{"id":10134,"date":"2020-08-30T08:00:23","date_gmt":"2020-08-30T07:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10134"},"modified":"2020-08-31T10:31:30","modified_gmt":"2020-08-31T09:31:30","slug":"sinais-dos-tempos-joao-manuel-duque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/sinais-dos-tempos-joao-manuel-duque\/","title":{"rendered":"Sinais dos Tempos | Jo\u00e3o Manuel Duque"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><em><strong>Sinais dos Tempos<\/strong><\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\">Rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o sobre os desafios que a pandemia de COVID-19 coloca \u00e0 Igreja e ao mundo<\/h6>\n<hr \/>\n<blockquote>\n<div id=\"divtagdefaultwrapper\" dir=\"ltr\">\n<div>\n<div>\n<div class=\"impComposeSignature\">\n<div class=\"impComposeSignature\">\n<div style=\"text-align: right;\"><em>&#8216;Covid-19:<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><em>&#8211; Que &#8216;mundo&#8217; e que &#8216;Igreja&#8217; est\u00e3o em ocaso?<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><em>&#8211; Que &#8216;mundo&#8217; e que &#8216;Igreja&#8217; se vislumbram na (est\u00e3o em) aurora?&#8217;<\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: right; padding-left: 120px;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Jo\u00e3o Manuel Duque*<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-7933\" src=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/s200_jo_o_manuel.duque_.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/s200_jo_o_manuel.duque_.jpg 200w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/s200_jo_o_manuel.duque_-150x150.jpg 150w, https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/s200_jo_o_manuel.duque_-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>Antes de responder diretamente \u00e0s quest\u00f5es colocadas, gostaria de tecer breves considera\u00e7\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o. Para a Igreja \u2013 e talvez para o mundo \u2013 h\u00e1 uma cis\u00e3o hist\u00f3rica significativa: antes e depois de Cristo! E nem essa foi de rutura total, pois d\u00e1 continuidade a muitos antecedentes, nomeadamente em Israel. Nesse sentido, n\u00e3o estou convencido que haja um \u201cantes ou depois da pandemia\u201d, com altera\u00e7\u00f5es radicalmente significativas. \u00c9 claro que os eventos hist\u00f3ricos marcam a nossa forma de a viver, e aquele que estamos a atravessar \u00e9 um evento significativo. Nesse sentido, deixar\u00e1 marcas. Mas n\u00e3o me parece que provoquem qualquer rutura, a ponto de se avizinhar um novo mundo ou uma nova igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento de crise \u2013 nos mais variados sentidos do termo \u2013 \u00e9, sem d\u00favida, ocasi\u00e3o para receios, mas tamb\u00e9m para esperan\u00e7as, o que pode levar \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de que se esperam transforma\u00e7\u00f5es significativas para depois deste momento. Sendo realista \u2013 mais do que pessimista \u2013 n\u00e3o me parece que assim seja, pelo menos n\u00e3o na medida em que o possamos imaginar (ou at\u00e9 desejar). Mas o momento permite-nos sonhar com elementos que gostar\u00edamos que se alterassem, quer no mundo, quer na Igreja, como comunidade de humanos com os p\u00e9s na terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquilo que me parece mais revelador, neste momento pand\u00e9mico \u2013 e que poder\u00e1 ter efeitos pragm\u00e1ticos (ou n\u00e3o), numa fase posterior \u2013 \u00e9 o conjunto das experi\u00eancias mais ou menos paradoxais que nele experimentamos. Salvaguardando a minha posi\u00e7\u00e3o realista, passo a enumerar alguns elementos que me parecem sobressair na experi\u00eancia que atravessamos, deixando de parte muitos outros<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><strong>Que &#8216;mundo&#8217; e que &#8216;Igreja&#8217; est\u00e3o em ocaso?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O mundo que, para simplificar, costumamos chamar \u201cmoderno\u201d, \u00e9 um mundo constru\u00eddo em cima das capacidades humanas, que ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos se desenvolveram extraordinariamente, sobretudo atrav\u00e9s da tecnologia. Esse mundo est\u00e1 na base do que se denomina globaliza\u00e7\u00e3o e comporta todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es, incluindo a mobilidade permanente e sem fronteiras. As maravilhas conquistadas por esse mundo \u2013 e que s\u00e3o muitas, e muito ben\u00e9ficas para a humanidade \u2013 chegaram mesmo a encobrir os problemas que pode acarretar, e que est\u00e3o sobretudo relacionados com um exerc\u00edcio do poder assente na prepot\u00eancia, quer sobre o outro humano, que sobre a terra, em geral. J\u00e1 h\u00e1 tempos que v\u00ednhamos a perceber os paradoxos desse mundo, que abria possibilidades in\u00e9ditas \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o do planeta mas que, ao mesmo tempo, instaurava novos desequil\u00edbrios, entre pessoas, entre povos, mesmo no conjunto do planeta. Esta pandemia apenas torna esses paradoxos mais evidentes. Significar\u00e1 isso o fim do mundo moderno e das desmesuradas expectativas que nele coloc\u00e1mos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A Igreja, como \u00e9 natural, est\u00e1 no mundo e \u00e9 inevitavelmente marcada pelas tend\u00eancias que o determinam. Tamb\u00e9m a modernidade deixou nela as suas marcas, em todos os sentidos. O reverso das suas conquistas \u2013 em geral humanizantes -, manifesto no estilo prepotente de dom\u00ednio, tamb\u00e9m marcou certas formas de organiza\u00e7\u00e3o eclesial, tendencialmente burocr\u00e1ticas e mesmo tecnocr\u00e1ticas. A confian\u00e7a nas capacidades das realiza\u00e7\u00f5es humanas, sendo leg\u00edtima, pode ter ido al\u00e9m dos limites, encerrando a comunidade eclesial, como institui\u00e7\u00e3o, na complac\u00eancia de si mesma e das suas possibilidades. Isso pode, por um lado, ter \u201ccegado\u201d a Igreja em rela\u00e7\u00e3o aos problemas que um sistema global tecnocr\u00e1tico pode provocar e, por outro lado, ter mesmo inspirado, nas formas de organiza\u00e7\u00e3o eclesial, certa mimetiza\u00e7\u00e3o dos sistemas globalizantes. Muitas comunidades eclesiais acabam por refletir, no seu quotidiano, o quotidiano de um mundo satisfeito consigo mesmo, porque detentor de suficiente riqueza e poder, que o tornam alheio \u00e0s experi\u00eancias de muitos contempor\u00e2neos nossos que, noutros mundos \u2013 ou at\u00e9 na proximidade \u2013 s\u00e3o tratados de forma desumana. Este desequil\u00edbrio n\u00e3o \u00e9 novo. A pandemia apenas pode t\u00ea-lo revelado de forma mais clara.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><strong>Que &#8216;mundo&#8217; e que &#8216;Igreja&#8217; se vislumbram na (est\u00e3o em) aurora?&#8217;<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; As pandemias sempre foram um problema s\u00e9rio, em muitos momentos da hist\u00f3ria. O nosso mundo moderno chegou a acreditar que n\u00e3o seriam mais poss\u00edveis, a n\u00e3o ser que fossem provocadas pelos humanos, ou pelo seu desleixo. Mesmo que essa hip\u00f3tese n\u00e3o seja de todo descart\u00e1vel \u2013 o que coloca a quest\u00e3o ainda mais grave daquilo que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico, a par do modo prepotente de exercer o poder, podem provocar \u2013 aquilo que verificamos com esta pandemia \u00e9 que somos mais vulner\u00e1veis do que pens\u00e1vamos. E somo-lo todos \u2013 embora n\u00e3o todos por igual, como \u00e9 evidente. A universalidade da nossa condi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, que parecia esquecida, voltou a tornar-se evidente; e, no contexto dessa universalidade, tornou-se evidente haver humanos que, em certas condi\u00e7\u00f5es, s\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis. Isso exige uma atitude humilde, em primeiro lugar. Na sequ\u00eancia dessa humildade, surge a exig\u00eancia de especial cuidado e responsabilidade para com os que s\u00e3o mais vulner\u00e1veis. E tudo isso de um modo universal, que ultrapassa as fronteiras das fam\u00edlias, das cren\u00e7as e mesmo das na\u00e7\u00f5es. A globaliza\u00e7\u00e3o manifesta-se, assim, de forma forte, mas diferente da sua aplica\u00e7\u00e3o simplesmente tecnocr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paradoxalmente, a tecnologia, podendo ser uma das ra\u00edzes de um mundo que se desmorona, manifesta-se eficaz num contexto de crise, revelando potencialidades futuras. Quase poder\u00edamos assumir que a pandemia nos conduz a uma avalia\u00e7\u00e3o mais l\u00facida das possibilidades e dos limites tecnol\u00f3gicos \u2013 assim como das possibilidades e dos limites do quotidiano dos humanos que somos e que, sendo complexo, n\u00e3o deixa de ser relativamente simples e b\u00e1sico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A Igreja, como seria de esperar, v\u00ea-se envolvida nessas experi\u00eancias intensas. Explora as possibilidades tecnol\u00f3gicas para modos de rela\u00e7\u00e3o que se reinventam em circunst\u00e2ncias diferentes; mas, ao mesmo tempo, sente-se mais pr\u00f3xima das pessoas reais que, no seu quotidiano, experimentam na carne a vulnerabilidade que os marca. \u00a0Em muitos casos, tem mesmo que defender, politicamente, o valor e a dignidade dos mais vulner\u00e1veis, que certos sistemas pol\u00edticos, ainda demasiados modernos, parecem querer esquecer, em nome de processos evolutivos inevit\u00e1veis ou em nome da sobreviv\u00eancia dos mais fortes. \u00c9 uma Igreja que n\u00e3o pode ser sen\u00e3o a companheira do quotidiano exigente dos humanos, sobretudo daqueles que as estruturas continuam a esquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, esta experi\u00eancia eclesial provocada pela epidemia \u2013 e que nada tem de novo, na hist\u00f3ria do cristianismo \u2013 levanta quest\u00f5es estruturais, relativamente \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o das comunidades eclesiais e \u00e0 reinterpreta\u00e7\u00e3o de certas estruturas. H\u00e1 certas quest\u00f5es que j\u00e1 se colocavam de forma premente antes da pandemia \u2013 nomeadamente devido, por exemplo, \u00e0 quest\u00e3o dos abusos, mas tamb\u00e9m devido aos processos de seculariza\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o \u2013 e que agora se colocam de forma talvez mais intensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a Igreja se compreende mais intensamente como orientada para o exterior de si mesma, envolvida no quotidiano dos nossos contempor\u00e2neos e nos seus problemas, por vezes paradoxais \u2013 como \u00e9 o caso da tecnologia \u2013 como poder\u00e3o organizar-se a comunidades eclesiais para melhor corresponderem \u00e0quilo que lhes \u00e9 exigido? Em vez das multid\u00f5es an\u00f3nimas que levam ao del\u00edrio \u2013 ou \u00e0 apatia \u2013 n\u00e3o ser\u00e1 ocasi\u00e3o para valorizar as pequenas comunidades, em que cada pessoa conta? N\u00e3o dever\u00e3o as comunidades eclesiais ser menos concentradas numa organiza\u00e7\u00e3o centralizada, tendencialmente clerical, e mais laicais, assentes na diversidade dos seus membros e nas redes que entre eles se estabelecem? Que configura\u00e7\u00f5es organizacionais \u2013 mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao exerc\u00edcio do poder \u2013 poder\u00e3o adquirir essas comunidades, para melhor corresponderem, na pr\u00e1tica quotidiana e tamb\u00e9m na estrutura, \u00e0 sua miss\u00e3o? N\u00e3o poder\u00e1 isso ajudar a uma igreja mais pobre, mais humildade, mais pr\u00f3xima \u2013 na proximidade do corpo, que a tecnologia n\u00e3o consegue substituir?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se v\u00ea, n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es novas nem estranhas. Tamb\u00e9m n\u00e3o se espera uma transforma\u00e7\u00e3o radical. Mas a pandemia pode ser excelente ocasi\u00e3o para as recolocar e avaliar a sua seriedade. Isso, \u00e9 claro, sem querer transformar algo que \u00e9 mau \u2013 pois provoca v\u00edtimas \u2013 em algo bom.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\">*Professor Catedr\u00e1tico na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa | Diretor do Centro Regional da UCP &#8211; Braga<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/fernandozhiminaicela-6246704\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4985549\">fernando zhiminaicela<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=4985549\">Pixabay<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sinais dos Tempos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10135,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[145,158],"tags":[],"class_list":["post-10134","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joao-manuel-duque","category-sinais-dos-tempos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10134"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10134\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10237,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10134\/revisions\/10237"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}