{"id":10419,"date":"2020-11-19T08:00:42","date_gmt":"2020-11-19T08:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10419"},"modified":"2020-09-24T10:50:04","modified_gmt":"2020-09-24T09:50:04","slug":"pensamento-de-edith-stein-individuo-e-comunidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-individuo-e-comunidade\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | Indiv\u00edduo e comunidade"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Indiv\u00edduo e comunidade<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) Processo redactorial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra <em>Indiv\u00edduo e comunidade<\/em> (<em>Individuum und Gemeinschaft<\/em>), est\u00e1 estritamente ligada \u00e0 anterior, dado que, como j\u00e1 indicamos, apareceram publicadas sob uma mesma ep\u00edgrafe. Neste escrito afronta directamente o tema da comunidade social e das rela\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo com a mesma. A sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 salvaguardar o valor e a distin\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e da comunidade no seu sentido pol\u00edtico e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista hist\u00f3rico, devemos situ\u00e1-lo imediatamente depois de <em>Causalidade Ps\u00edquica<\/em>, que j\u00e1 estava conclu\u00eddo nos fins de 1918. O presente estudo realiz\u00e1-lo-\u00e1 fundamentalmente durante 1919.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos meses de 1918 Edite tinha decidido participar activamente na pol\u00edtica. Estava muito preocupada pela situa\u00e7\u00e3o em que tinha ficado a Alemanha depois de uma guerra em que tinha sido vencida e profundamente humilhada. Tamb\u00e9m porque se tinham criado, aproveitando o caos do fim da guerra, diversas revolu\u00e7\u00f5es que criaram uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social muito dif\u00edcil. \u00c9 certo que a miss\u00e3o principal que Edite assume \u00e9 a de consciencializar as mulheres para que exer\u00e7am o seu direito ao voto. N\u00e3o obstante, passados poucos meses abandona esta actividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, a preocupa\u00e7\u00e3o existencial e intelectual pela situa\u00e7\u00e3o vai ficar claramente reflectida nesta obra. Tem-na conclu\u00eda no m\u00eas de Setembro de 1919. Numa carta a Ingarden, datada de 16-IX-1919, comunica-lhe: \u201cEntretanto, a minha colabora\u00e7\u00e3o para a <em>Homenagem <\/em>aumentou de tal maneira que preparei um segundo ensaio sobre <em>Indiv\u00edduo e comunidade<\/em> (resultado da minha actividade pol\u00edtica, que me teve completamente absorvida v\u00e1rios meses); os dois juntos, sob o t\u00edtulo <em>Contributos para a fundamenta\u00e7\u00e3o<\/em> <em>filos\u00f3fica da psicologia e das ci\u00eancias do esp\u00edrito<\/em>, devem-me servir como trabalho de concurso para a c\u00e1tedra\u201d (Ct 680-681).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Edite oferece-nos aqui dois dados importantes: o primeiro, j\u00e1 o indicamos, realiza e conclui a obra em 1919; o segundo dado \u00e9 o objectivo de aceder agora a uma c\u00e1tedra, esperando que estes dois ensaios lhe sirvam como tese de habilita\u00e7\u00e3o. Esta era uma exig\u00eancia ou requisito nas universidades alem\u00e3s para se poder candidatar a uma c\u00e1tedra. Nesta mesma carta a Ingarden fala-nos onde est\u00e1 a pensar candidatar-se: \u201cSe sair\u00e1 algo do concurso para a c\u00e1tedra, a verdade \u00e9 que ainda \u00e9 muito question\u00e1vel. Husserl recusou <em>a l\u00edmine<\/em> (desde o princ\u00edpio) realiz\u00e1-lo em Friburgo, ou seja, poder realiz\u00e1-lo. Pressionada pela senhora Reinach fiz dilig\u00eancias em Gotingen no \u00faltimo semestre. O resultado \u00e9 muito incerto, j\u00e1 que a Faculdade est\u00e1 muito dividida&#8230; Pensei tamb\u00e9m em Kiel&#8230;\u201d (ib.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos, al\u00e9m disso, que pela sua condi\u00e7\u00e3o de mulher n\u00e3o p\u00f4de aceder a essa desejada c\u00e1tedra. Contudo, o trabalho aparecer\u00e1 publicado em 1922.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) Estrutura e conte\u00fado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra est\u00e1 dividida em duas grandes partes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>A corrente da viv\u00eancia da comunidade<\/li>\n<li>A comunidade como realidade, a sua estrutura \u00f4ntica.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema que Edite se prop\u00f5e estudar \u00e9 o da comunidade social, tema de candente actualidade no momento em que o escreve. Como ponto de partida faz sua a distin\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo Ferdinand T\u00f6nnies entre \u201ccomunidade\u201d e \u201csociedade\u201d, analisando em que sentido os indiv\u00edduos se relacionam ou participam nestas formas sociais. A sociedade compreende-se como uma forma associativa mec\u00e2nica e racional, um conjunto de indiv\u00edduos, onde cada um se op\u00f5e como sujeito aos outros, entendidos como objectos. Pelo contr\u00e1rio, a comunidade \u00e9 uma forma org\u00e2nica natural e viva, na qual todos se reconhecem como sujeitos, e onde a rela\u00e7\u00e3o se fundamenta na solidariedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o estudo Edite vai mais al\u00e9m. Constata que existe outra s\u00e9rie de grupos humanos que n\u00e3o se podem encaixar unilateralmente nem numa nem noutra categoria. H\u00e1 associa\u00e7\u00f5es nas quais se d\u00e1 uma forma mista de encontro. Na comunidade pode-se fazer uso de \u201csociedades\u201d para levar a cabo um fim, porque, de facto, \u00e9 poss\u00edvel a comunidade sem a sociedade. Pelo contr\u00e1rio, uma sociedade sem comunidade, n\u00e3o poderia funcionar nem subsistir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A atitude do indiv\u00edduo vai depender tamb\u00e9m do modo como se situa perante os outros. Se assume o car\u00e1cter comunit\u00e1rio, o seu agir ter\u00e1 em vista o bem comum. Se, pelo contr\u00e1rio, assume o car\u00e1cter de sociedade, para ele os outros, o grupo, \u00e9 um simples meio ou instrumento para levar a cabo os seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na comunidade encontramos tr\u00eas factores que s\u00e3o fundamentais no seu funcionamento intr\u00ednseco: o indiv\u00edduo com a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, a experi\u00eancia comum e a energia vital que unifica estas experi\u00eancias. De facto, Edite vai dedicar muitas p\u00e1ginas ao tema da energia vital da comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma comunidade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um objecto, mas um sujeito social, um n\u00f3s que engloba a muitos indiv\u00edduos, onde cada um \u00e9 reconhecido e aceite como sujeito, quer dizer, como pessoa com experi\u00eancias pr\u00f3prias, com viv\u00eancias. Por isso, pode-se falar de uma experi\u00eancia comum da comunidade, mesmo quando a origem s\u00e3o muitos indiv\u00edduos que a formam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O indiv\u00edduo, no entanto, n\u00e3o se esgota no seu ser social. Leva sempre no seu interior uma reserva \u00fanica de energia vital ou espiritual. Comunidade e individualidade t\u00eam necessidade uma da outra para poder existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na unidade do ser pessoal h\u00e1 que distinguir entre a alma, entendida aqui como o eu individual, e o esp\u00edrito ou tend\u00eancia espiritual, que \u00e9 o que leva a pessoa para o mundo objectivo, para o que est\u00e1 mais al\u00e9m de si mesma, e para a vida dos outros sujeitos. Por isso, a comunidade \u00e9, na sua raiz mais profunda, algo que surge da realiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo que tem necessariamente de sair de si. O \u00e2mbito mais aut\u00eantico desta realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a comunidade. S\u00f3 nela, na medida em que se trata de uma aut\u00eantica comunidade, a sua liberdade e a sua individualidade n\u00e3o se destroem, mas realizam-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As implica\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias deste estudo steiniano ver-se-\u00e3o claramente reflectidas em todo o seu pensamento antropol\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 102-103.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/Hans-2\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=61264\">Hans Braxmeier<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=61264\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10420,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-10419","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10419"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10421,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10419\/revisions\/10421"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10420"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}