e9 aqui que existe um equ\u00edvoco, pois, a morte por compaix\u00e3o \u00e9, neste caso, a pr\u00f3pria morte da compaix\u00e3o e da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2 &#8211; O mesmo pode ser dito que a morte por compaix\u00e3o significa que se esgotou, nesse momento, a compaix\u00e3o porque a minha afei\u00e7\u00e3o ou afetividade ferida pela ferida do outro, n\u00e3o encontra outra resposta sen\u00e3o livrar-me da pessoa que sofre e me faz sofrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3 &#8211; O direito a morrer com dignidade n\u00e3o pressup\u00f5e o direito e o dever de matar. A morte n\u00e3o \u00e9 um direito. Temos sim o direito e o \u201cdever\u201d a viver com dignidade at\u00e9 ao limite da vida e n\u00e3o limitar, abreviar ou apressar o tempo de viver. Nenhuma vida \u00e9 um estorvo, porque mesmo na franja da sua exist\u00eancia h\u00e1 um sonho e grito de eternidade. Decidir antecipar ou abreviar este sonho ou este grito, s\u00f3 pode ser um ato de desespero de uma pessoa que se v\u00ea abandonada, humilhada, ofendida e t\u00e3o infeliz que na sua infelicidade s\u00f3 j\u00e1 v\u00ea como solu\u00e7\u00e3o, morrer para deixar de sofrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4 &#8211; Hoje, mais do que ontem, a eutan\u00e1sia \u00e9 o modo mais t\u00e9cnico, e n\u00e3o \u00e9tico, de eliminar a vida. O significado que hoje se atribui \u00e0 Eutan\u00e1sia, sem entrar a fundo na epistemologia do termo, pois este n\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o, apenas dizer que o seu significado, do ponto de vista sem\u00e2ntico evoluiu, negativamente, para um sentido t\u00e9cnico e n\u00e3o para o sentido \u00e9tico. Devemos e temos o dever de eliminar a dor e o sofrimento. Esse \u00e9 um dever \u00e9tico e t\u00e9cnico de todos os que assistem pessoas cuja vida se encontra no limiar da sua exist\u00eancia ou nas profundezas do sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5 &#8211; Tal como a medicina e a enfermagem todos devemos estar ao servi\u00e7o da vida e n\u00e3o da morte. O amor ao pr\u00f3ximo \u2013 o bom samaritano \u2013 \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o essencial que torna capaz de reconhecer a dignidade de cada pessoa, quando a exist\u00eancia humana est\u00e1 em decl\u00ednio. Entre os dramas causados por esta viv\u00eancia de finitude, a \u00e9tica do amor ao pr\u00f3ximo apela ao esfor\u00e7o razo\u00e1vel de compreender a inutilidade de interven\u00e7\u00f5es desadequadas e a uma pr\u00e1tica terap\u00eautica aconselhada. O que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 o valor da doen\u00e7a que a pessoa tem, mas a pessoa doente cuja interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica deve ou n\u00e3o ser realizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6 &#8211; Olhar e ver com um cora\u00e7\u00e3o inteligente para a pessoa doente, terminal ou com doen\u00e7a incur\u00e1vel, esmaga e esclarece o enigma do sofrimento e da dor; quem abre o seu saber nutrido de \u00e9tica de cuidado e o seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 semeado de amor ao pr\u00f3ximo encontra no confronto do sofrimento a linguagem da compaix\u00e3o e da miseric\u00f3rdia \u2013 a linguagem do bem superior \u2013 que n\u00e3o altera nem aniquila o sentido da vida, mas que lhe abre o \u201cmist\u00e9rio da vida\u201d \u00e0 \u201cvida do mist\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7 &#8211; \u00c9 precisamente no mist\u00e9rio da vida de cada pessoa que nasce ou n\u00e3o o desejo de pedir para morrer. Esse mist\u00e9rio \u00e9 inacess\u00edvel, mas pode ser compreens\u00edvel em dois modos de ver: primeiro encontrar as raz\u00f5es que levam a fazer o pedido para morrer; e o segundo, perceber o que falhou nos cuidados de sa\u00fade para que tal pedido nascesse na consci\u00eancia da pessoa que est\u00e1 doente. No primeiro caso, n\u00e3o temos o direito para criticar moralmente a pessoa que faz tal pedido, porque se o fez foi porque houve falha nos cuidados de proximidade; no segundo caso j\u00e1 podemos e devemos analisar eticamente as falhas de um sistema de sa\u00fade que n\u00e3o garante aos mais vulner\u00e1veis os cuidados necess\u00e1rios e apresenta como caminho ou uma escolha a eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8 &#8211; Este caminho que \u00e9 vendido suportado pela liberdade e autonomia da pessoa doente, que deseja a morte porque n\u00e3o se sente digna de viver em certas condi\u00e7\u00f5es, esconde, do foro de pol\u00edticas de sa\u00fade, a inefic\u00e1cia de um servi\u00e7o de sa\u00fade que n\u00e3o tem as respostas necess\u00e1rias para pessoas com doen\u00e7as incur\u00e1veis e em fase terminal de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9 &#8211; De facto, a liberdade e autonomia ostentadas e valorizadas no ato de pedir a eutan\u00e1sia \u00e9, em rigor, uma mentira. Ningu\u00e9m, diante da dor e do sofrimento, \u00e9 inteiramente livre e aut\u00f3nomo, como tamb\u00e9m n\u00e3o o \u00e9 quando goza de uma vida saud\u00e1vel. Nem a liberdade \u00e9 um bem absoluto como nem a autonomia \u00e9 um bem exclusivo. Ambos fazem parte da humanidade da pessoa; ambos s\u00e3o valores fundamentais da vida e da exist\u00eancia humana, cujo dever de cada homem e mulher \u00e9 o de lutar por eles. Se uso a minha autonomia para pedir a morte estou a matar a liberdade da minha exist\u00eancia; se utilizo a minha liberdade para apressar a minha morte, estou a aniquilar a autonomia da minha vida. Se as duas se conjugarem e se n\u00e3o hipervalorizar e nem hipotrofiar nenhumas delas, vivo a minha exist\u00eancia e a minha vida, e \u201centro vivo\u201d na morte.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 class=\"p1\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"s1\">*Presidente do Centro de Estudos de Bio\u00e9tica | <\/span><span class=\"s1\">Professor do ESSNORTECVP | Membro da Academia &#8216;Fides et Ratio&#8217;<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/truthseeker08-2411480\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1925875\">truthseeker08<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1925875\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Letra viva |<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10543,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[72,136,146],"tags":[],"class_list":["post-10538","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bioetica-e-sociedade","category-carlos-costa-gomes","category-letra-viva-valores-de-uma-cultura-que-cuida-e-nao-mata"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10538","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10538"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10538\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12915,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10538\/revisions\/12915"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10543"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}