{"id":10367,"date":"2020-12-03T08:00:57","date_gmt":"2020-12-03T08:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10367"},"modified":"2020-09-21T10:17:17","modified_gmt":"2020-09-21T09:17:17","slug":"oratorio-peregrino-37-maria-duas-vezes-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/oratorio-peregrino-37-maria-duas-vezes-mae\/","title":{"rendered":"Orat\u00f3rio Peregrino | 37 | Maria duas vezes m\u00e3e"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Orat\u00f3rio Peregrino<\/strong><\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 360px;\">Um orat\u00f3rio \u00e0 maneira de um vi\u00e1tico para tempos de carestia<br \/>\nUma proposta desenvolvida em parceria com<\/h6>\n<p style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><strong>Irm\u00e3s do Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h3 style=\"padding-left: 40px; text-align: center;\">XXXVII Passo | Maria duas vezes m\u00e3e<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de estranhar que Isabel \u2013 na mais pura linha do seu \u00abcarisma\u00bb pessoal: viver intensamente a Presen\u00e7a e o Louvor de Deus no c\u00e9u da sua alma \u2013 entre hoje pela porta do \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb no mist\u00e9rio de Maria, \u00abvejo-a t\u00e3o bela\u00bb. \u00abToda a sua hist\u00f3ria pode resumir-se nestas breves palavras: Foi <em>no seu cora\u00e7\u00e3o<\/em> que ela viveu\u00bb. E quando admira Maria pela pressa com que foi ajudar a sua prima Isabel, o que mais lhe impressiona \u00e0 nossa religiosa carmelita \u00e9 tamb\u00e9m a sua paz interior e o seu \u00abrecolhimento interior com o Verbo de Deus\u00bb. Maria sabe \u00abdivinizar at\u00e9 as coisas mais banais\u00bb (CF 40). Maria \u00e9 \u00abM\u00e3e\u00bb e \u00abescrava\u00bb, t\u00e3o humilde que desconhece a sua imensa riqueza, e a sua actividade nasce de uma profunda corrente \u00e0 qual est\u00e1 permanentemente unida, \u00abrecolhida no seu interior com o Verbo de Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel vive fascinada pela \u00absimplicidade\u00bb e a \u00abprofundidade\u00bb que se encontram ao mesmo tempo na alma de Maria. \u00abO olhar humano n\u00e3o a consegue seguir\u00bb, incapaz como \u00e9 de \u00absurpreender os movimentos t\u00e3o profundos\u00bb. Parece desenhar-se uma imagem subjacente: a de um lago, ao mesmo tempo abissal e sereno, que capta e reflecte toda a luz do c\u00e9u. Com efeito, Isabel sublinha que Maria \u00abparece reproduzir\u00bb a vida profunda de Deus, o \u00abSer simples\u00bb. \u00abTransparente\u00bb e \u00abluminosa\u00bb como \u00aba luz\u00bb, encontra-se \u00absem d\u00favida \u00e0 dist\u00e2ncia que existe entre o Infinito e o finito\u00bb, como um \u00abespelho do Sol\u00bb divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel diz-se a si mesma quando diz Maria. Contempla em Maria o que ela pr\u00f3pria sonha ser com toda a alma. Ao fazer-se filha de Nossa Senhora do Carmo \u2013 \u00abnossa M\u00e3e\u00bb (Ct 136) \u2013, Isabel da Trindade descobrir\u00e1 nela \u00abo modelo das almas interiores\u00bb (CF 40). E como Maria lhe foi dada por Jesus (\u00ab<em>Eis a\u00ed a tua M\u00e3e<\/em>\u00bb), Isabel contempla-se em Maria como se contempla em Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre esses dois espelhos n\u00e3o existe a menor oposi\u00e7\u00e3o. Quando contempla a Maria, Isabel v\u00ea a Maria, e v\u00ea a Maria cheia de Jesus, do mesmo modo que um espelho est\u00e1 cheio da luz que nele se reflecte. Que uni\u00e3o t\u00e3o inenarr\u00e1vel entre o filho e a m\u00e3e, que \u00abassun\u00e7\u00e3o\u00bb de Maria em Jesus! Assim o contemplava Isabel: \u00abJesus e Maria amaram-se tanto: todo o cora\u00e7\u00e3o de um se derramava no do outro\u00bb (Ct 188). Entre Jesus, Maria e Isabel \u2013 ou tu? \u2013 vai-se estabelecendo uma \u00abtrindade\u00bb de amor e de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em consequ\u00eancia, neste \u00ab\u00daltimo Retiro Espiritual\u00bb encontram-se uma s\u00e9rie significativa de tr\u00edplices semelhan\u00e7as. Jesus, Maria, Isabel: Filho e filhas do mesmo Pai celeste. Jesus, Maria e Isabel: todos eles \u00ablouvores de gl\u00f3ria\u00bb ao Pai, sendo Jesus \u00abo perfeito louvor\u00bb (UR 2), Maria \u00abo grande louvor\u00bb (UR 40) e Isabel o pequeno louvor. Maria \u00abplenamente imaculada\u00bb (UR 40), Isabel que o vai sendo cada vez mais para obedecer ao plano de Deus que S\u00e3o Paulo lhe oferece (UR 36), e ambas \u00abreproduzindo a imagem do seu Filho\u00bb (UR 41; 37). Jesus, Maria e Isabel dizem unanimemente ao Pai: \u00abEis-me aqui\u00bb (UR 37; 40). Jesus, Maria e Isabel: \u00abassociados \u00e0 grande obra da reden\u00e7\u00e3o\u00bb (UR 41). E que grande semelhan\u00e7a em todas as virtudes!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos deter-nos um momento na virtude da fortaleza. Isabel admira esta virtude em Jesus (UR 3; 13), e admira-a tamb\u00e9m em Maria com uma conota\u00e7\u00e3o de \u00abvalentia\u00bb e de \u00abternura\u00bb, de \u00abmajestade\u00bb e de \u00abserenidade\u00bb (UR 41). Ao p\u00e9 da cruz, Maria aprendeu\u00bb de seu Filho esta fortaleza; agora que Isabel se encontra por sua vez \u00abna cruz&#8230; a Virgem a\u00ed est\u00e1 para lhe ensinar a sofrer como Ele\u00bb e para, no fim, guiar a sua filha para o c\u00e9u (UR 41). Ambas s\u00e3o disc\u00edpulas do Mestre, e Maria \u00e9 mestra de Isabel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No sofrimento, Isabel redescobriu, por assim dizer, a Maria como m\u00e3e e como protectora da sua serenidade: \u00abNunca a amei tanto! Choro de alegria ao pensar que esta Criatura completamente serena, toda luminosa \u00e9 a minha M\u00e3e, e alegro-me com a sua beleza como uma crian\u00e7a que ama sua m\u00e3e. Tenho uma inclina\u00e7\u00e3o muito forte para ela e erigi-a como Rainha e Guardi\u00e3 do meu c\u00e9u, e do teu\u00bb, acrescenta Isabel para a Guida e para ti (Ct 298). O seu amor a Maria leva-a a contemplar a Trindade. E fala de ambas num mesmo arranque: \u00abSejamos, no c\u00e9u da nossa alma, louvores de gl\u00f3ria da Sant\u00edssima Trindade e louvores de amor da nossa M\u00e3e Imaculada\u00bb (CF 44).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o esque\u00e7amos que \u00abLouvor de gl\u00f3ria\u00bb era o <em>segundo<\/em> nome \u00abnome novo\u00bb (Ap 2, 17) que Isabel tinha intu\u00eddo que teria no c\u00e9u. O primeiro tinha sido \u00abVontade de Deus\u00bb (NI 12); e este continua a mant\u00ea-lo, um pouco \u00e0 guisa de apelido, e \u00ablouvor\u00bb como nome pr\u00f3prio utilizado habitualmente. A vontade de Deus (\u00ab<em>Eis-me aqui<\/em>\u00bb) tinha-se tornado para Isabel algo t\u00e3o fundamental, e incorporado aos seus costumes e encarnado de tal forma na sua vida quotidiana, que fala relativamente pouco disso. Para ela, tudo se recapitulava no ideal de \u00abamar\u00bb sem limites, ou \u2013 na linguagem mais teol\u00f3gica de S\u00e3o Paulo \u2013 tudo se recapitulava no grande \u00abdes\u00edgnio\u00bb \u00abdecis\u00e3o\u00bb, \u00abvontade\u00bb) de Deus, ao \u00abeleger-nos\u00bb e \u00abpredestinar-nos\u00bb a ser \u00abimagem\u00bb do seu Filho Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em qualquer situa\u00e7\u00e3o, Isabel descobre esta Vontade redentora e santificante em ac\u00e7\u00e3o, e nessa grandiosa perspectiva \u00e9 onde se atreve a utilizar, durante a sua dolorosa doen\u00e7a, express\u00f5es como: \u00abO Pai crucificou-a com seu Filho\u00bb (UR 38) ou \u00abp\u00f4s-me a substitu\u00ed-l\u2019O em seu lugar na Cruz\u00bb (UR 41). N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que ela sabe bem que sofre e morre porque o seu organismo j\u00e1 n\u00e3o funciona. E \u00abtratar-se \u00e9 seu dever e a melhor penit\u00eancia\u00bb (Ct 249). Mas, ao mesmo tempo, Isabel n\u00e3o quer \u00abtratar com as causas segundas\u00bb (f\u00edsicas, materiais, humanas e relacionais, num mundo em cont\u00ednua evolu\u00e7\u00e3o e que Deus n\u00e3o quis criar acabado), \u00abmas\u00bb tratar \u2013 e tratar a essas causas segundas \u2013 \u00absomente com Deus\u00bb (GV 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel decidiu viver tudo, mesmo o sofrimento, num incessante \u00abdi\u00e1logo de amor\u00bb (Ct 172) com Deus Presente nela, o seu Futuro e o seu Amor. \u00abN\u00e3o posso dizer que amo o sofrimento pelo sofrimento. Amo-o porque me torna semelhante a Quem \u00e9 meu Esposo e meu Amor\u00bb (Ct 317), e, mais em concreto, porque a faz parecer-se com Ele no seu amor e no seu abandono supremos, aos quais a est\u00e1 convidando, sem a obrigar, uma situa\u00e7\u00e3o de grande sofrimento. Isabel n\u00e3o deseja sofrer sem mais, mas \u00absofrer como Ele\u00bb (UR 41). Do que em definitivo se trata \u00e9 desse \u00abcomo\u00bb, de sofrer ao estilo de Cristo: Se Isabel \u00abama\u00bb (Ct 317) o sofrimento \u2013 \u00abn\u00e3o pelo sofrimento\u00bb \u2013, \u00e9 porque deseja uma intensidade de amor semelhante \u00e0 que Jesus manifestou na cruz \u2013 por todos, e tamb\u00e9m por ela. O que tem valor aos olhos de Deus n\u00e3o \u00e9 o sofrimento em si mesmo, mas a maneira de o viver. Isabel n\u00e3o <em>busca<\/em> o sofrimento: este vem ao nosso encontro, est\u00e1 a\u00ed, sem que o procuremos, inevit\u00e1vel, mas ela, no seu desejo de amar intensamente em tudo o que lhe aconte\u00e7a, n\u00e3o quer iludi-lo, nem atenu\u00e1-lo ou alivi\u00e1-lo por si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A sua reac\u00e7\u00e3o nestes meses, quando as irm\u00e3s procuram alivi\u00e1-la, \u00e9 bem t\u00edpica: N\u00e3o vale a pena \u2013 diz \u2013, estou no fim da minha carreira. Deus faz-me compreender que ao t\u00ea-l\u2019O de ver pronto face a face, em vez de descansar, devo extrair do meu ser toda a ora\u00e7\u00e3o e sofrimento que possa\u00bb. Significativo: a \u00abora\u00e7\u00e3o\u00bb. \u00c9 que a ora\u00e7\u00e3o introduz o \u00absofrimento\u00bb na senda do amor, do olhar a Cristo e \u00e0 Igreja. O trato com Deus leva-a a \u00absuperar a dor\u00bb, \u00abtudo transforma\u00bb (Ct 327). Neste sentido, dir\u00e1 um dia: \u00abO que nos liberta \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel n\u00e3o quer perder a oportunidade que a sua inelut\u00e1vel doen\u00e7a lhe oferece. No meio de fortes sofrimentos, apertar\u00e1 fortemente a m\u00e3o que Deus lhe estende, hoje n\u00e3o menos do que ontem quando tudo lhe corria bem. Como disc\u00edpula incondicional de S\u00e3o Paulo e de Jo\u00e3o da Cruz, ou, melhor, do \u00abCrucificado por amor\u00bb e da \u00abRainha dos m\u00e1rtires\u00bb (UR 41), percorre o seu caminho de amor com uma pressa t\u00e3o radical \u2013 \u00abcorro para a meta\u00bb (UR 36) \u2013 como quando, sendo uma jovem com menos experi\u00eancia, suplicava ao seu amado Senhor: \u00abTu, que podes mudar tudo no meu cora\u00e7\u00e3o, rompe, queima, arranca tudo o que te desagradar em mim\u00bb (Ct 105).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel viver\u00e1, pois, momento a momento, o sacramento do momento presente, em todo o seu realismo alegre ou penoso. Se Teresa de Lisieux dizia que \u00abtudo \u00e9 gra\u00e7a\u00bb, a sua irm\u00e3 de Dijon afirma que tudo \u00e9 sacramento: \u00abCada incidente, cada acontecimento, cada sofrimento, como cada alegria \u00e9 um sacramento dado por Deus\u00bb (CF 10). O sacramento \u00e9 algo vis\u00edvel, humano, antropol\u00f3gico; a gra\u00e7a que nele se nos d\u00e1 s\u00f3 \u00e9 vis\u00edvel se a olhamos com o olhar de f\u00e9 a que nos convida Isabel. \u00abConsidere cada sofrimento, como cada alegria, <em>como procedentes<\/em> directamente d\u2019Ele, e ent\u00e3o a sua vida ser\u00e1 como uma comunh\u00e3o ininterrupta\u00bb (Ct 264; 224; 249: \u00abMais ainda,\u2026\u201c<em>como<\/em> um testemunho de amor\u201d que lhe vem directamente de Deus\u00bb).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa palavra \u00ab<em>como<\/em>\u00bb, sublinhada por ela, indica bem a diferen\u00e7a: o sofrimento <em>n\u00e3o<\/em> vem directamente de Deus, mas \u00e9-nos dada a possibilidade de viver a nossa reac\u00e7\u00e3o diante dele como uma resposta de amor. No come\u00e7o do vers\u00edculo de Rm 8, 29, tantas vezes citado por Isabel, S\u00e3o Paulo diz que \u00abaos que amam a Deus tudo lhes serve para o bem\u00bb. E seu Filho ressuscitado est\u00e1 a\u00ed para no-lo recordar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel tira tamb\u00e9m grande fortaleza e generosidade da sua vis\u00e3o eclesial. Cristo ressuscitado \u00e9 a cabe\u00e7a desse Corpo que \u00e9 a grande comunidade dos crentes (Col 1, 18. 24). N\u00f3s estamos unidos a Ele como os sarmentos \u00e0 videira (Jo 15, 19), pelos quais circula uma mesma seiva vital, o Esp\u00edrito do Senhor. Os bons frutos procedem da videira, da seiva e dos sarmentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sua vinha, Deus quer ter necessidade dos homens (a come\u00e7ar pela tua livre colabora\u00e7\u00e3o), como os homens t\u00eam necessidade de Deus. \u00abO \u00fanico mediador\u00bb (1 Tm 2, 5) \u00e9 o <em>Cristo \u201ctotal\u201d<\/em>, quer dizer Cristo e Cristo que vive o seu amor e a sua ora\u00e7\u00e3o nos homens: duas vezes Cristo, mas de maneira diferente. Por isso, S\u00e3o Paulo exorta a Tim\u00f3teo, no mesmo contexto, a orar intensamente por todos os homens, unindo essa ora\u00e7\u00e3o mediadora uma vida virtuosa, e recorda o seu trabalho de ap\u00f3stolo, mediador de evangeliza\u00e7\u00e3o. E Jesus, no Pai Nosso, ensinou-nos a pedir venha a n\u00f3s o Reino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel vivia profundamente esta vis\u00e3o eclesial. Ela acreditava que a ora\u00e7\u00e3o e o amor de Cristo nela \u2013 e n\u00e3o sem ela \u2013 podiam ser fonte de gra\u00e7a para outros, conhecidos ou desconhecidos, segundo a receptividade de cada um: um pequeno raio de luz em tal ou qual cora\u00e7\u00e3o, uma pequena onda do Esp\u00edrito Santo, propulsora, libertadora, redentora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Oferecia-se e abria-se ao \u00abFogo devorador\u00bb do Esp\u00edrito Santo\u00bb a fim de ser para Jesus \u00abuma humanidade de acr\u00e9scimo na qual Ele pudesse renovar todo o seu mist\u00e9rio\u00bb (NI 15). Durante a sua doen\u00e7a mortal, renova ardentemente o seu oferecimento: \u00abA esposa pertence ao esposo, e o meu Esposo apoderou-se de mim e quer que seja para Ele uma humanidade de acr\u00e9scimo na qual Ele possa continuar a sofrer para gl\u00f3ria do seu Pai e pelas necessidades da sua igreja\u00bb (Ct 309). \u00abImagina! Partilhar os sofrimentos do meu Esposo crucificado e ir com Ele \u00e0 minha paix\u00e3o para ser redentora com Ele&#8230;\u00bb (Ct 300). Tudo \u00e9 assumido e afinado ao som do diapas\u00e3o de uma resposta esponsal a Cristo ressuscitado, que se abandonou nos bra\u00e7os do seu Pai at\u00e9 \u00e0 morte para dar a vida ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Isabel fala de dois \u00abcorpos\u00bb, do seu <em>no<\/em> da Igreja e do seu <em>pelo<\/em> da Igreja. Sofrer converte-se em oferecer-se. Ser imolado converte-se em obla\u00e7\u00e3o; a sua doen\u00e7a, numa \u00abdoen\u00e7a de amor\u00bb (Ct 289); morrer, em \u00abmorrer de amor\u00bb (Ct 335). O sofrimento aparece \u00e0s vezes descrito como uma liturgia sagrada, nos termos mais pessoais e relacionais: \u00abDeus quer imolar a sua pequena h\u00f3stia, mas esta missa que Ele celebra comigo, e na qual o Sacerdote \u00e9 o seu Amor, pode durar ainda muito tempo. \u00c0 pequena v\u00edtima n\u00e3o lhe parece longo o tempo nas m\u00e3os de Quem a sacrifica. E pode dizer que, se est\u00e1 a passar pela senda da dor, est\u00e1 ainda muito mais no caminho da felicidade, dessa <em>verdadeira<\/em> felicidade, mam\u00e3 querida, que ningu\u00e9m poder\u00e1 arrebatar-lhe\u00bb (Ct 309). Semelhante \u00ablinguagem da Cruz\u00bb j\u00e1 n\u00e3o tem nada da \u00absabedoria do mundo\u00bb (1 Co 1, 18-20); mas tudo isso j\u00e1 Isabel o tinha \u00abcompreendido\u00bb h\u00e1 muito tempo aos p\u00e9s do Crucificado por amor (Ct 133). E, na sua pr\u00f3pria missa, unida a Jesus, entrega a sua carne com Ele pela vida do mundo (Jo 6, 51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">No seu impressionante recolhimento n\u00e3o encontramos o mais m\u00ednimo egocentrismo. E como sempre, permanece admiravelmente atenta \u00e0s necessidades dos seus semelhantes e dos destinat\u00e1rios das suas cartas. \u00c9 que, como Maria, ele bebe na Fonte, \u00abno seu interior\u00bb, para poder amar. \u00c9 que, no meio da dor, recorda que o Senhor lhe deu uma M\u00e3e que na cruz escutou \u00abos \u00faltimos c\u00e2nticos da alma de Cristo em que, a n\u00e3o ser ela, sua M\u00e3e, ningu\u00e9m mais p\u00f4de reparar\u00bb, e aos sofrimentos chama-lhes \u00abc\u00e2nticos\u00bb, porque s\u00e3o a express\u00e3o de uma decis\u00e3o de amar at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E\u00a0 a pequena Isabel sente-se transportada por esse Amor. H\u00e1 que ler as suas p\u00e1ginas mais sublimes ao mesmo tempo que esta outra p\u00e1gina do \u00ab\u00daltimo Retiro Espiritual\u00bb: \u00abE embora caia a cada momento, toda confiante na f\u00e9, far-me-ei levantar por Ele, sabendo que me perdoar\u00e1&#8230;\u00bb (UR 31).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><a name=\"_Toc3003608\"><\/a>O texto de Isabel<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"40\">\n<li>Depois de Jesus Cristo, sem d\u00favida na dist\u00e2ncia que vai do Infinito ao finito, h\u00e1 uma criatura que foi tamb\u00e9m o grande louvor de gl\u00f3ria da Sant\u00edssima Trindade. Foi ela quem respondeu plenamente \u00e0 elei\u00e7\u00e3o divina, de que fala o Ap\u00f3stolo: manteve-se sempre \u00ab<em>pura, imaculada,<\/em> <em>irrepreens\u00edvel<\/em>\u00bb (Col 1, 22) aos olhos de Deus tr\u00eas vezes santo. A sua alma \u00e9 t\u00e3o simples. Os movimentos de tal modo profundos que n\u00e3o se pode surpreend\u00ea-los. Parece reproduzir na terra essa vida que \u00e9 a do Ser divino, o Ser simples. Pois \u00e9 t\u00e3o transparente, t\u00e3o luminosa que seria poss\u00edvel tom\u00e1-la pela luz, e, no entanto, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o \u00abespelho\u00bb do Sol de justi\u00e7a: \u00ab<em>Speculum justitiae<\/em>!\u00bb [o Espelho da justi\u00e7a]&#8230;<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA Virgem conservava todas estas coisas no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Lc 2, 19. 51): \u00e9 a inteira hist\u00f3ria dela que assim se pode resumir nestas breves palavras! Foi no seu cora\u00e7\u00e3o que ela viveu e em tal profundidade que o olhar humano n\u00e3o a consegue seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando leio no Evangelho \u00abque Maria percorreu diligentemente as montanhas da Judeia\u00bb (Lc 1, 39) para ir cumprir o seu of\u00edcio de caridade junto a sua prima Isabel, vejo-a passar t\u00e3o bela, t\u00e3o calma, t\u00e3o majestosa, t\u00e3o recolhida interiormente, com o Verbo de Deus. Tamb\u00e9m a sua ora\u00e7\u00e3o, como a d\u2019Ele, foi sempre esta: \u00ab<em>Ecce<\/em>, eis-me aqui!\u00bb Quem? \u00abA serva do Senhor\u00bb (Lc 1, 38), a \u00faltima das suas criaturas: ela, a sua M\u00e3e! E t\u00e3o verdadeira foi na sua humildade, porque sempre de si mesma esquecida, ignorante e liberta. Por isso, podia cantar: \u00abO Todo-Poderoso fez em mim grandes coisas, doravante as na\u00e7\u00f5es chamar-me-\u00e3o bem-aventurada\u00bb (Lc 1, 48-49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"41\">\n<li>Esta Rainha das virgens \u00e9 tamb\u00e9m Rainha dos m\u00e1rtires; mas \u00e9 ainda <em>em seu cora\u00e7\u00e3o<\/em> que <em>a espada a trespassou<\/em> (Lc 2, 35), porque nela tudo se passa no interior!&#8230; Oh! como \u00e9 bela de contemplar durante o seu longo mart\u00edrio, t\u00e3o serena, envolvida numa esp\u00e9cie de majestade que inspira, ao mesmo tempo, for\u00e7a e do\u00e7ura&#8230; \u00c9 que aprendeu com o pr\u00f3prio Verbo como devem sofrer aqueles que o Pai escolheu como v\u00edtimas, esses seres que resolveu associar \u00e0 grande obra da reden\u00e7\u00e3o, os que \u00abconheceu e predestinou para serem conformes ao seu Cristo\u00bb (Rm 8, 29), crucificado por amor.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela l\u00e1 est\u00e1, junto da Cruz, <em>de p\u00e9<\/em>, forte e corajosa e eis o meu Mestre que me diz: \u00abEcce Mater tua\u00bb [Eis a\u00ed a tua M\u00e3e: Jo 19, 27], Ele d\u00e1-ma por M\u00e3e&#8230; E, agora, que Ele voltou para o Pai, que me p\u00f4s a substitu\u00ed-lo em seu lugar na Cruz para que \u00absofra no meu corpo o que falta \u00e0 sua paix\u00e3o, por este seu corpo, que \u00e1 a Igreja\u00bb (Col 1, 24), a Virgem a\u00ed est\u00e1 ainda para me ensinar a sofrer como Ele, para me dizer, para me fazer ouvir os \u00faltimos c\u00e2nticos da Sua alma em que, a n\u00e3o ser ela, sua M\u00e3e, ningu\u00e9m mais p\u00f4de reparar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu tiver dito o meu \u00abconsummatum est\u00bb [Tudo est\u00e1 consumado: Jo 19, 30], \u00e9 ainda ela, \u00abJanua coeli\u00bb [\u00aba Porta do C\u00e9u\u00bb], que me h\u00e1-de introduzir nos \u00e1trios divinos, segredando-me a misteriosa palavra: \u00ab<em>Laetatus sum in his quae dicta sunt mihi, in domum Domini ibimus!&#8230;<\/em>\u00bb [\u00abAlegrei-me quando me disseram: Vamos para a casa do Senhor\u00bb: Sl 121, 1].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><a name=\"_Toc3003609\"><\/a><a name=\"_Toc3002508\"><\/a>Sugest\u00f5es para orar<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem de Luz e de beleza interior,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem de carinho fraterno,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem forte e terna,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem silenciosa e de f\u00e9 inquebrant\u00e1vel<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem santa e imaculada, M\u00e3e do Dom de Deus,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem sincera e humilde<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem juvenil e madura,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Virgem do \u00absim\u00bb incondicional,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria cheia do Esp\u00edrito Santo, primeira crist\u00e3,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria, alegria do cora\u00e7\u00e3o de S. Jos\u00e9,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria de Nazar\u00e9, M\u00e3e das coisas simples de cada dia,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ensina-nos o teu segredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e3e do Crucificado por amor,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00e3e da grande Comunidade dos amigos de Jesus,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Jesus, Caminho e Porta do c\u00e9u,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rainha e M\u00e3e do c\u00e9u da nossa alma,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga connosco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grande \u00ablouvor de gl\u00f3ria\u00bb da Sant\u00edssima Trindade,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">roga connosco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria, \u00abbela para os olhos\u00bb, \u00e9 um livro aberto e, ao mesmo tempo, uma m\u00e3e, presente pelo seu cora\u00e7\u00e3o e pelo seu olhar afectuoso, que nos ensina a ler os caminhos insond\u00e1veis do esp\u00edrito Santo. Pede a Maria \u2013 aconselha-te Isabel (Ct 136) \u2013 \u00abque te ensine a adorar a Jesus em profundo recolhimento\u00bb (Ct 136).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, oremos, de vez em quando, unidos a Maria, no c\u00e9u da nossa alma, apesar das dificuldades e dos sofrimentos pessoais, procurando esquecer-nos delas para ajudar os outros:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Gl\u00f3ria e amor a Ti, Pai, com Maria!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Gl\u00f3ria e amor a Ti, Senhor Jesus, com Maria!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Gl\u00f3ria e amor a Ti, Esp\u00edrito Santo, com Maria!<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/josemdelaa-2004715\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1907194\">Jos\u00e9 Manuel de La\u00e1<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=1907194\">Pixabay<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Orat\u00f3rio Peregrino Um<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10368,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[152],"tags":[],"class_list":["post-10367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-oratorio-peregrino"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10367"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10369,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10367\/revisions\/10369"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}