{"id":10287,"date":"2020-09-08T18:43:00","date_gmt":"2020-09-08T17:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10287"},"modified":"2020-09-08T18:43:00","modified_gmt":"2020-09-08T17:43:00","slug":"pe-georgino-rocha-domingo-xxiv-senhor-generoso-servo-mesquinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pe-georgino-rocha-domingo-xxiv-senhor-generoso-servo-mesquinho\/","title":{"rendered":"Pe. Georgino Rocha | Domingo XXIV &#8211; Senhor generoso, servo mesquinho"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\"><strong><em>Pe. Georgino Rocha\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Pedro anda preocupado com os ensinamentos de Jesus, t\u00e3o diferentes das tradi\u00e7\u00f5es judaicas e das aspira\u00e7\u00f5es que alimenta. Sobretudo no desenlace humilhante da vida em Jerusal\u00e9m, nas atitudes a cultivar no relacionamento humano, na proposta insistente do perd\u00e3o como caminho de recupera\u00e7\u00e3o de quem faz ofensas. A preocupa\u00e7\u00e3o leva-o a pedir-lhe mais explica\u00e7\u00f5es e a pergunta surge directa: \u201cQuantas vezes hei-de perdoar ao meu irm\u00e3o?\u201d E adianta a medida que pensava ser mais generosa: \u201cAt\u00e9 sete vezes?\u201d E j\u00e1 era muito para um judeu, pois o n\u00famero sete significa plenitude e faz evocar a senten\u00e7a do filho de Caim, Lamec, que pretendia vingar a ofensa, n\u00e3o sete vezes, mas setenta vezes sete.\u00a0<em>Mt 18, 21-35.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Jo\u00e3o Paulo II, na sua enc\u00edclica \u00abRico em miseric\u00f3rdia\u00bb, afirma que \u201cum mundo do qual se eliminasse o perd\u00e3o seria apenas um mundo de justi\u00e7a fria e irrespeitosa, em nome da qual cada um reivindicaria os pr\u00f3prio direitos em rela\u00e7\u00e3o aos demais. Deste modo, as v\u00e1rias esp\u00e9cies de ego\u00edsmo, latentes no homem, poderiam transformar a vida e a conviv\u00eancia humana num sistema de opress\u00e3o dos mais fracos pelos mais fortes, ou at\u00e9 numa arena de luta permanente de uns contra os outros\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">A hist\u00f3ria das ofensas e das d\u00edvidas \u00e9 longa e regista as mais diversas medidas disciplinares, nas culturas conhecidas e nas religi\u00f5es oficializadas. Entre os judeus, tamb\u00e9m, como aponta a B\u00edblia nos seus textos fundamentais. A raz\u00e3o parece simples: na medida usada se d\u00e1 a conhecer o n\u00edvel em que o outro \u00e9 considerado, a gravidade da ofensa \u00e0 dignidade alheia e a poss\u00edvel recupera\u00e7\u00e3o perante os demais, a rela\u00e7\u00e3o com o Transcendente que frequentemente se solidariza com quem observa a regra estabelecida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u201cOuvistes o que foi dito aos antigos. Eu, por\u00e9m, digo-vos\u201d \u2013 ia repetindo o Nazareno nas senten\u00e7as proferidas e manifestando nas ac\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. Mas, parece que a novidade n\u00e3o era captada, nem pelo seu c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo. Narra, ent\u00e3o, uma par\u00e1bola de matriz social, profundamente ilustrativa e interpelante, com imagens familiares e contornos de estremecer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Um rei quer ajustar contas com os seus servos. Chama o primeiro e, ao verificar a quantia enorme de d\u00edvidas, resolve aplicar o c\u00f3digo tradicional. Mas perante a s\u00faplica ardente deste, perdoa-lhe totalmente, d\u00e1-lhe a liberdade e mant\u00e9m-lhe o posto de trabalho. Admir\u00e1vel atitude! N\u00e3o indagou nada, nem imp\u00f4s qualquer condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o quer saber como contraiu a d\u00edvida nem quem se meteu no seu circuito de rela\u00e7\u00f5es, nada. Apenas faz brilhar a sua compaix\u00e3o, o seu amor generoso, a sua capacidade de perdoar. Se tivesse optado pela audi\u00e7\u00e3o \u00e0s contas, teria muito que andar! Mas a l\u00f3gica de Deus \u2013 porque disso se trata \u2013 vai noutra direc\u00e7\u00e3o e tem outro sentido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Pedro deve ter ficado pasmado. A quantia dos talentos era astron\u00f3mica. Nem o maior rico a possu\u00eda. Nem o trabalho de uma vida inteira a pagaria. E o Mestre come\u00e7a por dizer que a atitude do rei generoso \u00e9 o exemplo de quem aceita a novidade do perd\u00e3o anunciado. Nem sete, nem setenta vezes sete. O perd\u00e3o nasce no amor de Deus e tem a medida do seu cora\u00e7\u00e3o. Aproximar-se desta medida \u00e9 a meta do todo o nosso peregrinar ao longo da vida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">O servo perdoado respira \u201cnovos ares\u201d, disp\u00f5e de outras energias e d\u00e1 largas aos seus impulsos mais agressivos. Ao encontrar um companheiro que lhe devia uma insignific\u00e2ncia, atira-se a ele, agarra-o pelo pesco\u00e7o e exige tudo o que possu\u00eda e quanto antes, sob amea\u00e7a de pris\u00e3o e de aliena\u00e7\u00e3o de todos os bens, incluindo mulher e filhos. A cena \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o da anterior. O devedor humilha-se, pede um tempo de mora, promete satisfazer tudo. Mas nada. A atitude \u00e9 inflex\u00edvel. O sufoco asfixiante amea\u00e7a a vida. Quantas pessoas s\u00e3o, hoje, o retrato deste servo a desfazer-se! A crise que vivemos e tende a agravar-se drasticamente pode servir de ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">Pedro acompanha a narra\u00e7\u00e3o com espanto contido. Nem uma ligeira reac\u00e7\u00e3o. Aguarda o desenrolar da hist\u00f3ria-modelo ampliado que introduz um elemento novo: a atitude dos companheiros, testemunhas da cena referida. A solidariedade emerge vigorosa. E sem mais demoras, v\u00e3o contar ao rei o que tinha acontecido. N\u00e3o se limitam a comentar ou a esperar pelo desenlace da agress\u00e3o. \u00c9 na raiz que se deve tratar da quest\u00e3o. Belo exemplo para quem quer intervir com efic\u00e1cia nas quest\u00f5es humanas, sobretudo sociais e econ\u00f3micas. O encontro \u00e9 eficaz. A amnistia \u00e9 revogada e a senten\u00e7a, desfeita. O rei sente-se ofendido na sua liberalidade magn\u00e2nima. E toma, como medida de reposi\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, a pena que devia ser aplicada ao servo inclemente. Aceita, embora contrariando a bondade do seu cora\u00e7\u00e3o, proceder de um modo diferente daquele que tinha usado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">O grupo dos disc\u00edpulos, a come\u00e7ar por Pedro, acolhe a li\u00e7\u00e3o e demora tempo a digeri-la. Como n\u00f3s. E n\u00e3o \u00e9 para menos! Mas o caminho est\u00e1 tra\u00e7ado definitivamente por quem o percorreu de forma exemplar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\u201cA vida constr\u00f3i-se lentamente e seguindo um processo muito delicado. Se necessita de muita ci\u00eancia de amor para acompanhar uma vida. Se queremos chegar ao centro escondido de um cora\u00e7\u00e3o, temos de aceitar que h\u00e1 que faz\u00ea-lo muito devagar. N\u00e3o sete vezes, mas setenta vezes sete\u201d. Cardeal Tolentino de Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: justify;\">\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/JacksonDavid-1857643\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5216585\">Jackson David<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=5216585\">Pixabay<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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