{"id":10170,"date":"2020-09-24T08:00:46","date_gmt":"2020-09-24T07:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10170"},"modified":"2020-08-28T00:17:44","modified_gmt":"2020-08-27T23:17:44","slug":"pensamento-de-edith-stein-relacoes-homem-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/pensamento-de-edith-stein-relacoes-homem-mulher\/","title":{"rendered":"Pensamento de Edith Stein | Rela\u00e7\u00f5es homem-mulher"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211; rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein<\/em><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\">(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor &#8211; Aveiro)<\/h6>\n<hr \/>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Rela\u00e7\u00f5es homem-mulher<\/h3>\n<h4 style=\"text-align: center;\">Javier Sancho*<\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema das rela\u00e7\u00f5es homem-mulher, em Edith Stein, foi emergindo implicitamente ao falar da condi\u00e7\u00e3o b\u00edblica da mulher como ajuda e m\u00e3e. Agora procuramos analisar directamente o tema, que ela mesma procura colocar no sue devido lugar. Para recuperara a presen\u00e7a da mulher na vida ser\u00e1 necess\u00e1rio esclarecer a sua posi\u00e7\u00e3o diante do homem. Para Edith Stein n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que os primeiros pais viviam na harmonia da uni\u00e3o de amor. Cada um contribu\u00eda para essa unidade com o que estava no seu ser. Mas essa harmonia e complementaridade transformou-se em dom\u00ednio depois da queda. Haver\u00e1 que esperar a presen\u00e7a de Cristo para compreender exatamente o que significa essa complementaridade: \u00ab<em>O Senhor anunciou<\/em>, <em>sem lugar a equ\u00edvocos<\/em>, <em>que o novo Reino de Deus<\/em> <em>comportava um restabelecimento das rela\u00e7\u00f5es entre os dois sexos<\/em>, <em>eliminando as<\/em> <em>rela\u00e7\u00f5es condicionadas pelo pecado e as que se opunham \u00e0 ordem primitiva<\/em>\u00bb. Edith fundamenta esta afirma\u00e7\u00e3o nos textos de Mt 19, 1-2 e Mc 10, 1-12: <em>\u00c0 pergunta dos fariseus sobre se ao homem lhe era permitido separar-se da sua<\/em> mulher, ele responde: \u201cMois\u00e9s vo-lo permitiu pela dureza do vosso cora\u00e7\u00e3o, mas ao <em>princ\u00edpio n\u00e3o era assim\u201d. Ent\u00e3o Jesus cita a passagem da Cria\u00e7\u00e3o: \u201celes ser\u00e3o os dois<\/em> <em>uma s\u00f3 carne\u201d, e estabelece como lei do novo pacto: \u201co que Deus uniu n\u00e3o o separe o homem\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a vontade de iluminar o sentido das rela\u00e7\u00f5es entre o homem e a mulher, principalmente a partir da vertente matrimonial, Edith abeira-se das cartas de S\u00e3o Paulo. Ali encontramos o tema amplamente desenvolvido. E vai ser na an\u00e1lise desses textos paulinos onde descobrimos a avidez steiniana para fazer uma leitura cr\u00edtica da Escritura. Sabe captar at\u00e9 que ponto algumas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o fruto dos costumes e n\u00e3o dos ensinamentos de Jesus. O seu amplo conhecimento da Escritura, neste caso das cartas paulinas, permite-lhe encontrar as solu\u00e7\u00f5es na mesma doutrina paulina. Vemo-lo mais de perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos principais e mais pol\u00e9micos textos, onde S\u00e3o Paulo fala da rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a mulher \u00e9 o da carta 1 Co 11, 3-12:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00abMas quero que o saibais que a cabe\u00e7a de todo o homem \u00e9 Cristo, a cabe\u00e7a da mulher \u00e9 o homem e a cabe\u00e7a de Cristo \u00e9 Deus. Todo o homem que reza ou profetiza, tendo a cabe\u00e7a coberta, desonra a pr\u00f3pria cabe\u00e7a. E toda a mulher que reza ou profetiza, tendo a cabe\u00e7a descoberta, desonra a pr\u00f3pria cabe\u00e7a, porque \u00e9 como se estivesse rapada. Se uma mulher n\u00e3o se cobrir, corte tamb\u00e9m os cabelos. E se \u00e9 vergonha para a mulher ter os cabelos rapados, ent\u00e3o que se cubra. O homem n\u00e3o deve cobrir a cabe\u00e7a, porque \u00e9 imagem e gl\u00f3ria de Deus; a mulher, por\u00e9m, \u00e9 a gl\u00f3ria do homem. O homem n\u00e3o foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer sobre a sua cabe\u00e7a um sinal de sujei\u00e7\u00e3o, por causa dos anjos. N\u00e3o obstante, nem a mulher se compreende sem o homem, nem o homem sem a mulher, aos olhos do Senhor. Pois assim como a mulher foi tirada do homem, assim tamb\u00e9m o homem existe por meio da mulher, e ambos v\u00eam de Deus\u00bb.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tomar estas indica\u00e7\u00f5es que nos oferece o Ap\u00f3stolo? O que nos pretende transmitir? E Edith Stein responde:<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00abN\u00e3o ofenderemos demasiado o Ap\u00f3stolo se dissermos que nesta exorta\u00e7\u00e3o aos Cor\u00edntios <strong>o divino e o humano<\/strong>, <strong>o eterno e o temporal est\u00e3o<\/strong> <strong>estreitamente unidos<\/strong>. O modo de se pentear e o modo de vestir correspondem aos costumes, tal como o pr\u00f3prio Paulo o diz na conclus\u00e3o: \u201cSe, apesar disto, algu\u00e9m gosta de discutir, n\u00f3s n\u00e3o temos tal costume, nem mesmo as Igrejas de Deus\u201d <\/em>(1 Co 11, 16).<em> A sua decis\u00e3o sobre o modo como as mulheres de Corinto tinham que arranjar-se para o servi\u00e7o divino era obrigat\u00f3ria naquela comunidade fundada por ele; mas isso, n\u00e3o significa que teria que ser sempre assim e para todos\u00bb.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00ab\u00c9 diverso o modo como devemos interpretar a doutrina sobre os princ\u00edpios que regulam <strong>a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a mulher<\/strong>, porque ele o exp\u00f5e enquanto interpreta\u00e7\u00e3o da ordem divina da Cria\u00e7\u00e3o e Reden\u00e7\u00e3o.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>Est\u00e1 estabelecido que o homem e a mulher <strong>levem juntos uma vida \u00fanica<\/strong>, <strong>como se<\/strong> <strong>fossem um s\u00f3<\/strong>. Mas ao homem, que foi criado primeiro, compete-lhe a direc\u00e7\u00e3o desta comunidade de amor. Tem-se todavia a impress\u00e3o de que esta interpreta\u00e7\u00e3o paulina n\u00e3o corresponde plenamente \u00e0 ordem original ou \u00e0 da Reden\u00e7\u00e3o, mas parece influenciada pela ordem da natureza ca\u00edda, j\u00e1 que prop\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio e de submiss\u00e3o, e admite a media\u00e7\u00e3o do homem entre a mulher e o Redentor. <strong>Nem o relato da Cria\u00e7\u00e3o<\/strong>, <strong>nem o Evangelho conhecem esta fun\u00e7\u00e3o mediadora do homem entre a mulher e Deus<\/strong>; por outro lado, esta fun\u00e7\u00e3o \u00e9 bem conhecida na lei mosaica e no direito romano\u00bb.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00ab<strong>O pr\u00f3prio Ap\u00f3stolo conhece<\/strong>, <strong>al\u00e9m disso<\/strong>, <strong>outra ordem<\/strong>, uma vez que nesta mesma carta aos Cor\u00edntios, falando sobre o matrim\u00f3nio e a virgindade, diz: \u201c<strong>Pois santifica-se o marido infiel pela mulher<\/strong>\u201d <\/em>(1 Co 7, 14) <em>e \u201cque sabes tu mulher se salvar\u00e1s o teu marido?\u201d <\/em>(1 Co 7, 16).<em> <strong>Deixa aqui falar a ordem evang\u00e9lica<\/strong>, pela qual toda a alma foi ganha para a vida por Cristo, e <strong>quem se santifica pela uni\u00e3o com Cristo<\/strong>, <strong>seja homem ou mulher<\/strong>, <strong>\u00e9 chamado a ser mediador<\/strong>\u00bb. <\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 estamos a ver como Edith orienta a leitura de S\u00e3o Paulo. Nem cai no erro de aceitar as suas afirma\u00e7\u00f5es ao p\u00e9 da letra, nem se deixa levar pela simples desqualifica\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo como \u00abmachista\u00bb. Encontra a via interm\u00e9dia, sabendo distinguir o gr\u00e3o do \u00abjoio\u00bb, encontrando raz\u00f5es objectivas evang\u00e9licas no mesmo Paulo, que evidenciam a sua tend\u00eancia para se deixar levar, nalguns momentos, pelos costumes do seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro texto que Edith vai analisar, e no qual de um modo mais extenso Paulo apresenta as rela\u00e7\u00f5es entre o homem e a mulher, \u00e9 o da carta aos Ef\u00e9sios 5, 22-33:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u201cAs mulheres (sejam submissas) aos seus maridos como ao Senhor; porque o marido \u00e9 cabe\u00e7a da mulher, como Cristo \u00e9 cabe\u00e7a da Igreja e Salvador do seu corpo. E como a Igreja est\u00e1 sujeita a Cristo, assim as mulheres se devem submeter em tudo aos seus maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como tamb\u00e9m Cristo amou a Igreja e se entregou por ela para a santificar, purificando-a por meio do baptismo da \u00e1gua pela palavra, a fim de a apresentar a si mesmo gloriosa, sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada. Os maridos devem amar as suas mulheres como ao seu pr\u00f3prio corpo. Aquele que ama a sua mulher, ama-se a si mesmo, e nunca ningu\u00e9m aborrece a sua pr\u00f3pria carne, mas alimenta-a e cuida-a como Cristo \u00e0 Igreja, porque somos membros do seu corpo. Por isso, o homem deixar\u00e1 pai e m\u00e3e e se unir\u00e1 \u00e0 sua mulher e ser\u00e3o os dois uma s\u00f3 carne. Grande mist\u00e9rio \u00e9 este, mas aplico-o em rela\u00e7\u00e3o a Cristo e \u00e0 Igreja. Quanto ao mais, ame cada um a sua mulher, e ame-a como a si mesmo, e a mulher respeite o seu marido\u00bb. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A riqueza deste texto \u00e9 enorme, fundamentalmente porque o Ap\u00f3stolo p\u00f5e-nos aqui diante da simbologia que representa o matrim\u00f3nio, e que \u00e9 a norma que h\u00e1-de guiar as rela\u00e7\u00f5es entre o homem e a mulher dentro do \u00e2mbito matrimonial. Edith Stein sublinha os seguintes elementos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00abEste par\u00e1grafo diz-nos que <strong>a comunidade matrimonial tem que estar sujeita a<\/strong> <strong>Cristo<\/strong>. O Senhor apenas sublinhou, nas palavras do G\u00e9nesis, a indissolubilidade do matrim\u00f3nio e a <strong>uni\u00e3o dos dois numa s\u00f3 carne<\/strong>; aqui <strong>o Ap\u00f3stolo explica como<\/strong> se h\u00e1-de entender esta uni\u00e3o\u00bb.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00abEm todo o organismo os membros est\u00e3o sob a direc\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a, e assim se tem a harmonia do conjunto; assim, no organismo de que estamos a falar, \u00e9 necess\u00e1ria a presen\u00e7a de uma cabe\u00e7a, e <strong>se o organismo \u00e9 s\u00e3o<\/strong>, <strong>fica exclu\u00edda a discuss\u00e3o sobre quem seja a cabe\u00e7a<\/strong> e quem sejam os membros, e quais sejam as fun\u00e7\u00f5es de uns e outros\u00bb.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00abN\u00e3o se deve esquecer, contudo, que se trata de uma rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica: a compara\u00e7\u00e3o entre <strong>Cristo e a Igreja<\/strong> no-la recorda. Cristo \u00e9 a nossa cabe\u00e7a, e a sua vida divina flui em n\u00f3s, seus membros, se estamos sujeitos a Ele em obedi\u00eancia e nos unimos a Ele por amor. A cabe\u00e7a \u00e9 o Homem-Deus que tem uma exist\u00eancia independente fora deste corpo m\u00edstico; os membros t\u00eam o seu pr\u00f3prio ser, uma vez que s\u00e3o seres livres e racionais; por isso, <strong>o corpo<\/strong> <strong>m\u00edstico constitui-se pelo amor da cabe\u00e7a e a livre subordina\u00e7\u00e3o dos<\/strong> <strong>membros<\/strong>. As fun\u00e7\u00f5es que no corpo m\u00edstico s\u00e3o atribu\u00eddas aos membros, correspondem-lhes em virtude dos dons que cada um recebeu pessoalmente, dons de amor e do Esp\u00edrito; \u00e9 sabedoria da Cabe\u00e7a o servir-se dos membros em fun\u00e7\u00e3o dos seus dons; \u00e9 pr\u00f3prio da sua pot\u00eancia divina conceder aos membros os dons que ajudam ao crescimento de todo o organismo; o <strong>objectivo<\/strong> deste grande organismo, do corpo m\u00edstico de Cristo, <strong>consiste em que cada membro<\/strong>, \u2013 que em si mesmo \u00e9 um homem completo, dotado de alma e corpo \u2013, <strong>alcance a plenitude da salva\u00e7\u00e3o e da filia\u00e7\u00e3o divina<\/strong>, de tal modo que Deus, pela sua sabedoria, seja glorificado por toda a comunidade dos santos\u00bb. <\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00ab<strong>O homem tem que ser cabe\u00e7a da mulher<\/strong>, \u2013 e podemos acrescentar como explica\u00e7\u00e3o: de toda a fam\u00edlia \u2013, <strong>no mesmo sentido que Cristo<\/strong> \u00e9 cabe\u00e7a da Igreja: por isso a sua fun\u00e7\u00e3o consistir\u00e1 em <strong>governar<\/strong> esta pequena imagem do grande corpo m\u00edstico de Cristo de tal modo <strong>que todos os seus membros<\/strong> <strong>possam desenvolver a\u00ed todos os seus dons em plenitude<\/strong> e trabalhar pelo bem do conjunto, e sobretudo <strong>que todos alcancem a salva\u00e7\u00e3o<\/strong>. O homem n\u00e3o \u00e9 Cristo, nem tem o poder de distribuir os dons. Mas est\u00e1 no seu poder ajudar no seu desenvolvimento (ou tamb\u00e9m levantar obst\u00e1culos); como todo o homem pode, al\u00e9m disso, ajudar o outro a desenvolver os seus dons. A aut\u00eantica sabedoria consiste em n\u00e3o oprimir, mas em fazer amadurecer plenamente estes dons para a salva\u00e7\u00e3o de todos\u00bb.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00abE <strong>uma vez que o homem n\u00e3o \u00e9 perfeito como Cristo<\/strong>, mas \u00e9 uma criatura com alguns dons e muitos defeitos, a sua m\u00e1xima sabedoria estar\u00e1 em <strong>buscar o rem\u00e9dio para os pr\u00f3prios defeitos naquele membro que o completa<\/strong> (da mesma forma que ser\u00e1 suma sabedoria se os governadores das na\u00e7\u00f5es deixarem governar os ministros que tenham mais capacidade). Mas \u00e9 essencial para a sa\u00fade do organismo que tudo aconte\u00e7a sob a direc\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a; por isso, se a mulher se eleva acima da cabe\u00e7a, o organismo n\u00e3o poder\u00e1 prosperar, como quando a cabe\u00e7a permite que o corpo sofra ou pere\u00e7a\u00bb.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta an\u00e1lise dos textos paulinos, tal como vamos observando, Edith interessa-se por esclarecer o sentido dessas palavras que no \u00e2mbito social t\u00eam um sentido muito negativo: submiss\u00e3o, obedi\u00eancia, subordina\u00e7\u00e3o,&#8230; Vamos descobrindo como Edith n\u00e3o renega as palavras, mas o sentido negativo ou absoluto que se pretende dar \u00e0s mesmas. Sublinha o seu valor, mas s\u00f3 desde uma perspectiva teol\u00f3gica, que nos leva a entender o seu sentido origin\u00e1rio. Nos dois grandes textos que acabamos de ver, sublinha-se, talvez, com maior for\u00e7a o papel do homem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. Por isso, a nossa autora d\u00e1 um passo adiante e procura determinar melhor o lugar da mulher perante a comunidade. Centra a sua aten\u00e7\u00e3o na primeira carta a Tim\u00f3teo 2, 9- 15:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00abAs mulheres t\u00eam que ser simples e modestas no vestir, e manifestar com boas obras a sua piedade. A mulher ou\u00e7a a instru\u00e7\u00e3o em sil\u00eancio, com plena submiss\u00e3o. N\u00e3o consinto que a mulher ensine nem domine o homem, mas que se mantenha em sil\u00eancio. Porque Ad\u00e3o foi formado primeiro, e Eva em segundo lugar. E n\u00e3o foi Ad\u00e3o o seduzido, mas a mulher que, seduzida, incorreu na transgress\u00e3o. Contudo, salvar-se-\u00e1 pela sua maternidade se permanecer com mod\u00e9stia na f\u00e9, na caridade e na santidade\u00bb.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos aqui um texto que soa ainda mais duro e intransigente para com a mulher. Chama a aten\u00e7\u00e3o que Edith fixe aqui o seu olhar, em vez de ignorar a sua exist\u00eancia. No entanto, procura uma resposta coerente perante os textos b\u00edblicos que, como este, condicionaram fortemente a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja e o seu comportamento tantas vezes discriminat\u00f3rio diante da mulher. Deixamos que Edith o analise:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00ab<strong>Neste texto<\/strong>, d\u00e1 a impress\u00e3o, ainda com mais nitidez que na carta aos Cor\u00edntios, que <strong>a ordem origin\u00e1ria e a ordem da Reden\u00e7\u00e3o aparecem ocultadas pela ordem da<\/strong> <strong>natureza deca\u00edda<\/strong>, e que <strong>no Ap\u00f3stolo fala o judeu formado no esp\u00edrito da lei<\/strong>. Parece totalmente <strong>esquecida a doutrina evang\u00e9lica da comunidade<\/strong>. O que aqui se diz, e que \u00e9 o oposto de certos abusos das comunidades gregas, <strong>n\u00e3o se pode considerar como o<\/strong> <strong>princ\u00edpio absoluto<\/strong> que determina a concep\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre os dois sexos\u00bb.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00ab\u00c9 <strong>demasiado contr\u00e1rio a tudo o que o Salvador disse e fez<\/strong>; entre os seus \u00edntimos havia mulheres; e demonstrou na pr\u00e1tica, com a <strong>sua obra<\/strong> <strong>redentora<\/strong>, <strong>que faz o mesmo pelas almas femininas e masculinas<\/strong>\u00bb. <\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em>\u00ab\u00c9 inclusivamente contr\u00e1rio ao que diz S. Paulo, expressando de um modo melhor o aut\u00eantico esp\u00edrito evang\u00e9lico: \u201cDe maneira que a lei foi o nosso pedagogo para nos conduzir a Cristo, para que f\u00f4ssemos justificados pela f\u00e9. Mas, chegada a f\u00e9, j\u00e1 n\u00e3o estamos sob o pedagogo&#8230; N\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego, n\u00e3o h\u00e1 servo nem livre, n\u00e3o h\u00e1 homem nem mulher, porque todos sois um em Cristo Jesus <\/em>(Gl 3, 24-28)<em>\u201d\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">31<\/a><em>.<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: right; padding-left: 80px;\">*Javier Sancho.<em> La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. <\/em>Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 89-92.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8216;Duas Asas&#8217; &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10171,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[133],"tags":[],"class_list":["post-10170","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-duas-asas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10170"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10170\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10172,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10170\/revisions\/10172"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10171"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}