{"id":10522,"date":"2020-10-12T08:00:17","date_gmt":"2020-10-12T07:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10522"},"modified":"2020-10-05T12:45:20","modified_gmt":"2020-10-05T11:45:20","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-3-os-alicerces-de-uma-fe-natural-cont\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (3) \u2013 Os alicerces de uma f\u00e9 natural (cont.)"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">primeira glosa<\/a> foi exposto o objecto que Charles Taylor se prop\u00f5e tratar na obra <em>A Secular Age.<\/em> Entre outras quest\u00f5es (v. o <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">n.\u00ba 4<\/a>), \u00e9 lan\u00e7ada a seguinte: o que explica que a cren\u00e7a religiosa, tida por evidente em 1500, se tenha tornado de dif\u00edcil ades\u00e3o, ou pelo menos tenha sido colocada sob a tens\u00e3o da d\u00favida, para grandes massas da popula\u00e7\u00e3o em 2000?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7\u00e1mos a ver, no <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\">segundo contributo<\/a>, algumas das caracter\u00edsticas que conduziam a que, naquela primeira refer\u00eancia temporal, a experi\u00eancia de f\u00e9 fosse tida por natural, \u00f3bvia, sendo virtualmente imposs\u00edvel que n\u00e3o tivesse lugar. Continuaremos agora esse percurso, atentando especialmente na parte correspondente \u00e0s pp. 43-61, tamb\u00e9m do cap\u00edtulo 1 (\u201cOs baluartes da f\u00e9\u201d\/ <em>The Bulwarks of Belief<\/em>), o primeiro da Parte I (\u201cA obra de reforma\u201d\/ <em>The Work of Reform<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 8. <em><u>A tens\u00e3o entre a estrutura e a anti-estrutura.<\/u> <\/em>\u2013 Pr\u00f3prio do mundo pr\u00e9-moderno, mas agora especialmente (mas n\u00e3o exclusivamente) do mundo pr\u00e9-moderno <em>crist\u00e3o<\/em>, \u00e9 tamb\u00e9m a exist\u00eancia de um amplo conjunto de <em>tens\u00f5es<\/em> internas \u00e0 pr\u00f3pria din\u00e2mica e organiza\u00e7\u00e3o da vida social. Tais tens\u00f5es podem ser designadas a partir de diferentes pares de contr\u00e1rios: estrutura e anti-estrutura; regra e aus\u00eancia de regra; c\u00f3digo e anti-c\u00f3digo; transcend\u00eancia e iman\u00eancia (pp. 43-54).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois seguintes exemplos, dados por Taylor, s\u00e3o particularmente ilustrativos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) No dom\u00ednio intraeclesial, mas com consequ\u00eancias no conjunto da sociedade, surge a tens\u00e3o entre as <em>voca\u00e7\u00f5es espec\u00edficas<\/em>, celibat\u00e1rias (religiosos e clero secular, no cristianismo latino, voca\u00e7\u00f5es a que Taylor designa de <em>renunciativas<\/em>) e as <em>formas ordin\u00e1rias da vida crist\u00e3 <\/em>(laicado comum), a que se contrap\u00f5em. Tal tens\u00e3o seria apenas eliminada caso se exclu\u00edsse a diversidade de estados de vida, ora propugnando um celibato geral, ora eliminando as voca\u00e7\u00f5es celibat\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde a tens\u00e3o subsista, ser\u00e1 em todo o caso poss\u00edvel encontrar um certo <em>equil\u00edbrio<\/em>, se os diferentes estados de vida \u2013 e, mais amplamente, os diferentes estratos da sociedade, no quadro <em>intra<\/em> ou <em>extraeclesial<\/em> \u2013 forem interpretados como complementares. F\u00f3rmulas como a seguinte vertem de forma sint\u00e9tica o tipo de equil\u00edbrio (sempre sob tens\u00e3o) alcan\u00e7ado no medievo: \u201co clero ora por todos, os senhores defendem a todos, o povo trabalha para todos\u201d (p. 45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Ao n\u00edvel da vida p\u00fablica, \u00e9 de sublinhar a tens\u00e3o entre a (i) vida ordin\u00e1ria e (ii) realidades tais como o <em>Carnaval <\/em>medieval, momento de subvers\u00e3o da ordem estabelecida \u2013 a\u00ed quando uma crian\u00e7a pode aparecer com a mitra episcopal, ou um tolo ser feito rei por um dia (p. 45). Com, por\u00e9m, uma particularidade: embora estes \u00faltimos momentos suspendam a ordem estabelecida, n\u00e3o a pretendem derrubar definitivamente, mas conservar-se como uma realidade latente, mas de um tal modo que, em ciclos peri\u00f3dicos, possa voltar a assomar com vigor \u2013 para logo de seguida se resguardarem novamente (at\u00e9 uma nova erup\u00e7\u00e3o, naturalmente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esta caracter\u00edstica que torna estes momentos particularmente interessantes, e particularmente carecidos de uma explica\u00e7\u00e3o: por um lado, suspendem a ordem estabelecida; mas por outro com ela convivem. \u00a0Porqu\u00ea a toler\u00e2ncia de uma sociedade com o que \u2013 temporariamente, \u00e9 certo \u2013 t\u00e3o frontalmente desafia a sua no\u00e7\u00e3o de ordem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De entre v\u00e1rias propostas de explica\u00e7\u00e3o destes momentos em que o \u201cmundo \u00e9 posto de pernas para o ar\u201d (p. 46), Taylor recenseia de modo particular a proposta explicativa de Victor Turner (citando <em>The Ritual Process: Structure and Anti-Structure <\/em>e <em>Dramas, Fields, and Metaphors<\/em>). A tese fundamental \u00e9 a seguinte: toda a estrutura carece de uma anti-estrutura. Assim, uma sociedade que adopte um dado c\u00f3digo de comportamento que seja rigorosamente aplicado tem necessidade de momentos de descompress\u00e3o, de neutraliza\u00e7\u00e3o e, at\u00e9, de transgress\u00e3o desse mesmo c\u00f3digo, e que tais momentos propiciem uma liberta\u00e7\u00e3o de energia que, de outro modo e sob a press\u00e3o permanente do c\u00f3digo, perderia todo o seu vigor (pp. 47-48; 49). Taylor aponta para alguns exemplos do pr\u00f3prio mundo contempor\u00e2neo (al\u00e9m dos que adiante se mencionar\u00e3o): \u00e9 o caso de algumas sociedades da \u00c1frica subsubsariana, que conhecem, paralelamente \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o oficial de poder, uma (contra-) ordem de natureza tradicional que a limita. A anti-estrutura pode servir ainda \u2013 tal \u00e9 particularmente vis\u00edvel num Carnaval que subverte a ordem de uma sociedade muito estruturada [ou numa festividade como o <em>S\u00e3o Jo\u00e3o<\/em> da cidade do Porto\u2026] \u2013 para a afirma\u00e7\u00e3o de um radical sentido de <em>perten\u00e7a comunit\u00e1ria<\/em> (p. 49), permitindo que a seiva viva por detr\u00e1s da estrutura de distribui\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is sociais pr\u00f3pria da ordem institu\u00edda tenha ocasi\u00e3o de correr livremente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta proposta explicativa \u00e9 usada por Taylor para enquadrar a rela\u00e7\u00e3o entre as voca\u00e7\u00f5es de especial consagra\u00e7\u00e3o e as formas de vida ordin\u00e1ria (referidas em <em>a)<\/em>), perspectivadas como uma forma de tens\u00e3o entre anti-estrutura e estrutura: aquele que vive na vida ordin\u00e1ria \u00e9 interpelado permanente pelo espelho de uma outra forma de vida, testemunho de uma ordem de valor superior (p. 49). E o mesmo se pode dizer acerca da rela\u00e7\u00e3o, ao menos no quadro medieval, entre o poder temporal e espiritual (p. 50).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 9. <em><u>O lugar da anti-estrutura. Consequ\u00eancias sobre a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/u> <\/em>\u2013 No mundo contempor\u00e2neo, h\u00e1 certamente momentos de <em>anti-estrutura, <\/em>de suspens\u00e3o e de transgress\u00e3o do c\u00f3digo institu\u00eddo, e que operam como <em>revitalizadores<\/em> da pessoa: \u201csentimos ainda a necessidade de \u2018fugir disto tudo\u2019, de cortar com tudo e \u2018recarregar baterias\u2019, longe, em f\u00e9rias, fora dos lugares habituais\u201d (p. 50). [No dizer muito singular de uma personalidade pol\u00edtica portuguesa: \u201c\u2026trabalhamos 11 meses que nem uns c\u00e3es e depois vamos de f\u00e9rias com o dinheiro por que nos and\u00e1mos a matar durante o resto do ano, e quando voltamos falamos nas cores, nos cheiros, nos sons, nas paisagens.\u201d (!&#8230;)] Contudo, h\u00e1 uma diferen\u00e7a significativa entre o lugar que hoje ocupam tais momentos e aquele que conheciam na sociedade pr\u00e9-moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sociedade pr\u00e9-moderna, a anti-estrutura encontra-se <em>institucionalizada<\/em>, tendo uma presen\u00e7a e um lugar pr\u00f3prio da sociedade. A vida p\u00fablica \u00e9 estruturalmente bin\u00e1ria (ou tern\u00e1ria,\u2026), com v\u00e1rios quadros de valor simultaneamente presentes. Conhece regras e contra-regras; padr\u00f5es da ac\u00e7\u00e3o e a sua contesta\u00e7\u00e3o; mundanidade e desejo de seguimento dos \u201cconselhos de perfei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o assim na sociedade moderna. Nela, bem ao contr\u00e1rio, entende-se que no espa\u00e7o p\u00fablico deve haver apenas um <em>c\u00f3digo, <\/em>uma <em>estrutura <\/em>(p. 51 \u2013 \u201co que \u00e9 o princ\u00edpio do totalitarismo\u201d), que, porque \u00fanico, se deve impor e realizar sem restri\u00e7\u00e3o. Apenas um ponto de refer\u00eancia, um tom, um quadro monol\u00edtico. Nesta inten\u00e7\u00e3o de impor a realiza\u00e7\u00e3o de <em>um s\u00f3 <\/em>padr\u00e3o de comportamento filia Taylor realidades tais como os \u201cspeech codes\u201d em voga em muitas universidades; ou o bom acolhimento de express\u00f5es tais como \u201ctoler\u00e2ncia zero\u201d para com o que \u00e9 visto como desafiando o c\u00f3digo prevalecente (p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois exemplos, ambos resultantes da hist\u00f3ria francesa, permitem-nos ver em ac\u00e7\u00e3o a tentativa de imposi\u00e7\u00e3o de um \u00fanico c\u00f3digo (ou, o que \u00e9 o mesmo, de um \u00fanico contra-c\u00f3digo) \u2013 bem como as consequ\u00eancias decorrentes dessa pretens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro exemplo \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, momento que tem por caracter\u00edstico a tentativa de remover por inteiro <em>qualquer anti-estrutura, <\/em>ao mesmo tempo que se procura impor um novo c\u00f3digo social que elimine qualquer freio \u00e0 sua total aplica\u00e7\u00e3o. As ocasi\u00f5es que antes expressavam o contra-c\u00f3digo s\u00e3o colocadas ao servi\u00e7o do c\u00f3digo prevalecente (apetece j\u00e1 dizer: s\u00e3o <em>secularizadas<\/em>). O Carnaval, as peregrina\u00e7\u00f5es, a prociss\u00e3o do <em>Corpus Christi: <\/em>tornados festividades c\u00edvicas, s\u00e3o remodelados de modo a expressar os valores centrais da Revolu\u00e7\u00e3o (p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece, por\u00e9m, que uma vez alinhados com o c\u00f3digo institu\u00eddo, deixam de conseguir desempenhar a sua fun\u00e7\u00e3o de anti-estrutura, n\u00e3o surpreendendo, por isso, que rapidamente tenham desaparecido (p. 52). Ao ser incorporada pela <em>estrutura, <\/em>a <em>anti-estrutura <\/em>desaparece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Da\u00ed, ali\u00e1s, o entediante e let\u00e1rgico espect\u00e1culo das festividades c\u00edvicas ainda no nosso tempo; ou a irrelev\u00e2ncia dos dias <a href=\"https:\/\/www.un.org\/en\/sections\/observances\/international-days\/\"><em>disto<\/em> e <em>daquilo<\/em><\/a> \u2013 irrelev\u00e2ncia, note-se, enquanto substitutos de uma <em>anti-estrutura <\/em>\u2013, sem qualquer capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os (precisamente porque se limitam a reproduzir os valores da <em>estrutura<\/em>); ou, finalmente, o torpor e a melancolia que se abatem sobre todos aqueles que se v\u00eaem privados de fontes vitais al\u00e9m da ordem estabelecida e ritualizada.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo, mas de sinal inverso, \u00e9 dado pelo Maio de 68, que pode ser interpretado como uma tentativa de fazer com que a <em>anti-estrutura <\/em>(a liberdade na esfera pessoal, um certo tipo de viv\u00eancia da express\u00e3o sexual e das rela\u00e7\u00f5es interpessoais, \u2026) valesse como estruturante da sociedade. Tamb\u00e9m aqui se eliminaria a tens\u00e3o, caso tal modelo se lograsse impor, mas desta vez a favor da anti-estrutura. Com que prop\u00f3sito e com que resultados? Escreve Taylor: \u201cFoi o nascimento de um c\u00f3digo novo e perfeito, um c\u00f3digo tal que n\u00e3o precisa de quaisquer barreiras morais, que n\u00e3o tolerar\u00e1 qualquer anti-estrutura. \u00c9 a anti-estrutura que coloca termo a toda a anti-estrutura. Mas se este sonho fosse realizado (o que felizmente n\u00e3o aconteceu em 68) tornar-se-ia um pesadelo.\u201d (p. 53).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dois exemplos anteriores, a tens\u00e3o entre \u201cc\u00f3digo\u201d e \u201ccontra-c\u00f3digo\u201d \u00e9 eliminada. Fora desses casos mais extremos, poder\u00e1 encontrar-se alguma \u201canti-estrutura\u201d, ou uma realidade que desempenhe essa fun\u00e7\u00e3o, no mundo contempor\u00e2neo? A muito interessante sugest\u00e3o de Taylor \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(a) Ao n\u00edvel pessoal, tal fun\u00e7\u00e3o \u00e9 desempenhada pelo espa\u00e7o da esfera privada, tida como contra-estrutura da esfera p\u00fablica, e compreendido como um espa\u00e7o de liberdade negativa (\u201cSem esta zona, a vida na sociedade moderna seria insuport\u00e1vel (unliveable)\u201d: p. 52);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[N\u00e3o ultrapassar\u00e1 estas fronteiras uma disciplina escolar (integrante, portanto, de uma institui\u00e7\u00e3o, a escola, que tamb\u00e9m tem por fun\u00e7\u00e3o, <em>quando p\u00fablica<\/em>, procurar reprodu\u00e7\u00e3o dos valores pr\u00f3prios da <em>estrutura<\/em>) que pretenda ministrar conte\u00fados pr\u00f3prios da viv\u00eancia da esfera privada, isto \u00e9, da <em>anti-estrutura<\/em>?]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(b) Ao n\u00edvel pol\u00edtico, pelo princ\u00edpio da separa\u00e7\u00e3o de poderes (p. 52).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta de Taylor alinha de modo perfeito com os dados da hist\u00f3ria do Direito, e, particularmente, do Direito Constitucional: com efeito, a quest\u00e3o da protec\u00e7\u00e3o da privacidade e da limita\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico pelo princ\u00edpio da separa\u00e7\u00e3o de poderes surge precisamente na modernidade. E assim por, a seguirmos Taylor, ter sido esse um per\u00edodo em que, pela sistem\u00e1tica aboli\u00e7\u00e3o de formas de anti-estrutura, se descobriu uma nova modalidade de poder p\u00fablico que tende para a totalidade e ao qual, por isso, h\u00e1 que colocar fortes limites.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Est\u00e1 claro, portanto, ser pr\u00f3prio da modernidade a tend\u00eancia de a estrutura desejar eliminar a anti-estrutura. \u00c9 essa a tend\u00eancia na origem do estatismo, primeiro, e do totalitarismo, depois, que s\u00e3o produtos de uma modernidade \u201ciliberal\u201d; mas est\u00e1 tamb\u00e9m presente numa qualquer educa\u00e7\u00e3o c\u00edvica que postule j\u00e1 a aus\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado. Nota-se, portanto, uma tend\u00eancia para procurar neutralizar tudo quanto coloque em causa o c\u00f3digo prevalente. \u00c9 por esta raz\u00e3o que Bauman caracteriza a Modernidade a partir do desejo de elimina\u00e7\u00e3o da ambival\u00eancia (cf. <em>Modernidade e Ambival\u00eancia, <\/em>trad. de Marcus Penchel, Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, 2007). Com efeito, o que qualquer anti-estrutura introduz \u00e9 o preciso contr\u00e1rio: ambiguidade, incerteza, porosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos ir mesmo mais longe, com Levinas: haver\u00e1 em toda a cultura ocidental, <em>no pensar \u00e0 grego <\/em>\u2013 para usar o termo idiom\u00e1tico do Autor \u2013<em>, <\/em>um desejo de <em>totalidade<\/em>, de abranger o <em>todo, <\/em>que traz consigo, portanto, a tend\u00eancia para o pensamento se fechar em si mesmo e para eliminar o que se experimenta como diferenciador da totalidade. Pensamento que, por isso, n\u00e3o se abre ao <em>outro<\/em> enquanto <em>outro <\/em>(para a <em>alteridade<\/em>), nem reserva qualquer lugar, no limite e afinal, para a pessoa pessoa humana <em>incarnada<\/em>, sempre irredut\u00edvel a um qualquer padr\u00e3o de normalidade multiplicada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como s\u00e1tira deste quadro moderno, veja-se o pertinent\u00edssimo <em>Admir\u00e1vel Mundo Novo <\/em>de Aldous Huxley: sem surpresa, os valores fundamentais de uma tal sociedade eram \u201ccomunidade, identidade, estabilidade\u201d: c\u00f3digo sem anti-c\u00f3digo; estrutura sem anti-estrutura.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 10. <em><u>Tempos fortes e tempo comum<\/u>. \u2013 <\/em>Tamb\u00e9m a viv\u00eancia do tempo passa a experimentar-se, na modernidade, de modo diferente do que ocorrera no per\u00edodo anterior (pp. 54-59). Taylor coloca em contraste o tempo \u201chomog\u00e9neo e vazio\u201d (cita\u00e7\u00e3o de Walter Benjamin), e que constitui o tempo ordin\u00e1rio, com o tempo \u201ckair\u00f3tico\u201d, que constitui um tempo superior (<em>higher time<\/em>). Em vez do s\u00edmile da altura (tempo <em>mais alto: higher<\/em>), podemos usar, penso, o da intensidade, designando esta \u00faltima modalidade de tempo a partir da locu\u00e7\u00e3o, pr\u00f3pria do discurso lit\u00fargico, \u201ctempo <em>forte<\/em>\u201d. Ora, a finalidade destes <em>tempos fortes <\/em>\u2013 como os designarei, traduzindo o <em>higher time <\/em>de Taylor \u2013 \u00e9 de organizarem e imprimirem um sentido ao tempo ordin\u00e1rio, profano, <em>secular <\/em>(p. 54).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de <em>secularidade <\/em>tem, com efeito, muito que ver com o sentido de tempo ordin\u00e1rio ou comum. Dando a voz a Taylor: \u201c\u2018Secular\u2019, como todos sabemos, prov\u00e9m de \u2018saeculum\u2019, um s\u00e9culo ou uma idade. Quando come\u00e7a a ser usado como um termo numa oposi\u00e7\u00e3o, como clero secular\/ regular, ou estar no s\u00e9culo, como oposto a viver em religi\u00e3o (isto \u00e9, nalguma ordem mon\u00e1stica), o sentido original \u00e9 derivado [<em>being drawn<\/em>] num sentido muito espec\u00edfico. As pessoas que se encontram no s\u00e9culo est\u00e3o imersas no tempo ordin\u00e1rio, experimentam a vida no tempo ordin\u00e1rio; em contraste com aqueles que se afastaram em ordem a viver mais perto da eternidade. A palavra \u00e9 por isso usada em oposi\u00e7\u00e3o a tempo forte. Uma distin\u00e7\u00e3o paralela \u00e9 temporal\/ espiritual. Enquanto uns est\u00e3o preocupados com os assuntos do tempo ordin\u00e1rio, os outros com os assuntos da eternidade.\u201d (pp. 54-55)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto o tempo ordin\u00e1rio \u00e9 <em>apenas tempo, <\/em>apenas um mero dep\u00f3sito a ser livremente preenchido, o tempo <em>forte <\/em>introduz cesuras que reordenam e ressignificam o tempo secular. Um interessante exemplo: a Sexta-Feira Santa de um certo ano, como <em>tempo forte<\/em>, est\u00e1 mais pr\u00f3xima do dia da crucifix\u00e3o, ainda que ocorrida mil\u00e9nios antes, do que do solst\u00edcio de Ver\u00e3o do mesmo ano, ainda que ocorrido no <em>tempo ordin\u00e1rio<\/em> apenas alguns meses depois (p. 55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A passagem para a modernidade marca a transi\u00e7\u00e3o de um per\u00edodo em que o tempo comum convivia com os tempos fortes para uma outra em que o tempo comum, ordin\u00e1rio, se tornou hegem\u00f3nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explica em seguida o Autor as compreens\u00f5es filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas que subjazem \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>tempo forte <\/em>(pp. 55-58). Sem entrar numa an\u00e1lise de pormenor, bastar\u00e1 sublinhar que a perspectiva subjacente aos tempos fortes os v\u00ea sempre como carregados de sentido, e n\u00e3o como um mero \u201ccontentor, indiferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que o preenche\u201d (p. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se diz sobre o tempo poder\u00e1 dizer-se, com as necess\u00e1rias adapta\u00e7\u00f5es, acerca da passagem da no\u00e7\u00e3o de <em>lugar: <\/em>de caracterizado pelo que nele se encontra (<em>place<\/em>), passa a ser perspectivado somente como <em>espa\u00e7o <\/em>(<em>space<\/em>), identificado pela <em>aus\u00eancia, <\/em>por ser tamb\u00e9m mero <em>contentor <\/em>do que quer que nele se possa colocar (p. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta nova no\u00e7\u00e3o de tempo cruzar\u00e1 bem com a ci\u00eancia moderna, por um lado, mas tamb\u00e9m com uma nova ordem moral que olhar\u00e1 o tempo essencialmente como um recurso a ser medido e controlado, para ser instrumentalizado ao servi\u00e7o dos fins a que o sujeito se prop\u00f5e \u2013 tornando cada vez mais dif\u00edcil a viv\u00eancia, ao n\u00edvel da experi\u00eancia e da sensa\u00e7\u00e3o imediata, de <em>tempos fortes, <\/em>ricos de sentido (p. 59).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 11. <em><u>Do cosmos ao universo.<\/u> \u2013 <\/em>Sublinha-se, finalmente, a passagem do <em>cosmos <\/em>ao <em>universo<\/em>, isto \u00e9, da compreens\u00e3o do mundo como um <em>todo ordenado que expressa um certo sentido, <\/em>sentido esse que poder\u00e1 ser o mesm\u00edssimo que orienta a vida individual de cada um (bastando, para o efeito, que o pr\u00f3prio conduza a sua vida de acordo com o sentido que identifica no <em>cosmos<\/em>), \u00e0 compreens\u00e3o do mundo <em>como realidade neutral, regida por leis naturais necess\u00e1rias<\/em>, a \u201cfluir no tempo secular\u201d, cujos limites n\u00e3o s\u00e3o facilmente determin\u00e1veis (pp. 60-62). Esta transi\u00e7\u00e3o do <em>cosmos <\/em>para o <em>universo <\/em>coloca em causa, tamb\u00e9m, \u00e2ncoras tradicionais para a cren\u00e7a religiosa (mas tamb\u00e9m abrindo a porta, entenda-se, a novas perspectivas que arranquem a partir deste novo quadro: cf. o que escreveu no <a href=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/\">n.\u00ba 3<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 12. <em><u>Os alicerces de uma f\u00e9 natural<\/u><\/em><u>. <em>Recapitula\u00e7\u00e3o.<\/em><\/u> \u2013 As v\u00e1rias caracter\u00edsticas que fomos vendo nos \u00faltimos n\u00fameros (5 a 11) permitem-nos identificar no mundo pr\u00e9-moderno um perfil <em>espesso, rugoso, denso<\/em>, <em>poroso, ambivalente. <\/em>Permitem-nos tamb\u00e9m compreender que esse mundo era experimentado como <em>permeado <\/em>de significados. E que, entre esses muito significados, muitos eram alusivos \u00e0 presen\u00e7a do \u201ctranscendente\u201d na vida de cada dia, que se tornava por isso uma evid\u00eancia. Da\u00ed, portanto, que nesse quadro a f\u00e9 fosse experimentada como <em>natural<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos passar agora a ver, portanto, o que espoletou o <em>desencantamento, <\/em>a <em>individua\u00e7\u00e3o<\/em>, a <em>aboli\u00e7\u00e3o de anti-estruturas, <\/em>a <em>expans\u00e3o do tempo secular <\/em>e a passagem de um <em>cosmos <\/em>a um simples <em>universo, <\/em>factores que colocaram em crise os <em>alicerces de uma f\u00e9 natural<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que faremos no pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/blende12-201217\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3094815\">Gerhard G.<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3094815\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10523,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-10522","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10522"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10522\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10525,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10522\/revisions\/10525"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10523"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}