O Deus Quotidiano

“O evangelho vivido com verdade e enunciado com alegria

não se leva aos outros apenas com palavras.

O evangelho ama e entusiasma.” D. António Francisco.

 

 

A «nossa» Missão Jubilar está em processo de avaliação. Graças a Deus e a todos, desde os mais empenhados até aos que foram arrastados, não esquecendo os mais distraídos e mesmos os-não-colaboracionistas-por-princípio, até aos que viveram a Missão Jubilar de forma inteiramente apaixonada. Todos com exceção! A Missão Jubilar foi exigente, coerente, comunitária e, talvez, incompatível com uma Igreja fechada sobre si mesma na doutrina, quanto à sobrevivência num mundo indiferente e cruel.

 

Uma “nova” igreja e um “novo” mundo só serão «viáveis» através do «Evangelii Gaudium». Uma anedota contextualizada diria: “Tenho uma boa e uma má noticia para dar… esta acabou e brevemente vai começar outra”. Qual é a boa notícia? Qual é a má notícia? Nós saberemos do nosso (des)compromisso. Deus é paciente connosco, doutro modo não tolerava o telejornal! «A Lei Nova é sempre a Lei Antiga não cumprida».

 

As «bem-aventuranças» são as afirmações de que Deus se faz quotidiano de modo absoluto. Será o acesso definitivo à mística da nossa existência, numa vida inteira para os outros, apesar de todo o sofrimento cruel e injustificado. Essa catequese popular e comunitária, feita da base para as bases, feita do evangelho professado para o evangelho encarnado: é um tesouro que não pode ser desbaratado. Que fizemos nós cristãos da herança não reclamada da santidade? Ler, meditar e viver, a conta-gotas, sem nunca ficar saciado, a passagem de Mateus 5,3-12. Um dia destes - «hoje é o dia» -sem deixar de querer, mesmo sem sol, junto da sua família (natural ou adotada) na sua comunidade (de referência ou de preferência), ou então, em plena rua (sua e dos outros), saberá qual é o segredo de Deus. Fará a seu modo o elogio do natal mais humanizado.

 

O Deus do quotidiano, está em nós, dentro de nós e é tão próximo, quanto solidário e pacificador. A nossa identidade é alimentada pela confiança neste Deus quotidiano. Nas coisas simples e directas que todos podemos realizar para um mundo melhor. Não desconfiemos da capacidade própria nem das iniciativas alheias. O Deus quotidiano comunica-se e exige que ninguém se considere ou seja considerado, socialmente «incompetente» ou «inútil», isto é, incapaz de uma integração social. Os que, por causas traumáticas da infância, causas naturais (hereditárias, genéticas…) ou choques sociais (desemprego, falência, crise familiar…) desestruturam ou não consolidam a sua identidade: a todos esses o Deus Quotidiano se professa no viver humano digno.

 

O Deus Quotidiano diz através de nós: Pai Nosso e Pão Nosso! Sem distinções nem discriminações. Este é o Deus de Jesus Cristo vivido no calendário da História. Onde todos os dias são caminho de santificação. Sem medo, vergonha ou preconceito. Um Deus como Outro Absoluto, mas sempre encarnado em histórias e rostos diários. O «dia-a-dia» da Fé é ocasião de Queda e Pecado, mas oferta e dom de renovada Graça inspiradora. Todos os dias nos tornamos cristãos. Pedimos forças para o Caminho. Continuemos com “o” espírito-da-missão-jubilar a sermos inconvenientes ou extravagantes, no que toca e convoca ao Amor e à Liberdade, das Bem-Aventuranças, e seremos, sem dúvida, mais felizes porque mais para os outros, de quem nos aproximaremos pelo Serviço (social e evangélico).

Pe.Pedro José, Gafanha da Nazaré/Encarnação/Carmo,

10-12-2013, caracteres (incl. esp), 3252.