Breve comentário
O evangelista Lucas lembra, uma vez mais, o caminho de Jesus para Jerusalém, ao dizer que ele, tendo entrado em Jericó, atravessava a cidade. Faltam apenas 25 km para o destino.
Jericó estava no caminho do norte em rota para Jerusalém. Era a segunda cidade da Judeia, sendo, em grande parte, residência de sacerdotes, pois dos 24 grupos de sacerdotes e levitas, os rabinos falavam de 12 deles estacionados em Jericó. Daí que no exemplo da parábola do samaritano seja um sacerdote e um levita que aparecem em primeiro lugar (Lc 10, 31-32).
O encontro entre Jesus e Zaqueu, referido apenas por Lucas, é um episódio chave, solução do que está para trás e prelúdio do que se segue.
Zaqueu é um homem ferido: por amor ao dinheiro excluiu da sua comunidade, é odiado pelos seus; é natural que sofra pelo facto de ser de baixa estatura e tenha necessidade de se afirmar através da sua riqueza. Também se afastou do seu Deus, porque este amor ao dinheiro leva-o não só a colaborar com os romanos, mas inclusive a roubar. Zaqueu é rico, mas não é feliz, porque a felicidade encontra-se na comunhão com Deus e com os outros.
O centro da narração é o desejo que Zaqueu tem de ver e o olhar de Jesus sobre ele. É deste encontro de olhares que irrompe o «hoje» da salvação: O Salvador nasce no coração do homem para o qual está morto.
Zaqueu (Zakkai) pode significar «puro», «justo», mas também «Deus recorda», um nome muito comum. Na verdade é um chefe de publicanos, pecador público, rico e ladrão, como ele mesmo adiante reconhece. É assim um caso desesperado, um pecador da pior espécie que Deus, misericordiosamente, recorda!
O pecador Zaqueu procurava ver quem era Jesus. Dada a sua baixa estatura, é impedido pela multidão que o cerca, mas resolve o problema: sobe a uma árvore. É o tal feeling que existe entre Jesus e os pecadores.
Quando chegou àquele local, levantando os olhos, Jesus disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, porque hoje devo ficar em tua casa».
Zaqueu procurava ver Jesus mas é Jesus quem o vê, pois anda à sua procura. Os olhos de Jesus procuram precisamente aquele homem, Zaqueu. Olha-o de baixo, porque Jesus se rebaixou para a todos servir (cf. 9,48). Depois chama-o pelo nome (Zaqueu = puro), exprimindo afecto. Faz-se convidado, «hoje» (repetido também no v. 9), para a casa dele, com a urgência do «depressa» e do «eu preciso», que vem da vontade do Pai.
Zaqueu desceu imediatamente e acolheu-o cheio de alegria. Acolher é o gesto fundamental do amor. Nasce do coração de Zaqueu alguma coisa que ele antes não conhecia.
Toda a gente murmura e critica, como já era costume em circunstâncias semelhantes, porque Jesus vai contaminar-se na casa dum pecador (15,1-2). Jesus não responde. É Zaqueu que, sem ser interpelado, se levanta e diz: «Eis que eu dou metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, restituo-lhe o quatro vezes mais».
A justiça da lei previa esta restituição, mas Zaqueu começa com outra lei a que ninguém estava obrigado: dar metade dos seus bens aos pobres. É a lei do amor, daquele que se torna discípulo de Jesus. O amor misericordioso de Jesus, que não o criticou, pelo contrário olhou para ele sem o julgar e se fez convidar como um amigo para sua casa, provoca esta mudança de vida.
Uma vez mais a conversão é, na linha do evangelho de Lucas, fruto da misericórdia divina que delicadamente se faz presente em casa do pecador. Uma vez mais a alegria de Deus explode: «Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão».
Jesus é apresentado não apenas como um meio ou um portador de salvação, mas como a própria salvação. Já o velho Simeão, ao olhar para o bebé Jesus nos seus braços, dá graças a Deus porque os seus olhos viram a «salvação». É esta salvação encarnada na pessoa de Jesus que «entrou nesta casa».
HOJE! É a alegria do Natal que anuncia a presença do Salvador no coração do homem (cf. 2,11). É a salvação que acontece em qualquer momento, mesmo na eminência da morte: «Hoje estarás comigo no paraíso!» (23,43). É esta alegria que invade Zaqueu ao receber Jesus em sua casa.
Jesus é apresentado como o Bom pastor que procurou esta ovelha chamada Zaqueu, que estava perdido e foi encontrado. «De facto, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido».
Pe. Franclim Pacheco
Diocese de Aveiro

