{"id":10519,"date":"2020-10-04T18:12:46","date_gmt":"2020-10-04T17:12:46","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10519"},"modified":"2020-10-06T13:07:54","modified_gmt":"2020-10-06T12:07:54","slug":"documentos-a-cultura-na-enciclica-fratelli-tutti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/documentos-a-cultura-na-enciclica-fratelli-tutti\/","title":{"rendered":"Documentos | A &#8216;cultura&#8217; na enc\u00edclica &#8216;Fratelli Tutti&#8217;"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 160px; text-align: justify;\"><strong>A Comiss\u00e3o Diocesana da Cultura destaca algumas cita\u00e7\u00f5es sobre cultura, recolhidas da<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> enc\u00edclica &#8216;Fratelli Tutti&#8217;.<\/a> <\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px; text-align: right;\"><strong>(4 de outubro de 2020 | Dia de S. Francisco de Assis).<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 12) <em>Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum s\u00e3o instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural \u00fanico. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as na\u00e7\u00f5es, porque \u00aba sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas n\u00e3o nos faz irm\u00e3os\u00bb. Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da exist\u00eancia.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O fim da consci\u00eancia hist\u00f3rica<\/em><br \/>\n(FT 13). <em>Pelo mesmo motivo, favorece tamb\u00e9m uma perda do sentido da hist\u00f3ria que desagrega ainda mais. Nota-se a penetra\u00e7\u00e3o cultural duma esp\u00e9cie de \u00abdesconstrucionismo\u00bb, em que a liberdade humana pretende construir tudo a partir do zero. De p\u00e9, deixa apenas a necessidade de consumir sem limites e a acentua\u00e7\u00e3o de muitas formas de individualismo sem conte\u00fado.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 13). <em>Assim procedem as ideologias de variadas cores, que destroem (ou desconstroem) tudo o que for diferente, podendo assim reinar sem oposi\u00e7\u00f5es. Para isso, precisam de jovens que desprezem a hist\u00f3ria, rejeitem a riqueza espiritual e humana que se foi transmitindo atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es, ignorem tudo quanto os precedeu\u00bb.<\/em><br \/>\n(FT 14)<em> S\u00e3o as novas formas de coloniza\u00e7\u00e3o cultural. N\u00e3o nos esque\u00e7amos de que \u00abos povos que alienam a sua tradi\u00e7\u00e3o e \u2013 por mania imitativa, viol\u00eancia imposta, imperdo\u00e1vel neglig\u00eancia ou apatia \u2013 toleram que se lhes roube a alma, perdem, juntamente com a pr\u00f3pria fisionomia espiritual, a sua consist\u00eancia moral e, por fim, a independ\u00eancia ideol\u00f3gica, econ\u00f3mica e pol\u00edtica\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 17) <em>Nesta cultura que estamos a desenvolver, vazia, fixada no imediato e sem um projeto comum, \u00ab\u00e9 previs\u00edvel que, perante o esgotamento de alguns recursos, se v\u00e1 criando um cen\u00e1rio favor\u00e1vel para novas guerras, disfar\u00e7adas sob nobres reivindica\u00e7\u00f5es\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 27) <em>Reaparece \u00aba tenta\u00e7\u00e3o de fazer uma cultura dos muros, de erguer os muros, muros no cora\u00e7\u00e3o, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas. E quem levanta um muro, quem constr\u00f3i um muro, acabar\u00e1 escravo dentro dos muros que construiu, sem horizontes. Porque lhe falta esta alteridade\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 29)<em> O isolamento e o fechamento em n\u00f3s mesmos ou nos pr\u00f3prios interesses nunca ser\u00e3o o caminho para voltar a dar esperan\u00e7a e realizar uma renova\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 a proximidade, a cultura do encontro. O isolamento, n\u00e3o; a proximidade, sim. Cultura do confronto, n\u00e3o; cultura do encontro, sim\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 51)<em> Alguns pa\u00edses economicamente bem-sucedidos s\u00e3o apresentados como modelos culturais para os pa\u00edses pouco desenvolvidos, em vez de procurar que cada um cres\u00e7a com o seu estilo peculiar, desenvolvendo as suas capacidades de inovar a partir dos valores da sua pr\u00f3pria cultura. Esta nostalgia superficial e triste, que induz a copiar e comprar em vez de criar, gera uma baixa autoestima nacional.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 52) <em>Uma maneira f\u00e1cil de dominar algu\u00e9m \u00e9 destruir-lhe a autoestima. Por detr\u00e1s destas tend\u00eancias que visam uniformizar o mundo, afloram interesses de poder que se aproveitam da baixa autoestima, ao mesmo tempo que, atrav\u00e9s dos media e das redes, procuram criar uma nova cultura ao servi\u00e7o dos mais poderosos. Disto tiram vantagem o oportunismo da especula\u00e7\u00e3o financeira e a explora\u00e7\u00e3o, onde aqueles que sempre ficam a perder s\u00e3o os pobres. Por outro lado, ignorar a cultura dum povo faz com que muitos l\u00edderes pol\u00edticos n\u00e3o sejam capazes de promover um projeto eficaz que possa ser livremente assumido e sustentado ao longo do tempo.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 134) <em>As v\u00e1rias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos s\u00e9culos, devem ser salvaguardadas para que o mundo n\u00e3o fique mais pobre. Isso, por\u00e9m, sem deixar de as estimular a que permitam surgir de si mesmas algo de novo no encontro com outras realidades. N\u00e3o se pode ignorar o risco de acabarem v\u00edtimas duma esclerose cultural. Para isso, \u00abprecisamos de comunicar, descobrir as riquezas de cada um, valorizar aquilo que nos une e olhar as diferen\u00e7as como possibilidades de crescimento no respeito por todos. Torna-se necess\u00e1rio um di\u00e1logo paciente e confiante, para que as pessoas, as fam\u00edlias e as comunidades possam transmitir os valores da pr\u00f3pria cultura e acolher o bem proveniente das experi\u00eancias alheias\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 136) <em>Numa perspetiva mais ampla, eu e o Grande Im\u00e3 Ahmad Al-Tayyeb lembramos que \u00abo relacionamento entre Ocidente e Oriente \u00e9 uma necessidade m\u00fatua indiscut\u00edvel, que n\u00e3o pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civiliza\u00e7\u00e3o do outro atrav\u00e9s da troca e do di\u00e1logo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civiliza\u00e7\u00e3o do Oriente rem\u00e9dios para algumas das suas doen\u00e7as espirituais e religiosas causadas pelo dom\u00ednio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civiliza\u00e7\u00e3o do Ocidente tantos <\/em><em>elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divis\u00e3o, do conflito e do decl\u00ednio cient\u00edfico, t\u00e9cnico e cultural. \u00c9 importante prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as religiosas, culturais e hist\u00f3ricas que s\u00e3o uma componente essencial na forma\u00e7\u00e3o da personalidade, da cultura e da civiliza\u00e7\u00e3o oriental; e \u00e9 importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da pol\u00edtica de duas medidas\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 137) <em>Na realidade, a ajuda m\u00fatua entre pa\u00edses acaba por beneficiar a todos. Um pa\u00eds que progride com base no seu substrato cultural original \u00e9 um tesouro para toda a humanidade. Precisamos de fazer crescer a consci\u00eancia de que, hoje, ou nos salvamos todos ou n\u00e3o se salva ningu\u00e9m.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>(FT 141) <em>S\u00f3 poder\u00e1 ter futuro uma cultura sociopol\u00edtica que inclua o acolhimento gratuito.\u00a0<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 144)<em> A base adquirida a partir da experi\u00eancia da vida transcorrida num certo lugar e numa determinada cultura \u00e9 o que torna uma pessoa capaz de apreender aspetos da realidade que n\u00e3o conseguem entender t\u00e3o facilmente quantos n\u00e3o possuem essa experi\u00eancia. O universal n\u00e3o deve ser o dom\u00ednio homog\u00e9neo, uniforme e padronizado duma \u00fanica forma cultural imperante, que perder\u00e1 as cores do poliedro e ficar\u00e1 enfadonha. \u00c9 a tenta\u00e7\u00e3o manifestada na antiga narra\u00e7\u00e3o da Torre de Babel: a constru\u00e7\u00e3o daquela torre que chegasse at\u00e9 ao c\u00e9u n\u00e3o expressava a unidade entre v\u00e1rios povos capazes de comunicar segundo a pr\u00f3pria diversidade; antes pelo contr\u00e1rio, foi uma tentativa, <\/em><em>nascida do orgulho e da ambi\u00e7\u00e3o humana, que visava criar uma unidade diferente da desejada por Deus no seu plano providencial para as na\u00e7\u00f5es (cf. Gn 11, 1-11).<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 146) <em>H\u00e1 narcisismos bairristas que n\u00e3o expressam um amor sadio pelo pr\u00f3prio povo e a sua cultura. Escondem um esp\u00edrito fechado que, devido a uma certa inseguran\u00e7a e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser saudavelmente local sem uma sincera e cordial abertura ao universal, sem se deixar interpelar pelo que acontece noutras partes, sem se deixar enriquecer por outras culturas, nem se solidarizar com os dramas dos outros povos. Este \u00ablocalismo\u00bb encerra-se obsessivamente numas poucas ideias, costumes e seguran\u00e7as, revelando-se incapaz de admirar as m\u00faltiplas possibilidades e belezas que oferece o mundo inteiro, e carecendo duma solidariedade aut\u00eantica e generosa. Deste modo, a vida local deixa de ser verdadeiramente recetiva, j\u00e1 n\u00e3o se deixa completar pelo outro; consequentemente, fica limitada nas suas possibilidades de desenvolvimento, torna-se est\u00e1tica e adoece. Na realidade, toda a cultura saud\u00e1vel \u00e9, por natureza, aberta e acolhedora, pelo que \u00abuma cultura sem valores universais n\u00e3o \u00e9 uma verdadeira cultura\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 147) <em>Sem o relacionamento e o confronto com quem \u00e9 diferente, torna-se dif\u00edcil ter um conhecimento claro e completo de si mesmo e da sua terra, uma vez que as outras culturas n\u00e3o constituem inimigos de quem seja preciso defender-se, mas reflexos distintos da riqueza inexaur\u00edvel da vida humana. Ao olhar para si mesmo do ponto de vista do outro, de quem \u00e9 diferente, cada um pode reconhecer melhor as peculiaridades da sua pr\u00f3pria pessoa e cultura: as suas riquezas, possibilidades e limites. A experi\u00eancia que se realiza num lugar deve desenvolver-se ora \u00abem contraste\u00bb ora \u00abem sintonia\u00bb com as experi\u00eancias doutras pessoas que vivem em contextos culturais diversos.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 148) <em>Na realidade, uma s\u00e3 abertura nunca amea\u00e7a a identidade, porque, ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva n\u00e3o faz uma c\u00f3pia nem mera repeti\u00e7\u00e3o, mas integra as novidades segundo modalidades pr\u00f3prias. Isto provoca o nascimento duma nova s\u00edntese que, em \u00faltima an\u00e1lise, beneficia a todos, j\u00e1 que a cultura donde prov\u00eam estas contribui\u00e7\u00f5es acaba mais devolvida. Por isso, exortei os povos nativos a cuidarem das suas pr\u00f3prias ra\u00edzes e culturas ancestrais, mas esclarecendo que n\u00e3o era \u00abminha inten\u00e7\u00e3o propor um indigenismo completamente fechado, a-hist\u00f3rico, est\u00e1tico, que se negue a toda e qualquer forma de mesti\u00e7agem\u00bb, pois \u00aba pr\u00f3pria identidade cultural aprofunda-se e enriquece-se no di\u00e1logo com os que s\u00e3o diferentes, e o modo aut\u00eantico de a conservar n\u00e3o \u00e9 um isolamento que empobrece\u00bb. O mundo cresce e enche-se de nova beleza, gra\u00e7as a sucessivas s\u00ednteses que se produzem entre culturas abertas, fora de qualquer imposi\u00e7\u00e3o cultural.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 151) <em>A integra\u00e7\u00e3o cultural, econ\u00f3mica e pol\u00edtica com os povos vizinhos deve ser acompanhada por um processo educativo que promova o valor do amor ao vizinho, primeiro exerc\u00edcio indispens\u00e1vel para se conseguir uma sadia integra\u00e7\u00e3o universal.\u00a0<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 166) <em>A\u00a0 consist\u00eancia de tudo isto poder\u00e1 ser bem pouca, se perdermos a capacidade de reconhecer a necessidade duma mudan\u00e7a nos cora\u00e7\u00f5es humanos, nos h\u00e1bitos e estilos de vida. \u00c9 o que acontece quando a propaganda pol\u00edtica, os meios e os criadores de opini\u00e3o p\u00fablica persistem em fomentar uma cultura individualista e ing\u00e9nua \u00e0 vista de interesses econ\u00f3micos desenfreados e da organiza\u00e7\u00e3o das sociedades ao servi\u00e7o daqueles que j\u00e1 t\u00eam demasiado poder.\u00a0<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 188)<em> Cuidar da fragilidade quer dizer for\u00e7a e ternura, luta e fecundidade, no meio dum modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente \u00e0 \u201ccultura do descarte\u201d (\u2026); significa assumir o presente na sua situa\u00e7\u00e3o mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo de dignidade\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 191) <em>Enquanto os fanatismos, as l\u00f3gicas fechadas e a fragmenta\u00e7\u00e3o social e cultural proliferam na sociedade atual, um bom pol\u00edtico d\u00e1 o primeiro passo para que se ou\u00e7am as diferentes vozes. \u00c9 verdade que as diferen\u00e7as geram conflitos, mas a uniformidade gera asfixia e neutraliza-nos culturalmente. N\u00e3o nos resignemos a viver fechados num fragmento da realidade.\u00a0<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 199) <em>Alguns tentam fugir da realidade, refugiando-se em mundos privados, enquanto outros a enfrentam com viol\u00eancia destrutiva, mas \u00abentre a indiferen\u00e7a ego\u00edsta e o protesto violento, h\u00e1 uma op\u00e7\u00e3o sempre poss\u00edvel: o di\u00e1logo. O di\u00e1logo entre as gera\u00e7\u00f5es, o di\u00e1logo no povo, porque todos somos povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos \u00e0 verdade. Um pa\u00eds cresce quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais: a cultura popular, a cultura universit\u00e1ria, a cultura juvenil, a cultura art\u00edstica e a cultura tecnol\u00f3gica, a cultura econ\u00f3mica e a cultura da fam\u00edlia, e a cultura dos meios de comunica\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 206) <em>Quando \u00e9 a cultura que se corrompe deixando de reconhecer qualquer verdade objetiva ou quaisquer princ\u00edpios universalmente v\u00e1lidos, as leis s\u00f3 se poder\u00e3o entender como imposi\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias e obst\u00e1culos a evitar\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 213) <em>Que todo o ser humano possui uma dignidade inalien\u00e1vel \u00e9 uma verdade que corresponde \u00e0 natureza humana, independentemente de qualquer transforma\u00e7\u00e3o cultural. Por isso o ser humano possui a mesma dignidade inviol\u00e1vel em todo e qualquer per\u00edodo da hist\u00f3ria, e ningu\u00e9m pode sentir-se autorizado, pelas circunst\u00e2ncias, a negar esta convic\u00e7\u00e3o nem a agir em sentido contr\u00e1rio.\u00a0<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>(FT 215-218)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Uma nova cultura<\/em><\/strong><br \/>\n(FT 215). <em>\u00abA vida \u00e9 a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida\u00bb. J\u00e1 v\u00e1rias vezes convidei a fazer crescer uma cultura do encontro que supere as dial\u00e9ticas que colocam um contra o outro. \u00c9 um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos comp\u00f5em uma unidade rica de matizes, porque \u00abo todo \u00e9 superior \u00e0 parte\u00bb. O poliedro representa uma sociedade onde as diferen\u00e7as convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discuss\u00f5es e desconfian\u00e7as. Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ningu\u00e9m \u00e9 in\u00fatil, ningu\u00e9m \u00e9 sup\u00e9rfluo. Isto implica incluir as periferias. Quem vive nelas tem outro ponto de vista, v\u00ea aspetos da realidade que n\u00e3o se descobrem a partir dos centros de poder onde se tomam as decis\u00f5es mais determinantes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>O encontro feito cultura<\/strong><\/em><br \/>\n(FT 216). <em>A palavra \u00abcultura\u00bb indica algo que penetrou no povo, nas suas convic\u00e7\u00f5es mais profundas e no seu estilo de vida. Quando falamos duma \u00abcultura\u00bb no povo, trata-se de algo mais que uma ideia ou uma abstra\u00e7\u00e3o; inclui as aspira\u00e7\u00f5es, o entusiasmo e, em \u00faltima an\u00e1lise, um modo de viver que carateriza aquele grupo humano. Assim, falar de \u00abcultura do encontro\u00bb significa que nos apaixona, como povo, querer encontrar-nos, procurar pontos de contacto, lan\u00e7ar pontes, projetar algo que envolva a todos. Isto tornou-se uma aspira\u00e7\u00e3o e um estilo de vida. O sujeito desta cultura \u00e9 o povo, n\u00e3o um setor da sociedade que tenta manter tranquilo o resto com recursos profissionais e medi\u00e1ticos.<\/em><br \/>\n(FT 217). <em>A paz social \u00e9 laboriosa, artesanal. Seria mais f\u00e1cil conter as liberdades e as diferen\u00e7as com um pouco de ast\u00facia e algumas compensa\u00e7\u00f5es; mas esta paz seria superficial e fr\u00e1gil, n\u00e3o o fruto duma cultura do encontro que a sustente. Integrar as realidades diferentes \u00e9 muito mais dif\u00edcil e lento, embora seja a garantia duma paz real e s\u00f3lida. Isto n\u00e3o se consegue agrupando s\u00f3 os puros, porque \u00abat\u00e9 mesmo as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros, t\u00eam algo a oferecer que n\u00e3o se deve perder\u00bb. Nem consiste numa paz que surja acalmando as reivindica\u00e7\u00f5es sociais ou impedindo-as de criar confus\u00e3o, pois n\u00e3o \u00e9 \u00abum consenso de escrit\u00f3rio nem uma paz ef\u00e9mera para uma feliz minoria\u00bb. O que conta \u00e9 gerar processos de encontro, processos que possam construir um povo capaz de recolher as diferen\u00e7as. Armemos os nossos filhos com as armas do di\u00e1logo! Ensinemos-lhes a boa batalha do encontro!<\/em><\/p>\n<p><em><strong>O prazer de reconhecer o outro<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 218). <em>Isto implica o h\u00e1bito de reconhecer, ao outro, o direito de ser ele pr\u00f3prio e de ser diferente. A partir deste reconhecimento feito cultura, torna-se poss\u00edvel a cria\u00e7\u00e3o dum pacto social. Sem este reconhecimento, surgem maneiras subtis de fazer com que o outro perca todo o seu significado, se torne irrelevante, fazer com que na sociedade n\u00e3o lhe seja reconhecido qualquer valor. Por tr\u00e1s da repulsa de certas formas vis\u00edveis de viol\u00eancia, muitas vezes esconde-se outra viol\u00eancia mais dissimulada: a daqueles que desprezam o diferente, sobretudo quando as suas reivindica\u00e7\u00f5es prejudicam dalguma maneira os pr\u00f3prios interesses.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 219) <em>Os sonhos de liberdade, igualdade e fraternidade podem permanecer no n\u00edvel de meras formalidades, porque n\u00e3o s\u00e3o efetivamente para todos. Sendo assim, n\u00e3o se trata apenas de procurar um encontro entre aqueles que det\u00eam v\u00e1rias formas de poder econ\u00f3mico, pol\u00edtico ou acad\u00e9mico; um efetivo encontro social coloca em verdadeiro di\u00e1logo as grandes formas culturais que representam a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, as boas propostas n\u00e3o s\u00e3o assumidas pelos setores mais pobres, porque se apresentam com uma roupagem cultural que n\u00e3o \u00e9 a deles e com a qual n\u00e3o podem sentir-se identificados. Por conseguinte, um pacto social realista e inclusivo deve ser tamb\u00e9m um \u00abpacto cultural\u00bb, que respeite e assuma as diversas vis\u00f5es do mundo, as culturas e os estilos de vida que coexistem na sociedade.\u00a0<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>(FT 220-221)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 220).<em> Por exemplo, os povos nativos n\u00e3o s\u00e3o contra o progresso, embora tenham uma ideia diferente de progresso, frequentemente mais humanista que a da cultura moderna dos povos desenvolvidos. N\u00e3o \u00e9 uma cultura orientada para benef\u00edcio daqueles que det\u00eam o poder, daqueles que precisam de criar uma esp\u00e9cie de para\u00edso sobre a terra. A intoler\u00e2ncia e o desprezo perante as culturas populares ind\u00edgenas s\u00e3o uma verdadeira forma de viol\u00eancia, pr\u00f3pria dos especialistas em \u00e9tica sem bondade que vivem julgando os outros. Mas nenhuma mudan\u00e7a aut\u00eantica, profunda e est\u00e1vel \u00e9 poss\u00edvel, se n\u00e3o se realizar a partir das v\u00e1rias culturas, principalmente dos pobres. Um pacto cultural pressup\u00f5e que se renuncie a compreender de maneira monol\u00edtica a identidade dum lugar, e exige que se respeite a diversidade, oferecendo-lhe caminhos de promo\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o social.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 221).<em> Este pacto implica tamb\u00e9m aceitar a possibilidade de ceder algo para o bem comum. Ningu\u00e9m ser\u00e1 capaz de possuir toda a verdade nem satisfazer a totalidade dos seus desejos, porque uma tal pretens\u00e3o levaria a querer destruir o outro, negando-lhe os seus direitos. A busca duma falsa toler\u00e2ncia deve dar lugar ao realismo dialogante por parte de quem pensa que deve ser fiel aos seus princ\u00edpios, mas reconhecendo que o outro tamb\u00e9m tem o direito de procurar ser fiel aos dele. Tal \u00e9 o aut\u00eantico reconhecimento do outro, que s\u00f3 o amor torna poss\u00edvel e que significa colocar-se no lugar do outro para descobrir o que h\u00e1 de aut\u00eantico ou pelo menos de compreens\u00edvel no meio das suas motiva\u00e7\u00f5es e interesses.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 224). <em>A amabilidade \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o da crueldade que \u00e0s vezes penetra nas rela\u00e7\u00f5es humanas, da ansiedade que n\u00e3o nos deixa pensar nos outros, da urg\u00eancia distra\u00edda que ignora que os outros tamb\u00e9m t\u00eam direito de ser felizes. Hoje raramente se encontram tempo e energias dispon\u00edveis para se demorar a tratar bem os outros, para dizer \u00abcom licen\u00e7a\u00bb, \u00abdesculpe\u00bb, \u00abobrigado\u00bb. Contudo de vez em quando verifica-se o milagre duma pessoa am\u00e1vel, que deixa de lado as suas preocupa\u00e7\u00f5es e urg\u00eancias para prestar aten\u00e7\u00e3o, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de est\u00edmulo, possibilitar um espa\u00e7o de escuta no meio de tanta indiferen\u00e7a. Este esfor\u00e7o, vivido dia a dia, \u00e9 capaz de criar aquela conviv\u00eancia sadia que vence as incompreens\u00f5es e evita os conflitos. O exerc\u00edcio da amabilidade n\u00e3o \u00e9 um detalhe insignificante nem uma atitude superficial ou burguesa. Dado que pressup\u00f5e estima e respeito, quando se torna cultura numa sociedade, transforma profundamente o estilo de vida, as rela\u00e7\u00f5es sociais, o modo de debater e confrontar as ideias. Facilita a busca de consensos e abre caminhos onde a exaspera\u00e7\u00e3o destr\u00f3i todas as pontes.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">(FT 285) <em>Em nome de Deus e de tudo isto, (\u2026) declaramos adotar a cultura do di\u00e1logo como caminho; a colabora\u00e7\u00e3o comum como conduta; o conhecimento m\u00fatuo como m\u00e9todo e crit\u00e9rio\u00bb.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem recolhida da <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fratelli-tutti-francisco-assina-299a-enciclica-na-historia-da-igreja\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ag\u00eancia Ecclesia<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Diocesana<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10520,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-10519","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10519"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10519\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10527,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10519\/revisions\/10527"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10520"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}