Sáb. Jul 24th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

S. João da Cruz – Doutor Da Igreja

 

José Vicente Rodrigues*

 

  1. Bem cedo aqueles que tinham conhecido os escritos do santo antes de serem editados deram-se conta do valor sapiencial dos mesmos; um dos companheiros do mesmo santo, Luís de Santo Ângelo declarava: «Seria importante imprimir os livros que deixou, por ser muito espirituais, como foi todo o seu trato; e creio que seriam de grande proveito na Igreja» (BMC 26, p. 452). Impressos os livros, foi adquirindo nome de grande mestre espiritual e cedo começou a ser chamado extra-oficialmente o doutor místico; e este apelativo se prodigaliza em biografias e edições dos seus livros.
  2. Havia já tempo que se sonhava com o doutoramento de João da Cruz. A ideia foi tomando consistência cada vez maior na proximidade do III Centenário da morte. A pensar já no centenário o Prior de Segóvia, em nome da comunidade, elevou uma solicitude ao Capítulo Geral da Ordem a pedir que se apresente à Santa Sé uma petição a favor «da declaração do Doutoramento do nosso santo padre João da Cruz, para que assim como São Tomás ostenta o título de Doutor Angélico e São Boaventura o de Doutor Seráfico, o nosso santo Padre tenha o de Doutor místico». O Capítulo Geral responde afirmativamente. No Capítulo o Provincial de Navarra Paulo de Santa Teresa apresentou uma exposição-voto defendendo muito bem com argumentos intrínsecos e extrínsecos a legitimidade do título de Doutor que se pedia para João da Cruz.
  3. Entram em acção os Bispos da Província eclesiástica de Valhadolid, entre os quais está o de Segóvia, e enviam a sua Carta Postulatória à Santa Sé em favor do Doutoramento. O Provincial dos Carmelitas Descalços de Castela, sob cuja jurisdição está o convento de Segóvia, envia a sua Carta Postulatória a Leão XIII e subscrevem-na 3 cardeais, 4 arcebispos, 22 bispos e 2 Vigários capitulares, Em 1911 o bispo de Segóvia envia Carta Postulatória a Roma. No Capítulo Geral da Ordem de 1920, sob a proposta do primeiro sócio de Castela, decide-se começar os trâmites para o Doutoramento. E o Provincial de Castela, Sebastião de Jesus Maria, adiantando-se um pouco mais da conta, solicita que os frades da sua província obtenham o privilégio de celebrar a missa e recitar o ofício de São João da Cruz como Doutor.
  4. Manuel de Castro y Alonso, bispo de Segóvia envia em 1924, além de uma Carta Postulatória pessoal, o texto de outra Postulatória em favor do Doutoramento aos bispos, para que se dignem assiná-la e enviá-la à Santa Sé. Cardeais, arcebispos, bispos e superiores religiosos de todo o mundo fazem sua esta Carta e assinam-na nada menos que 467, em 1926-1927. Anteriormente, no Capítulo geral de 1925 aceita-se a proposta do provincial de Castela sobre a conveniência de levar uma súplica oficial à Santa Sé a pedir o Doutoramento do santo. Guilherme de Santo Alberto, Prepósito geral da Ordem, envia a sua Carta Postulatória ao Papa; fazem o mesmo o Cardeal Protector da Ordem e o Cardeal Carlos Rossi, carmelita descalço.
  5. Entram em acção a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma com a sua Carta Postulatória; também o Prepósito Geral da Companhia de Jesus (Ledóchowski), o Prior Geral O. Carm (Elias Magensis), no Instituto Católico de Paris, a Faculdade teológica do «Angelicum” de Roma; Universidades eclesiásticas, seminários, universidades civis e Academias de Espanha enviam também a sua Carta Postulatória em favor do Doutoramento, assinando uma mesma petição 15 Instituições.

Juntam-se numerosas Cartas Postulatórias da Universidade Católica de Milão, do Ateneu do Pontifício Seminário Maior de Roma, do Colégio Internacional dos Carmelitas. A Postulação Geral dos carmelitas descalços preparou um opúsculo de 31 páginas para entregar aos consultores da Sagrada Congregação, muito bem feito, que foi louvado especialmente por Pio XI.

  1. A esta série de petições, muitas delas amplamente argumentadas, há que acrescentar os dois chamados “VOTO EX OFFICIO”, encarregados pela Santa Sé, o primeiro dos quais se deve ao famoso padre José de Guibert, jesuíta, que vai respondendo a várias perguntas; 1) São João da Cruz há-de ser proclamado solenemente Doutor da Igreja? 2) É oportuna tal declaração? 3) Resplandece São João da Cruz em tal eminência de doutrina na Teologia Dogmática como se requer com todo o direito num Doutor da Igreja? O segundo “Votum” é do carmelita descalço Pascoal do Santíssimo Sacramento (Gustavo Feuchaux). Tem que responder à pergunta: São João da Cruz é teólogo? E fá-lo examinando o sujeito da teologia, o conhecimento do objecto, a argumentação, a organização da doutrina, tal como se encontram nos escritos de João da Cruz. Termina com uma conclusão e um Apêndice.
  2. Proclamação eclesial de Doutor da Igreja Universal

Foi Pio XI quem proclamou São João da Cruz Doutor da Igreja Universal com a Carta Apostólica “die vicesima”, datada em Roma a 24 de Agosto de 1926.

  1. O texto vaticano, em latim, foi traduzido ao castelhano:

«Papa Pio XI. Para perpétua memória.

No dia 27 de Dezembro de 1726, o nosso Predecessor o Papa Bento XIII, de feliz memória, inscrevia no catálogo dos Santos a São João da Cruz, que foi o primeiro professo da Ordem dos Carmelitas Descalços e quem, juntamente com Santa Teresa de Jesus, reformou a Ordem do Carmo. E na Bula da Canonização não só se provava abundantemente a admirável vida do Santo no exercício da austeridade e de todas as virtudes, mas também a sua ciência nas coisas sagradas; porque, efectivamente, a Divina Providência tinha-o enviado no século XVI, entre os demais varões ilustres pela sua doutrina e santidade que naquele momento resplandeceram na Igreja Católica, a fim de que reparasse os danos e injúrias que à Esposa mística de Cristo inferiram os hereges protestantes e refutasse particulares erros.

Nasceu em Espanha, em Fontiveros, no dia 24 de Junho de 1542, ingressou na Ordem do Carmo aos vinte e um anos de idade e estudou Filosofia e Teologia na muito célebre Universidade de Salamanca. No mesmo ano em que foi ordenado sacerdote, ou seja, no ano de 1567, conheceu a Santa Teresa, a qual tinha começado já a mais rigorosa observância da Regra do Carmo entre as monjas e desejava ardentemente introduzir a mesma reforma entre os religiosos da Ordem. Aderindo completamente João da Cruz aos desejos de Santa Teresa e favorecendo com grande diligência aqueles começos, vestiu o hábito dos Carmelitas Reformados e iniciou a observância da sua Regra.

Foi nomeado mestre de noviços e primeiro reitor do colégio de Alcalá de Henares, e sucessivamente confessor das monjas carmelitas da antiga observância de Ávila, onde o prenderam violentamente e o encerraram no cárcere. Durante os nove meses em que esteve preso, compôs o “Cântico Espiritual”, no qual canta a união mística da alma fiel com Cristo seu esposo e os múltiplos e suaves efeitos da oração e o qual comentou depois com notas e considerações.

Admiravelmente liberto da prisão, no convento do Calvário e noutros que habitou em razão dos seus ofícios, continua a preparar vários outros escritos, nos quais, como inspirado do céu, ensina às almas o caminho da perfeição. Embora a “Subida do Monte Carmelo”, a “Noite Escura”, a “Chama de amor viva” e outros opúsculos e cartas suas tratem de matérias difíceis e recônditas, encerram, contudo, tão copiosa doutrina e adaptam-se tão bem à inteligência dos leitores, que com razão podem ser considerados como o código e a escola de toda a alma fiel desejosa de empreender uma vida mais perfeita.

Por isso, com razão se afirma na Bula de canonização que João da Cruz escreveu «livros de mística Teologia cheio de sabedoria celestial»; e quase todos subscreveram depois este juízo tão autorizado. Porque foi tanta a autoridade que em ascética e mística foi alcançando São João da Cruz depois da sua morte, acontecida em 1591, que os escritores de Teologia e varões santos viram sem cessar nele o mestre de santidade e piedade, e acudiram à sua doutrina e escritos como a pura fonte do sentido cristão e espírito da Igreja, ao tratar de coisas espirituais.

Não é de estranhar, pois, que já no ano de 1891, ao celebrar-se a o terceiro Centenário da morte de São João, alguns Cardeais, juntamente com os bispos de Espanha, pedissem ao Nosso Predecessor Leão XIII que se dignasse declará-lo Doutor da Igreja; e esta mesma petição continuou depois fazendo-a sem cessar a esta Santa Sé, quer os reitores das Universidades Católicas, quer os Prelados das Ordens Religiosas. Portanto, tendo-nos humildemente suplicado o actual Prepósito Geral da Ordem dos Carmelitas Descalços (o qual aproveitou a ocasião do próximo segundo Centenário da Canonização do Santo e apresentou o voto unânime do Capítulo Geral da sua Ordem), que Nos dignássemos declarar a São João da Cruz Doutor da Igreja, cuja súplica foi apoiada por muitos Cardeais, Arcebispos, Bispos, varões eminentes, tanto clérigos como leigos e pelos Institutos e Universidades, pareceu-nos muito oportuno encomendar assunto tão importante ao estudo e aprovação da Sagrada Congregação de Ritos, a qual, cumprindo o Nosso mandato, deu comissão ex officio a varões idóneos para examinarem a questão.

Procurados, pois, e obtidos os votos separados destes e impressos, só faltava pedir aos Cardeais da Sagrada Congregação de Ritos, que se, tendo em conta os três requisitos que depois do nosso Predecessor Bento XIV se costumam exigir no Doutor da Igreja universal, a saber, insigne santidade, eminente doutrina, e a declaração do Romano Pontífice, julgavam que se podia proceder a declarar São João da Cruz Doutor da Igreja universal; e os eminentíssimos Cardeais da Sagrada Congregação de Ritos, depois de feita a relação da causa pelo nosso venerável irmão António Cardeal Vico, bispo de Porto e Santa Rufina, Prefeito de dita Congregação, e ouvido o parecer do nosso amado filho Carlos Salotti, Promotor Geral da fé, na reunião ordinária de 27 de Julho último, celebrada no Vaticano, deram unanimemente a sua sentença afirmativa.

Portanto, Nós, concedendo sem dificuldade e de bom grado o que os Carmelitas Descalços e demais apoiantes Nos pediram, com ciência certa, madura deliberação e plena potestade Apostólica, pelas presentes declaramos e constituímos a SÃO JOÃO DA CRUZ, confessor, DOUTOR DA IGREJA UNIVERSAL,            sem que possam opor-se as Constituições e Ordenações Apostólicas nem qualquer outra disposição em contrário. Decretando que as presentes sejam sempre firmes, válidas e eficazes, e que produzam e consigam os seus plenos e íntegros efeitos; e que assim se deverá julgar e definir, sendo a partir de agora de nenhum valor e nulo quanto por qualquer e com qualquer autoridade, com certeza ou ignorância, se pretender o contrário.

Dado em Roma. Em São Pedro, sob o anel do Pescador, a 24 de Agosto do ano 1926, quinto do Nosso Pontificado. – P. Cardeal Gasparri, Secretário de Estado».

  1. Este é o texto pontifício. A alegria por esta nomeação foi enorme, muito particularmente na Ordem dos Carmelitas Descalços e na diocese de Segóvia, cujo bispo Dom Manuel de Castro y Alonso se desfez pelo doutoramento de João da Cruz e que «recolheu num álbum as assinaturas de todos a apresentou-as ao Papa Pio XI na visita que lhe fez no ano santo de 1925». O Geral da Ordem, Guilherme de Santo Alberto, escreveu uma carta a toda a Ordem, para participar na alegria de todos por esta concessão durante «tanto tempo esperada e tão intensamente desejada», e exortando todos a seguir a João da Cruz na Subida do Monte Carmelo e no cuidado cada vez mais diligente para aprofundar os seus ensinamentos.
  2. Em 1926 houve Capítulo Geral extraordinário da Ordem, para conformar as Constituições da Ordem com as prescrições do novo código de Direito Canónico. Terminado o Capítulo os capitulares e outros religiosos foram recebidos em audiência privada por Pio XI. O Padre Geral, numa alocução muito sentida, agradeceu ao Papa especialmente pela canonização de Teresa de Lisieux e pelo Doutoramento de São João da Cruz.

11.Patrono dos poetas de língua espanhola: assim o nomeou João Paulo II com o seu Breve Apostólico Inter praeclaros poetas de 8 de Março de 1993. Anteriormente a 21 de Março de 1952, no começo da Primavera, tinha sido proclamado patrono dos poetas espanhóis, os quais faziam grande festa com abundância de poesias nesse dia cada ano.

*José Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 105 -109.

 


Imagem: Desenho de Cristo crucificado visto “de cima” de João da Cruz que inspirou Salvador Dalí a pintar seu “Cristo de São João da Cruz”