{"id":10306,"date":"2020-09-14T08:00:03","date_gmt":"2020-09-14T07:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10306"},"modified":"2020-09-15T22:40:26","modified_gmt":"2020-09-15T21:40:26","slug":"tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-ramalho-uma-idade-secular-1-sentidos-de-secularidade\/","title":{"rendered":"Tiago Ramalho | Uma Idade Secular (1) \u2013 Sentidos de secularidade"},"content":{"rendered":"<div dir=\"ltr\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>GLOSAS<\/strong> &#8211; <em><em>Espa\u00e7o de coment\u00e1rio a obras que interpelam o tempo presente<\/em><\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><em>Uma Idade Secular. <\/em>Na sua <em>A Secular Age, <\/em>datada de 2007 (Belknap, Harvard), Charles Taylor (n. 1931) procura, por um lado, (i) narrar o processo conducente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da modernidade europeia e, em especial, de uma das suas caracter\u00edsticas distintivas, a <em>secularidade<\/em>, tema sobre o qual incidem sobretudo as partes I a IV da obra, e, por outro, explorar (ii) as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade da cren\u00e7a religiosa num tal modelo de sociedade, o que constitui o objecto da parte V, com que conclui o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A particular valia desta obra de Taylor para a compreens\u00e3o das caracter\u00edsticas de uma sociedade caracterizada pela secularidade foi justamente destacada aquando da atribui\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Ratzinger no ano de 2019. Com efeito, ainda que a actividade de Taylor se estenda por dom\u00ednios bem mais amplos do que os relativos a estas mat\u00e9rias, foi o seu contributo neste campo espec\u00edfico que mereceu destaque no <a href=\"https:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2019\/november\/documents\/papa-francesco_20191109_premio-ratzinger.html\">discurso do Papa Francisco por ocasi\u00e3o da concess\u00e3o do Pr\u00e9mio<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m por este \u00faltimo facto, justifica-se oferecer a nossa aten\u00e7\u00e3o ao contributo de Taylor. A proposta que agora se inicia \u00e9 a de, em ritmo quinzenal, expor de modo sistematizado e em textos breves as linhas de leitura apresentadas pelo Autor, entremeando-as com alguns coment\u00e1rios \u2013 assim revitalizando, afinal, o estilo liter\u00e1rio da <em>glosa, <\/em>que d\u00e1 t\u00edtulo a esta rubrica \u2013, o que, pela vastid\u00e3o da obra, se distender\u00e1 por um per\u00edodo relativamente prolongado de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Servir-me-ei da vers\u00e3o original (na edi\u00e7\u00e3o <em>Paperback <\/em>de 2018, a que se referir\u00e3o as p\u00e1ginas citadas), n\u00e3o sem deixar de sublinhar a exist\u00eancia de uma tradu\u00e7\u00e3o portuguesa da autoria de Joana Chaves, de t\u00edtulo <em>A Era Secular, <\/em>editada pelo Instituto Piaget em 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><em><u>Tr\u00eas acep\u00e7\u00f5es de secularidade.<\/u> \u2013 <\/em>O que se entende, ent\u00e3o, por uma <em>Idade, <\/em>ou uma <em>Era, <\/em>ou uma <em>\u00c9poca <\/em>que se caracteriza por ser<em> Secular? <\/em>A delimita\u00e7\u00e3o do objecto do tema \u00e9 realizada na Introdu\u00e7\u00e3o (pp. 1-22).<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o efeito, distingue Taylor tr\u00eas diferentes acep\u00e7\u00f5es de \u201csecularidade\u201d:<\/p>\n<p>a) Secularidade como caracter\u00edstica de uma sociedade na qual a estrutura\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica se encontra modelada sem qualquer refer\u00eancia a Deus ou a uma realidade \u00faltima. Entende-se que a religi\u00e3o deve estar confinada ao foro privado, n\u00e3o implicando a participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica (pelo menos na vida p\u00fablica institucionalizada) qualquer envolvimento com a dimens\u00e3o religiosa (p. 1). Neste sentido, \u00e9 secular a sociedade cujo espa\u00e7o p\u00fablico foi esvaziado do referente Deus, havendo diferenciado as diferentes esferas de funcionamento da sociedade, cada uma adoptando a sua racionalidade pr\u00f3pria: a pol\u00edtica a l\u00f3gica da pol\u00edtica; a economia segue a l\u00f3gica da economia; o desporto a l\u00f3gica do desporto; e o religioso \u2013 a n\u00edvel privado \u2013 segue a l\u00f3gica do religioso, sem interferir nas demais esferas (p. 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diria que a secularidade, nesta primeira acep\u00e7\u00e3o, \u00e9 compreendida em sentido <em>jur\u00eddico-institucional. <\/em>\u00c9 neste sentido, por ex., que se fala num <em>Estado secular<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Entre n\u00f3s, embora a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa n\u00e3o refira o termo secular ou outro da mesma fam\u00edlia em nenhum momento, esta caracter\u00edstica resulta de disposi\u00e7\u00f5es como o art. 41.\u00ba (liberdade religiosa e n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o institucional entre Estado e Igreja\/ igrejas), 43.\u00ba, n.\u00ba 2 (n\u00e3o programa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o de acordo com, entre outras, directrizes religiosas) e n.\u00ba 3 (n\u00e3o confessionalidade do ensino) e 288.\u00ba, c) (separa\u00e7\u00e3o da Igreja\/ igrejas e do Estado como limite material de revis\u00e3o).]<\/p>\n<p>b) Mas a secularidade pode tamb\u00e9m designar o facto social do significativo decr\u00e9scimo da cren\u00e7a e da pr\u00e1tica religiosas (p. 2). N\u00e3o se trata, note-se, de uma consequ\u00eancia necess\u00e1ria da primeira acep\u00e7\u00e3o de secularidade: pode haver uma n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o institucional entre a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e a refer\u00eancia \u00faltima a Deus, ao mesmo tempo que se conservam grandes \u00edndices \u2013 ou, pelo menos, \u00edndices muito significativos \u2013 de cren\u00e7a e de pr\u00e1tica religiosas individuais, como mostram os EUA. Mas tamb\u00e9m pode ocorrer o contr\u00e1rio, isto \u00e9, a n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o institucional entre a organiza\u00e7\u00e3o social e a refer\u00eancia religiosa ser acompanhada de um decr\u00e9scimo da cren\u00e7a e pr\u00e1tica individuais (como verificado em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa Ocidental).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A secularidade \u00e9 aqui compreendida, diria, em sentido <em>demogr\u00e1fico-social. <\/em>\u00c9 neste sentido que se usa o termo na express\u00e3o <em>sociedade secularizada<\/em>, no sentido de nela haver um esvaziamento, tamb\u00e9m ao n\u00edvel individual, da cren\u00e7a e perten\u00e7a religiosas.<\/p>\n<p>c) Mas a secularidade pode ser compreendida ainda numa terceira acep\u00e7\u00e3o, designando a passagem de um modelo de sociedade em que a \u201ccren\u00e7a em Deus n\u00e3o \u00e9 desafiada e \u00e9 aproblem\u00e1tica para uma outra em que \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o entre outras, e em que frequentemente n\u00e3o \u00e9 a mais f\u00e1cil de acolher\u201d (p. 3). A t\u00f3nica n\u00e3o est\u00e1 j\u00e1 naquilo em que se acredita ou n\u00e3o, mas no \u201ccontexto de compreens\u00e3o no qual a nossa experi\u00eancia e busca moral, espiritual e religiosa tem lugar\u201d (p. 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Secularidade \u00e9 aqui compreendida, diria, num sentido <em>epist\u00e9mico-mundividencial<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao tratar de uma <em>Idade Secular, <\/em>\u00e9 esta terceira acep\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 especialmente objecto da aten\u00e7\u00e3o de Charles Taylor.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><em><u>Do pensamento \u00e0 experi\u00eancia.<\/u> \u2013 <\/em>A diferen\u00e7a entre a <em>cren\u00e7a <\/em>(disseminada, naturalmente, numa <em>Idade que n\u00e3o seja Secular<\/em>) e a <em>n\u00e3o cren\u00e7a <\/em>(disseminada, a par da cren\u00e7a, numa <em>Idade Secular<\/em>) n\u00e3o se coloca, todavia, apenas ao n\u00edvel dos conte\u00fados intelectuais \u2013 daquilo que <em>intelectualmente <\/em>ou <em>mentalmente <\/em>se acredita como verdadeiro \u2013, mas afecta tamb\u00e9m o modo como se experimenta vitalmente a pr\u00f3pria exist\u00eancia (pp. 8, 12). O mundo do crente e o mundo do n\u00e3o crente \u2013 e o mesmo se diga: o mundo de cada modalidade de crente, de acordo com o que creia, e do n\u00e3o crente, de acordo com o seu modo de n\u00e3o cren\u00e7a \u2013 s\u00e3o experimentados como diferentes. Por isso, a passagem para a uma <em>Idade Secular <\/em>\u00e9 compossibilitada, por um lado, e compossibilita, por outro, diferentes modalidades de interac\u00e7\u00e3o com o mundo.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplifiquemo-lo a partir da experi\u00eancia crente. Na medida em que a obra atenta no processo de seculariza\u00e7\u00e3o tal como ocorrido nas sociedades ocidentais (p. 1), com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s sociedades dos EUA, Inglaterra e Fran\u00e7a, \u00e9 natural que discorra a partir do <em>paradigma religioso <\/em>a\u00ed dominante: o do cristianismo emergente da, e em parte em ruptura com a, cristandade latina medieval. Neste quadro particular, o crit\u00e9rio de distin\u00e7\u00e3o entre (i) cren\u00e7a e (ii) n\u00e3o cren\u00e7a assenta na distin\u00e7\u00e3o entre (i) a abertura, e a receptividade, ao transcendente (isto \u00e9, ao que, podendo estar nele presente, ultrapassa os limites do apenas imanente), pr\u00f3pria da op\u00e7\u00e3o crente, e a (ii) redu\u00e7\u00e3o ao imanente, pr\u00f3pria da op\u00e7\u00e3o pela n\u00e3o cren\u00e7a (pp. 14-20). Concretizando um pouco mais: nesta tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, \u00e9 pr\u00f3prio de uma exist\u00eancia crente (a) o reconhecimento de um bem \u00e9tico superior (<em>higher good<\/em>) acima da simples <em>realiza\u00e7\u00e3o humana<\/em> (<em>human flourishing) \u2013 <\/em>de um bem que est\u00e1 <em>al\u00e9m<\/em> (<em>beyond<\/em>) do meramente humano \u2013, que, no caso crist\u00e3o, exemplifica com a abertura ao Amor, <em>ag\u00e1pe<\/em>, que, de Deus provindo, transforma e envolve aquele que se disponha a receb\u00ea-Lo; (ii) o reconhecimento de um Deus transcendente \u2013 que portanto se encontra (tamb\u00e9m) <em>al\u00e9m <\/em>do mundo \u2013, garante da exist\u00eancia deste mesmo bem \u00e9tico superior; (iii) a no\u00e7\u00e3o de uma vida humana que ultrapasse os limites do mundo meramente imanente, que vai <em>al\u00e9m <\/em>da vida biol\u00f3gica terrena (p. 20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cren\u00e7a em tais elementos n\u00e3o tem os seus efeitos reduzidos ao campo meramente intelectual, mas medeia o pr\u00f3prio modo como o crente experimenta o mundo e procura a sua <em>realiza\u00e7\u00e3o <\/em>pessoal (assim traduzirei <em>fullness). <\/em>Numa perspectiva crente crist\u00e3, assente \u2013 entre outros \u2013 nos pilares antes elencados, a <em>realiza\u00e7\u00e3o <\/em>pessoal \u00e9 experimentada como possibilitada pelo que vem ao encontro da pessoa a partir de fora \u2013 de fora da pessoa e de fora do imanente \u2013, implicando a sua pr\u00f3pria abertura para se deixar transformar pelo que recebe (p. 8). Diferentemente, um <em>n\u00e3o crente<\/em>, uma vez que rejeita essa fonte que se encontra <em>al\u00e9m <\/em>do apenas imanente, supor\u00e1 que que o caminho para a respectiva <em>realiza\u00e7\u00e3o <\/em>depende somente do adequado exerc\u00edcio das for\u00e7as de que j\u00e1 disp\u00f5e (auto-realiza\u00e7\u00e3o, portanto), por ex., do bom uso da sua racionalidade (pp. 8-9), ou ent\u00e3o, quando suspeitando da possibilidade de por si s\u00f3 conseguir obter a respectiva realiza\u00e7\u00e3o, mas rejeitando tamb\u00e9m a via religiosa, mediante abertura \u00e0 natureza, \u00e0s emo\u00e7\u00f5es profundas, ou a uma outra realidade <em>exterior<\/em> mas n\u00e3o transcendente, como fonte de <em>realiza\u00e7\u00e3o<\/em> (p. 9). E, depois, h\u00e1 ainda quem negue toda e qualquer possibilidade de <em>realiza\u00e7\u00e3o<\/em> (p. 10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a diferen\u00e7a entre estas posturas n\u00e3o est\u00e1, repisa-se, apenas ao n\u00edvel (intelectual), quais <em>diferentes<\/em> <em>teorias explicativas <\/em>de experi\u00eancias que em si <em>seriam id\u00eanticas <\/em>(de uma <em>mesma forma <\/em>de realiza\u00e7\u00e3o pessoal), mas no modo como constituem quadros vivenciais irredut\u00edveis que determinam de forma decisiva o modo como a pessoa vive e sente o mundo que a rodeia, e de como se coloca perante ele (pp. 11, 14). Pr\u00f3prio da <em>Idade Secular<\/em>, portanto, \u00e9 a dissemina\u00e7\u00e3o de caminhos de procura de <em>realiza\u00e7\u00e3o <\/em>(<em>fulness<\/em>) que abdicam da refer\u00eancia religiosa, que se torna assim apenas uma, de entre v\u00e1rias, possibilidades ao dispor da pessoa.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li><em><u>Um quadro existencial partilhado, entre crentes e n\u00e3o crentes, de d\u00favida e de incerteza.<\/u> \u2013 <\/em>N\u00e3o \u00e9 realidade nova que, nos diferentes dom\u00ednios da vida cultural (entendendo-se cultura em sentido amplo, nela incluindo todas as actua\u00e7\u00f5es de sentido do homem, como a ci\u00eancia, a arte, a t\u00e9cnica, \u2026), o conjunto de valores vigentes num certo per\u00edodo hist\u00f3rico seja substitu\u00eddo por um outro quadro fundamental. Que, portanto, haja mudan\u00e7as no paradigma prevalecente. E que essas mudan\u00e7as atinjam tamb\u00e9m o dom\u00ednio religioso (p. 21). Pense-se, por exemplo, no processo de passagem do Imp\u00e9rio Romano do paganismo ao cristianismo; ou da passagem do cristianismo ao Isl\u00e3o no norte de \u00c1frica.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 espec\u00edfico, e pr\u00f3prio, da mudan\u00e7a para a <em>Idade Secular <\/em>\u00e9, por um lado e certamente, a coloca\u00e7\u00e3o em crise da <em>evid\u00eancia<\/em> do quadro confessional religioso, mas tamb\u00e9m, em simult\u00e2neo, que aquele quadro n\u00e3o tenha sido removido, sendo colocado a coabitar com a dissemina\u00e7\u00e3o da n\u00e3o cren\u00e7a. Mas a cren\u00e7a continua presente, simplesmente agora apenas como uma op\u00e7\u00e3o de entre v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis (p. 12). N\u00e3o se trata, portanto, de uma remo\u00e7\u00e3o do religioso, mas de uma sua coloca\u00e7\u00e3o sob a tens\u00e3o da d\u00favida e da incerteza. N\u00e3o se deve deixar de notar, contudo, que \u201co pressuposto da n\u00e3o cren\u00e7a se tornou dominante em cada vez mais meios sociais; e adquiriu a hegemonia nalguns cruciais, na vida acad\u00e9mica e intelectual, por ex.; de onde se pode estender mais facilmente para os outros\u201d (p. 13), deste modo se tornando a op\u00e7\u00e3o supletiva, residual, para grandes massas de pessoas (p. 14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas essa tens\u00e3o \u00e9 de duplo sentido. Se \u00e9 pr\u00f3prio da <em>Idade Secular<\/em> a coloca\u00e7\u00e3o da refer\u00eancia religiosa sob tens\u00e3o, porque desafiada pela alternativa <em>vi\u00e1vel <\/em>de caminhos apresentados como de realiza\u00e7\u00e3o pessoal sem qualquer refer\u00eancia religiosa, o inverso tamb\u00e9m \u00e9 de afirmar: uma <em>Idade <\/em>em que tamb\u00e9m o n\u00e3o crente \u00e9 tamb\u00e9m perturbado pela possibilidade de cren\u00e7a (p. 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[At\u00e9 que ponto a cren\u00e7a (e a n\u00e3o cren\u00e7a) est\u00e3o sob permanente tens\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel na insuspeita <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Cristianismo <\/em>(trad. Alfred Keller, Lucerna, 2.\u00aa ed. de 2017) de Joseph Ratzinger, que re\u00fane as li\u00e7\u00f5es das suas li\u00e7\u00f5es em 1967 aos estudantes de T\u00fcbingen: \u201cAssim como o fiel se sabe constantemente amea\u00e7ado pela incredulidade que o acompanha como uma tenta\u00e7\u00e3o sem fim, tamb\u00e9m a f\u00e9 constitui para o incr\u00e9dulo para uma amea\u00e7a e uma tenta\u00e7\u00e3o para o seu mundo aparentemente completo\u201d (p. 32). Todos est\u00e3o sob a amea\u00e7a \u2013 como resulta de uma breve hist\u00f3ria que se segue \u00e0 passagem citada \u2013 do <em>talvez: talvez <\/em>isto em que acredito n\u00e3o seja certo; <em>talvez <\/em>aquilo em que eu n\u00e3o acredito seja o correcto.]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista eclesial, a <em>Idade Secular <\/em>n\u00e3o pode, portanto, ser olhada como um per\u00edodo de simples supera\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno da cren\u00e7a religiosa. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um per\u00edodo em que activamente h\u00e1 decididas reconfigura\u00e7\u00f5es eclesiais, que reagem, e incorporam, muitos dos aspectos pr\u00f3prios da modernidade. O que a <em>Idade Secular <\/em>tende a eliminar n\u00e3o \u00e9, pois, a f\u00e9 <em>enquanto tal<\/em>, mas uma sua compreens\u00e3o <em>ing\u00e9nua<\/em>, <em>n\u00e3o reflexiva<\/em>, <em>aproblem\u00e1tica<\/em>, como dado socialmente evidente para as grandes massas da popula\u00e7\u00e3o, e por isso por elas acriticamente aceite (p. 21). Este segundo tipo de compreens\u00e3o da f\u00e9 est\u00e1 gravemente colocado em crise; e, assim estando, conduz naturalmente ao decr\u00e9scimo significativo do n\u00famero daqueles que se definem a si pr\u00f3prios como crentes.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"4\">\n<li><em><u>Uma hist\u00f3ria da Idade Secular.<\/u> \u2013 <\/em>A quest\u00e3o que Taylor procurar\u00e1 responder ao longo de grande parte do trabalho, nas respectivas partes I a IV, \u00e9 a seguinte: o que ocorreu, e como ocorreu, para o que se afigurava \u00f3bvio no ano 1500 (ou, de acordo com os lugares, tamb\u00e9m em 1600, 1700, 1800, 1900, \u2026) se tenha tornado problem\u00e1tico no ano 2000? O que motivou uma tamanha mudan\u00e7a do contexto de compreens\u00e3o (<em>context, framework, background<\/em>) da realidade? O que permitiu a ascens\u00e3o do <em>humanismo exclusivo <\/em>\u2013 que n\u00e3o corresponde simplesmente ao resultado do desaparecimento da cren\u00e7a religiosa hegem\u00f3nica, mas representa uma alternativa de sentido com conte\u00fado e alcance pr\u00f3prios \u2013 como uma op\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel para grandes sectores da popula\u00e7\u00e3o? (p. 21) E, finalmente (parte V), que lugar est\u00e1 reservado para a cren\u00e7a religiosa numa tal sociedade?<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de iniciarmos o percurso que Taylor nos prop\u00f5e, importa fazer duas observa\u00e7\u00f5es transversais:<\/p>\n<p>a) Destaca-se, em primeiro lugar, o cariz sobretudo <em>hist\u00f3rico-sociol\u00f3gico<\/em> do tratamento que o Autor adopta na exposi\u00e7\u00e3o do processo de forma\u00e7\u00e3o da modernidade (parte I a IV da obra). O acento est\u00e1 na exposi\u00e7\u00e3o do modo como se modificaram as representa\u00e7\u00f5es sociais no per\u00edodo hist\u00f3rico em an\u00e1lise, com as consequ\u00eancias da\u00ed advenientes, sem directamente se tomar posi\u00e7\u00e3o acerca da bondade de cada um dos concretos factores que ajudaram a conformar o quadro secular ocidental. Rejeitam-se assim, portanto, narrativas lineares da seculariza\u00e7\u00e3o e da modernidade, qual voca\u00e7\u00e3o universal a que a humanidade estaria destinada e que fora impedida pelas trevas que teriam envolvido toda a hist\u00f3ria anterior (p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A t\u00f3nica \u00e9 totalmente outra: procura-se explorar os contextos de compreens\u00e3o da realidade, incluindo da experi\u00eancia crente, como factores que, mesmo se indevidamente, influenciam a respectiva compreens\u00e3o para quem se situe em dadas coordenadas esp\u00e1cio-temporais: \u201c(\u2026) vou constantemente sustentar que a modernidade europeia, incluindo a sua secularidade, \u00e9 o resultado de novas inven\u00e7\u00f5es, de novas autocompreens\u00f5es e pr\u00e1ticas relacionadas, e que n\u00e3o podem ser explicadas como caracter\u00edsticas perenes da vida humana\u201d (p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se esses factores e se o quadro de compreens\u00e3o deles resultante s\u00e3o bons ou maus \u00e9 uma quest\u00e3o que merece um tratamento e um ju\u00edzo aut\u00f3nomos (nalguma medida dado na Parte V da obra).<\/p>\n<p>b) Nota-se, em segundo lugar, que o enfoque escolhido pelo Autor \u00e9 o de tratar as caracter\u00edsticas da sociedade pr\u00f3pria da <em>Idade Secular <\/em>no seu <em>conjunto<\/em>, e n\u00e3o eventuais experi\u00eancias perif\u00e9ricas de <em>cren\u00e7a <\/em>ou de <em>n\u00e3o cren\u00e7a<\/em> que neste ou noutro per\u00edodo possam ter tido lugar. N\u00e3o nega, assim, que tenha havido formas de <em>humanismo imanentista <\/em>fora do per\u00edodo da modernidade, como a propugnada pelo Epicurismo (pp. 19, 27). Como, inversamente, sublinha a perviv\u00eancia, mesmo dentro da \u00e9poca secular, de formas bem s\u00f3lidas de viv\u00eancia da f\u00e9 (ali\u00e1s, interroga-se mesmo o Autor, na p. 91, se a propor\u00e7\u00e3o daqueles que vivem uma espiritualidade efectiva e comprometida n\u00e3o se manter\u00e1 constante ao longo de todas as \u00e9pocas). Mas o que \u00e9 objecto de aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o tais experi\u00eancias singulares, ou minorit\u00e1rias, mas, antes, como \u00e9 que um tal <em>quadro imanentista<\/em> se tornou a refer\u00eancia fundamental, \u00f3bvia, para <em>grandes massas da popula\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 e n\u00e3o apenas para grupos minorit\u00e1rios ou biografias singulares (p. 27) \u2013, a ponto de poder dar nome a uma \u00e9poca: <em>Uma Idade Secular.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enunciado o tema, come\u00e7aremos ent\u00e3o por ver, no pr\u00f3ximo texto, quais os tra\u00e7os das \u00faltimas sociedades ocidentais pr\u00e9-modernas, pr\u00e9-seculares, nas quais a cren\u00e7a era ainda uma evid\u00eancia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/analogicus-8164369\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3215653\">analogicus<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3215653\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GLOSAS &#8211; Espa\u00e7o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10308,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[161,144],"tags":[],"class_list":["post-10306","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-glosas","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10306","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10306"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10306\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10323,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10306\/revisions\/10323"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10306"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10306"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10306"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}