XXII Domingo do Tempo Comum (Ano A)

Pe. Franclim Pacheco

Breve comentário
O texto deste domingo é a continuação do domingo anterior. Na sondagem feita por Jesus («Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?… Vós quem dizeis que eu sou?») ficámos a saber o que pensam as pessoas em geral acerca de Jesus e o que pensa o grupo dos discípulos pela boca de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo». Esta profissão de fé não foi uma descoberta de Pedro (carne e sangue) mas uma revelação do Pai.
O problema está na concepção que os contemporâneos de Jesus tinham acerca do Cristo ou Messias. Os rabinos iam ensinando há séculos que, quando viesse o Messias, descendente de David, a Palestina seria transformada, o Messias forte e glorioso iria derrotar os inimigos do povo e seria restaurada a realeza de Israel. É este esquema que os discípulos têm na sua mente quando vão discutindo entre si qual deles será o maior, o mais importante, quando for inaugurado o reino de Deus.
Jesus começa a mostrar qual era o seu futuro e a sua missão. E vai fazê-lo ainda mais duas vezes: são os três anúncios da paixão que encontramos igualmente nos evangelhos de Marcos e Lucas. O verbo grego deî, traduzido por «devia» (ou «era preciso que», «era necessário que») indica sempre que o que se diz faz parte do projecto de Deus: ir para Jerusalém, sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
É este projecto de Deus que Pedro não consegue entender pois está ainda a pensar num esquema muito humano. Por isso, tenta convencer Jesus que ele está enganado, que não deve estar a ver bem as coisas, Deus não permitirá tal coisa, que esse não pode ser de forma alguma o destino do Cristo-Messias. Com esta maneira de pensar, Pedro torna-se Satanás, um «adversário» (é este o significado de Satanás), ao querer indicar a Jesus um caminho a seguir diferente do projecto de Deus. Por isso, Jesus não o manda apenas afastar, mas ir atrás dele. É Jesus quem vai à frente a indicar o caminho e não Pedro! Aquele que tinha sido indicado como «pedra», como alicerce da Igreja é agora apontado como «pedra de tropeço» porque está a deixar-se levar por raciocínios humanos, tornando-se um obstáculo para o Mestre e para os outros discípulos.
Depois de ter corrigido Pedro, Jesus retoma a sua linha de pensamento, apresentando as exigências ou condições para aqueles que o querem seguir: «renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me». E acrescenta três razões fundamentais para esta escolha radical: quem dá a sua vida, como acontece com o grão de trigo, não a perde, mas ganha-a; a vida deste mundo é frágil e passa rapidamente, pelo que não pode servir de segurança; além disso, Jesus aponta para a recompensa final. O discípulo, agora solidário com o Messias crucificado, espera a plena comunhão de vida com o Messias glorificado, aqui identificado com o Filho do Homem, o juiz e senhor universal. Só quem for solidário, não só com o Messias humilhado e morto, mas também com o Filho do Homem glorificado e vivo, realiza o estatuto do discípulo.