{"id":10411,"date":"2020-11-05T08:00:34","date_gmt":"2020-11-05T08:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10411"},"modified":"2020-09-24T10:38:43","modified_gmt":"2020-09-24T09:38:43","slug":"pensamento-de-edith-stein-o-problema-da-empatia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-o-problema-da-empatia\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | O problema da empatia"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">O PROBLEMA DA EMPATIA<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>a) O processo de redac\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos seguir muito bem o processo de gesta\u00e7\u00e3o deste escrito. De facto, possu\u00edmos informa\u00e7\u00e3o directa da pr\u00f3pria autora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua elabora\u00e7\u00e3o na sua Autobiografia (cf. OC I).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos que se trata da sua tese de doutoramento em filosofia e que vai surgir no \u00e2mbito da escola fenomenol\u00f3gica. Quando decidiu fazer o seu doutoramento com Husserl (em 1913), concertando com ele o tema, concordaram que o trabalho fosse sobre o tema da \u201cempatia\u201d, esse acto de conhecimento que Husserl mencionava nas suas aulas e que ainda estava por definir claramente: \u201cNo seu curso sobre a natureza e o esp\u00edrito, Husserl tinha falado de que um mundo objectivo exterior s\u00f3 pode ser experimentado intersubjectivamente, isto \u00e9, por uma pluralidade de indiv\u00edduos conhecedores que estivessem situados em interc\u00e2mbio cognitivo. Segundo isto, pressup\u00f5e-se a experi\u00eancia dos outros. A esta peculiar experi\u00eancia, Husserl&#8230; chamava-lhe <em>Einf\u00fchlung<\/em> (Empatia). No entanto, Husserl n\u00e3o tinha precisado em que consistia. Isto era uma lacuna que havia que preencher. Eu queria investigar o que era a <em>Einf\u00fchlung<\/em>\u201d (A 374).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Husserl, que tomara emprestado o conceito de Theodor Lipps, aceita contente o tema, mas com a condi\u00e7\u00e3o de que fizesse um estudo comparativo e hist\u00f3rico-cr\u00edtico preliminar sobre o tema. Infelizmente esta parte n\u00e3o se conservou pois a publica\u00e7\u00e3o da sua tese em 1917, apareceu sem este primeiro cap\u00edtulo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o processo de elabora\u00e7\u00e3o da tese, aparentemente tr\u00eas anos, vai ser muito irregular. De facto, Edite ver-se-\u00e1 obrigada a fazer longas interrup\u00e7\u00f5es por diversos motivos: a prepara\u00e7\u00e3o do exame de estado, o in\u00edcio da guerra mundial e a sua actividade como volunt\u00e1ria da Cruz Vermelha, o seu compromisso de dar aulas de latim na sua antiga escola, etc&#8230; Mas o resultado n\u00e3o se ressente destas interrup\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A prepara\u00e7\u00e3o do seu trabalho de tese prolongar-se-\u00e1 at\u00e9 1916. Nessa altura Husserl tinha sido nomeado professor da Universidade de Freiburg. E ser\u00e1 aqui onde Edite ter\u00e1 que fazer a defesa da sua tese a 3 de Agosto de 1916. Vai obter a nota m\u00e1xima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a finalidade de se dar a conhecer Edite quis publicar esta obra o mais depressa poss\u00edvel. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica n\u00e3o era nada favor\u00e1vel, dada a crise econ\u00f3mica provocada pelo acontecimento da guerra, que tinha encarecido muit\u00edssimo o pre\u00e7o do papel. Isto obrigou-a a ter que se conformar com publicar s\u00f3 a parte essencial da obra, prescindindo do cap\u00edtulo inicial, um estudo hist\u00f3rico comparativo do conceito da empatia. A obra apareceu publicada em 1917 com o t\u00edtulo: <em>Zum Problem der<\/em> <em>Einf\u00fchlung<\/em> (<em>Sobre o problema da empatia<\/em>). Encarregou a publica\u00e7\u00e3o \u00e0 editorial Weisenhauses de Halle.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>b) Estrutura e conte\u00fado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra, tal como foi publicada, consta de tr\u00eas partes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>A ess\u00eancia dos actos da empatia<\/li>\n<li>A constitui\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo psicof\u00edsico<\/li>\n<li>A empatia como compreens\u00e3o de pessoas espirituais.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira parte \u00e9 um estudo da ess\u00eancia dos actos da empatia seguindo o m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico, o da \u201credu\u00e7\u00e3o fenomenol\u00f3gica\u201d tomando como fim o da mesma fenomenologia, a saber, \u201co esclarecimento e portanto a \u00faltima base de todo o conhecimento\u201d. A \u201cEinf\u00fchlung\u201d (termo alem\u00e3o que traduzimos por Empatia) n\u00e3o se confunde com a mem\u00f3ria, nem com a imagina\u00e7\u00e3o, nem com a percep\u00e7\u00e3o externa, embora tenham com elas algo em comum. \u201cTodos estes dados de viv\u00eancias de outros remetem para um g\u00e9nero b\u00e1sico de actos, em cuja viv\u00eancia estranha se expressa e que n\u00f3s, depois de considerar todas as tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas ligadas \u00e0 palavra, queremos designar como empatia\u201d. \u00c9 o primeiro objectivo que Edite se prop\u00f5e: \u201cperceber e descrever estes actos numa grande generalidade de ess\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclui esta primeira parte com uma confronta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com as teorias da apreens\u00e3o alheias formuladas por Lipps e Sheler. Este \u00faltimo ter\u00e1 em conta as anota\u00e7\u00f5es feitas por Edite quando publique em 1931 o seu estudo <em>Wesen und Formen der Sympathie<\/em> (<em>Ess\u00eancia e forma da simpatia<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda parte da obra est\u00e1 dedicada \u00e0 an\u00e1lise da Empatia como problema da constitui\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo psicof\u00edsico. O indiv\u00edduo \u201cpsicof\u00edsico\u201d n\u00e3o \u00e9 algo simples: \u00e9 um \u201ccomposto\u201d de v\u00e1rios extractos: o Eu puro, como sujeito de experi\u00eancia e unidade de consci\u00eancia; a alma como parte essencial do indiv\u00edduo, a sua unidade substancial; o corpo que est\u00e1 unido \u00e0 alma e que se vive como \u201cexperi\u00eancia\u201d, como \u201cmeu corpo\u201d e portanto como algo vivo (<em>Leib <\/em>e n\u00e3o <em>K\u00f6rper<\/em>). Antes de concluir enfrenta o tema das rela\u00e7\u00f5es intersubjectivas, a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o com o outro, a possibilidade de empatizar. Ent\u00e3o a Empatia manifesta-se como uma forma de experi\u00eancia intersubjectiva que possibilita a constitui\u00e7\u00e3o de um mundo objectivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira parte trata o problema da pessoa em rela\u00e7\u00e3o com a Empatia. O ponto de partida na interpreta\u00e7\u00e3o do ser da pessoa parece ser o naturalista, no entanto, a sua vis\u00e3o \u00e9 de um car\u00e1cter totalmente personalista. De facto, p\u00f5e o seu acento na consci\u00eancia do indiv\u00edduo enquanto constituinte do objecto. Neste sentido, a sua vis\u00e3o da consci\u00eancia \u00e9 entendida como esp\u00edrito e n\u00e3o como algo de ordem natural. A Empatia move-se neste campo espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista do que implica e significa este estudo na vida da autora podemos tirar algumas conclus\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 o ser humano n\u00e3o se compreende sen\u00e3o como um ser espiritual, capaz de sair de si mesmo, de se transcender. E este transcender-se \u00e9 algo fundamental para o desenvolvimento do seu ser, tanto para conhecer o mundo, o outro, como para se conhecer a si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 o exerc\u00edcio da empatia \u00e9 fundamental para o ser humano reconhecer os outros como \u201csujeitos\u201d de experi\u00eancia, e n\u00e3o como meros objectos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Em definitivo, o problema que Edite pretende resolver \u00e9 o da pessoa como sujeito espiritual. \u00c9 o fundamento de todas as suas investiga\u00e7\u00f5es posteriores nas quais o interesse antropol\u00f3gico constitui a sua preocupa\u00e7\u00e3o primordial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Javier Sancho.<em> 100 Fichas sobre Edith Stein. <\/em>Edi\u00e7\u00f5es Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 98-99.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/JacksonDavid-1857643\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5216581\">Jackson David<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5216581\">Pixabay<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10412,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-10411","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10411"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10411\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10414,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10411\/revisions\/10414"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10412"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}