Seg. Jun 14th, 2021

No 20.º aniversário da Morte do Pe. Arménio

Padre Arménio – Músico. A sua relação com os órgãos de Aveiro [11]

Domingos Peixoto
  1. A ligação do Pe. Arménio aos órgãos do Museu de Aveiro

Voltamos um pouco atrás no tempo, agora aos órgãos do Museu de Aveiro. Este número tem alguns elementos esclarecedores do precedente, ajudando igualmente a introduzir o seguinte.

Existe no Museu um documento interessante, quer por ter a ver com a cedência de materiais do desmantelado ‘órgão grande’ da Igreja de Jesus, quer por revelar a intenção que o Pe. Arménio tinha de pôr a funcionar o então apelidado de ‘Órgão das Carmelitas’, que de facto é oriundo da antiga Sé, a demolida Igreja de São Bernardino. Trata-se de um postal dirigido pelo Sr. Manuel da Costa Freitas (conhecido por Sr. Necas), ao Director, Dr. António Gonçalves, em 13 de Dezembro de 1967:

“Exmo. Senhor Director […] O Sr. Pe. Arménio pede o favor ao Sr. Director de o procurar quando V. Ex.ª vier a Aveiro, pois pensa pôr o órgão das Carmelitas, que está aqui no Museu, a funcionar. Pede também, caso seja possível e viável, alguns tubos de madeira do órgão da igreja, que estão na arrecadação, que é para completar o da Sé, isto é, caso seja preciso, pois que os mesmos tubos, se um dia pensassem arranjar o órgão da igreja, estes tubos não serviam, pois só um órgão novo. Renovo os meus cumprimentos.

Manuel”[1].

Foram, de facto, cedidos tubos e outros materiais à Sé; como vimos atrás, a lista de materiais fornecidos pelo organeiro bracarense para os novos registos do órgão da Glória não contempla os tubos. Foi igualmente cedido o someiro principal do ‘órgão grande’ da Igreja de Jesus, que seria aproveitado para o órgão da Igreja do Seminário.

Refira-se que, embora hoje se não rejeite a hipótese de proceder a obras no edifício do Museu que permitam a reconstrução do ‘órgão grande’, tal ideia estava completamente fora de questão há 50 anos, uma vez que o instrumento fora desmantelado com carácter definitivo em 1935 e, no seu lugar, construída uma parede:

“Andam os Edifícios e Monumentos Nacionais a reparar o coro da igreja de Jesus, que ameaça ruína [..] Tirou-se o resto do interior do órgão grande, que estava todo inutilizado e destruído há muitos anos e afrontava o corredor do claustro, e mudou-se para aí o portalzinho ogival que estava entaipado. Vai-se reconstruindo a parede a tijolo e cimento em segurança”[2].

O arranjo do órgão da antiga Sé – chamado ‘Órgão das Carmelitas’ – não se chegou a concretizar, talvez por não estar em lugar de culto e não ser viável o seu regresso à igreja donde viera.

 

            A recuperação do órgão do coro alto

Já numa carta de 21 de Novembro de 1968 o Pe. Arménio dizia ao Sr. Rodrigues que “há um pequeno órgão do [coro alto do] Museu a afinar”.

Os trabalhos foram feitos pouco depois, estando concluídos em fins de Janeiro de 1969:

“[…] Após 56 anos de abandono, o órgão mandado construir pela prioresa Soror Isabel Narcisa no seu 2.º triénio, e que se encontra no coro alto da Igreja de Jesus (coro da comunidade), foi restaurado e posto a funcionar. Mais uma obra que se deve ao dinamismo do Rev. Arménio, pároco da Glória, trabalhando com este sacerdote também Manuel Rebelo da Maia Mendonça, Joaquim Rodrigues e António  Rodrigues [trata-se de José Rodrigues e seu filho Joaquim], estes últimos de Braga […]  A inauguração efectua-se na missa das 10, celebrada pelo Rev. Manuel Caetano Fidalgo, acompanhada pelo grupo de jovens da Glória”[3].

Uma inscrição na caixa do órgão confirma a autoria do trabalho: “Afinado. José Rodrigues, 1969”.

 

[1] Biblioteca do Museu de Aveiro, secção de Reservados..

[2] Ib., Dr. Alberto Souto, Notas e apontamentos sobre o Museu Regional de Aveiro e seus serviços, pelo Diretor.

[3] O Comércio do Porto, 1969.01.26.