{"id":10022,"date":"2020-08-03T08:00:05","date_gmt":"2020-08-03T07:00:05","guid":{"rendered":"http:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/?p=10022"},"modified":"2020-07-31T20:35:58","modified_gmt":"2020-07-31T19:35:58","slug":"tiago-azevedo-ramalho-o-dividendo-o-divisor-o-quociente-e-o-resto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/tiago-azevedo-ramalho-o-dividendo-o-divisor-o-quociente-e-o-resto\/","title":{"rendered":"Tiago Azevedo Ramalho | O dividendo, o divisor, o quociente &#8211; e o resto"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right; padding-left: 440px;\"><em><strong>Direto ao contradit\u00f3rio<\/strong><\/em> | Uma rubrica dedicada \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as certezas de sociedade tidas como insofism\u00e1veis<\/h6>\n<hr \/>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Azevedo Ramalho<\/strong><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><u>1. A paix\u00e3o pelos n\u00fameros<\/u><\/em><u>.<\/u> \u2013 N\u00e3o sabemos em que momento se iniciou a paix\u00e3o pelos n\u00fameros. <em>Os n\u00fameros. <\/em>O fervor de reduzir o todo da realidade a um quantitativo num\u00e9rico, e, logo a seguir, a pretens\u00e3o de, mediante uns quantos c\u00e1lculos, transformar esses mesmos n\u00fameros, de modo a conformar a realidade que fora numericamente encaixotada. Eis que os n\u00fameros se apresentam, portanto, como penhor de uma promessa e objecto de uma esperan\u00e7a. <em>D\u00eaem-me os n\u00fameros!, <\/em>grita o decisor \u2013 o pol\u00edtico, o empresarial, qualquer decisor \u2013, apenas neles confiando como amparo para a sua decis\u00e3o. E se porventura a realidade, rebelde, n\u00e3o reage \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de soma e de multiplica\u00e7\u00e3o, de subtrac\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 porque os n\u00fameros, ou as opera\u00e7\u00f5es, estavam errados e carecem de ser corrigidos \u2013 j\u00e1 a f\u00e9 neles depositada, essa, permanece inquebrant\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabemos em que momento se iniciou a paix\u00e3o pelos n\u00fameros, mas vemos que, qual fogo devorador, alastra pelos diferentes campos da vida social. N\u00e3o me refiro ao altos saberes da Matem\u00e1tica, ou da F\u00edsica, ou da Qu\u00edmica, ou de tantos outros semelhantes, que legitimamente se servem com muito proveito da inven\u00e7\u00e3o do n\u00famero. Muito para al\u00e9m de tais dom\u00ednios, em que o n\u00famero justamente ocupa posi\u00e7\u00e3o primeira, \u00e9 j\u00e1 a vida de todos os dias que vai sendo colonizada pelo fervor da quantifica\u00e7\u00e3o. Pois quem n\u00e3o vive j\u00e1 para o n\u00famero? Quem resiste \u00e0 press\u00e3o da febril avalia\u00e7\u00e3o quantitativa, que a esta actividade atribui <em>x <\/em>e \u00e0quela <em>y<\/em>, e em que o futuro de cada um acaba determinado pela f\u00f3rmula<em> x+y, <\/em>ou <em>x-y, <\/em>ou por uma qualquer outra formaliza\u00e7\u00e3o do mesmo estilo? \u00c9 assim na vida escolar (avalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica, concursos de acesso, concess\u00e3o de bolsas), profissional (avalia\u00e7\u00e3o de desempenho, monitoriza\u00e7\u00e3o de actividade), na vida empresarial (concursos p\u00fablicos, relat\u00f3rios de execu\u00e7\u00e3o, auditorias), mas \u00e9 assim tamb\u00e9m na vida mais pessoal (n\u00famero de seguidores nas redes sociais<em>, <\/em>de amigos, de visualiza\u00e7\u00f5es, \u2026). Mas n\u00e3o se inverte, mediante estas pr\u00e1ticas omnipresentes, o modo de rela\u00e7\u00e3o entre o n\u00famero e a realidade? J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o n\u00famero a ter a pretens\u00e3o de espelhar de modo fiel a realidade, mas \u00e9 a realidade que vai ser torturada de modo a conseguir encaixar no n\u00famero. O n\u00famero torna-se ent\u00e3o ideologia. E tamb\u00e9m um sem sentido: porque perdida a refer\u00eancia \u00e0 realidade, os n\u00fameros s\u00e3o apenas isso, <em>n\u00fameros<\/em>, significante sem significado, forma sem mat\u00e9ria, o vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabemos em que momento se iniciou a paix\u00e3o pelos n\u00fameros, mas est\u00e1 na origem de uma imensa n\u00e1usea que assola esp\u00e9cie humana. H\u00e1, por\u00e9m, boas raz\u00f5es para entender que \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o de sempre. N\u2019<em>O<\/em> <em>Principezinho, <\/em>obra de dizer simples para meditar sobre alguns eixos centrais das rela\u00e7\u00f5es humanas, Saint-Exup\u00e9ry serve-se precisamente da paix\u00e3o pelos n\u00fameros como um modo de distin\u00e7\u00e3o entre a inf\u00e2ncia e a idade adulta. Onde as crian\u00e7as usam uma linguagem da ordem das qualidades (a <em>simpatia<\/em> dos seus amigos, a <em>beleza <\/em>de uma casa), os adultos preferem uma linguagem da ordem das quantidades (<em>quantos <\/em>amigos tem, <em>quanto <\/em>custa a casa). E recordo tamb\u00e9m que o hagi\u00f3grafo coloca o pr\u00f3prio Rei David a ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do n\u00famero, no momento em que aceita realizar um recenseamento (<em>2 Rs <\/em>24), com quanto um recenseamento sup\u00f5e de desejo de dom\u00ednio, de seguran\u00e7a, de auto-sufici\u00eancia, de contagem das espingardas dispon\u00edveis para realizar os pr\u00f3prios projectos. H\u00e1 boas raz\u00f5es, portanto, para supor que a tenta\u00e7\u00e3o de se render aos n\u00fameros \u00e9 de longa data. Simplesmente, goza ela hoje de meios que lhe permitem expandir-se de modo in\u00e9dito: por um lado, a possibilidade de recurso a extraordin\u00e1rios processadores de n\u00fameros, os <em>computadores, <\/em>com uma capacidade de c\u00e1lculo incomparavelmente superior \u00e0 da pessoa humana; por outro, a disponibilidade de n\u00fameros e de mais n\u00fameros com os quais se pode fazer c\u00e1lculos, os chamados <em>dados, <\/em>que todos os dias s\u00e3o reunidos, etiquetados, arquivados. Tal permite que o imp\u00e9rio do n\u00famero todos os dias expanda um pouco mais os seus dom\u00ednios. Porque h\u00e1 meios t\u00e9cnicos que o permitem? Certamente. Mas muito mais atrav\u00e9s da confian\u00e7a idol\u00e1trica que cada um, dia ap\u00f3s dia, nesse imp\u00e9rio deposita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><u>2. Os fora de s\u00e9rie<\/u><\/em>. \u2013 O problema \u00e9 o que escapa \u00e0 linguagem dos n\u00fameros, uma vez que nunca \u00e9 poss\u00edvel fazer uma tradu\u00e7\u00e3o perfeita entre duas linguagens diferenciadas. H\u00e1 sempre uma perda na comunica\u00e7\u00e3o, um res\u00edduo de significado que se perde, um <em>resto<\/em>. S\u00f3 dentro de uma mesma linguagem uma opera\u00e7\u00e3o poder\u00e1 dar resto zero. E obviamente que esse resto ser\u00e1 t\u00e3o maior qu\u00e3o mais diferentes forem as duas linguagens: o portugu\u00eas ter\u00e1 maior n\u00edvel de correspond\u00eancia com o espanhol do que com o alem\u00e3o, e com o alem\u00e3o do que com o chin\u00eas; mas o portugu\u00eas, o espanhol, o alem\u00e3o e o chin\u00eas, que s\u00e3o linguagens naturais, ter\u00e3o mais correspond\u00eancias entre si do que com uma linguagem matem\u00e1tica, que \u00e9 uma linguagem formal. Pensemos na tradu\u00e7\u00e3o de um poema: com maior ou menor correspond\u00eancia, pode ser reciprocamente vertido em diferentes l\u00ednguas naturais (portugu\u00eas em espanhol, espanhol em alem\u00e3o, etc.), mas nunca numa f\u00f3rmula matem\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 linguagem do n\u00famero escapa, com efeito tudo o que \u00e9 \u00fanico, tudo o que \u00e9 incompar\u00e1vel, tudo o que gera resson\u00e2ncia, tudo o que tem rugosidade. Pois o que \u00e9 \u00fanico n\u00e3o pode ser introduzido em nenhuma s\u00e9rie; e, n\u00e3o o podendo ser, n\u00e3o pode ser qualificado como <em>n\u00famero de uma s\u00e9rie<\/em>. E isso \u00e9 o que acontece com cada um de n\u00f3s: cada pessoa, na sua subjectividade, na sua hist\u00f3ria, na sua biografia, na sua rede de rela\u00e7\u00f5es, no seu resto, \u00e9 <em>fora de s\u00e9rie, <\/em>irredut\u00edvel a um todo, a uma quantifica\u00e7\u00e3o. No imp\u00e9rio da redu\u00e7\u00e3o da realidade ao n\u00famero, a pessoa \u00e9 um <em>res\u00edduo<\/em> e um <em>resto<\/em>. Por isso, aquele que sup\u00f5e <em>ser capaz <\/em>de reduzir a realidade a uma f\u00f3rmula num\u00e9rica, est\u00e1 na verdade a excluir da realidade que afirma espelhar tudo quanto lhe empresta humanidade. Poder\u00e1 esperar-se alguma humaniza\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo de olhar a realidade que ao homem real e incarnado n\u00e3o d\u00e1 qualquer espa\u00e7o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><u>3. O Resto<\/u>.<\/em> \u2013 Sobra, pois, uma enorme massa de descartados, periferia de uma humanidade metrificada, um<em> Resto<\/em>. Perante o imp\u00e9rio do n\u00famero, \u00e9 nesse pequeno <em>Resto<\/em>, ao qual se nega o espa\u00e7o, que nos situamos, ou pelo menos \u00e9 a\u00ed que se situa o que de afectivo se encontra em n\u00f3s. Que esperan\u00e7a pode haver ao habitar-se nesse res\u00edduo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Misteriosamente, o <em>Resto <\/em>\u00e9 tamb\u00e9m uma categoria b\u00edblica que ilumina de esperan\u00e7a o horizonte futuro. \u00c9 o <em>Resto, <\/em>e n\u00e3o o <em>Imp\u00e9rio<\/em>, que \u00e9 o destinat\u00e1rio primeiro, predilecto, das promessas salv\u00edficas. Na li\u00e7\u00e3o deuteron\u00f3mica, Israel \u00e9 escolhido, n\u00e3o por ser o maior, mas o mais pequeno dos povos (<em>Dt <\/em>7,7), pois \u00e9 na fragilidade, sustenta S\u00e3o Paulo, que mais perfeitamente pode reluzir a for\u00e7a salv\u00edfica (<em>1 Cor <\/em>1, 26-31); e o profeta sublinha que, por maior que seja a opress\u00e3o, haver\u00e1 sempre um <em>Resto <\/em>que sobreviver\u00e1 e que ser\u00e1 princ\u00edpio de regenera\u00e7\u00e3o (<em>Is <\/em>4, 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora do olhar do n\u00famero, esse <em>Resto <\/em>ainda assim existe. Vive. Com efeito, germina e cresce enquanto se d\u00e1 lugar a essas actividades que n\u00e3o parecem contar para coisa nenhuma. \u00c9 a m\u00e3e que se demora a brincar com um filho; ou o homem bom que interrompe os seus afazeres para socorrer um desvalido ca\u00eddo na berma da estrada; ou ainda os velhinhos, que j\u00e1 desistiram de fazer contas, a cuidarem dos seus netos, ou os netos, que ainda n\u00e3o aprenderam a contar, a cuidarem dos seus velhinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o ser\u00e1 a este <em>Resto <\/em>que se referir\u00e1 uma das par\u00e1bolas do Reino, a do <em>gr\u00e3o de mostarda<\/em>? Esse <em>Resto, <\/em>res\u00edduo que sobra de um mundo quantificado, \u00e9 muito pequeno \u2013 pequeno por ser pouco o espa\u00e7o que lhe \u00e9 reservado, n\u00e3o pelos muitos que o integram. Mas tamb\u00e9m o \u00e9 o gr\u00e3o de mostarda, a mais pequena de todas as sementes. Mas \u00e9 ela que, uma vez germinando e crescendo, est\u00e1 chamada a tornar-se a maior de todas as \u00e1rvores (<em>Mt <\/em>13, 13-30).<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><strong> Imagem de\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/users\/designwebjae-1753371\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3109378\">Jae Rue<\/a>\u00a0por\u00a0<a href=\"https:\/\/pixabay.com\/pt\/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=3109378\">Pixabay<\/a>\u00a0<\/strong><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direto ao contradit\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10023,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[157,144],"tags":[],"class_list":["post-10022","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direto-ao-contraditorio","category-tiago-azevedo-ramalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10022"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10022\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10025,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10022\/revisions\/10025"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10023"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diocese-aveiro.pt\/cultura\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}