XIII Domingo do Tempo Comum (Ano A)

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Pe. Franclim Pacheco

Breve comentário

O texto deste domingo é o final do «discurso da missão», isto é, das palavras que Jesus dirige aos Doze, depois de os ter escolhido, enviados agora em missão, a proclamar: «O Reino dos céus está próximo». Jesus começa por alertar os discípulos das dificuldades que irão encontrar e que, ao tempo da composição do evangelho, já estão a viver: «Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos» (v. 16). Segue-se um apela à confiança e a não ter medo («Não temais»: v. 26) de proclamar abertamente a Boa Nova, apesar das divisões que ela possa causar.

O anúncio do Evangelho não é pacífico («… vim trazer… a espada»: v. 34) e as maiores dificuldades, os maiores inimigos que irão encontrar serão os amigos, os familiares, isto é, aqueles de quem menos se espera, incluindo os de «casa», da própria comunidade cristã (vv. 35-36). No fundo, a não aceitação e violência histórica em relação ao anúncio de paz feito por Jesus irá encontrar eco na actuação dos discípulos.

Neste contexto insere-se a página deste domingo. Se os discípulos de Jesus são aqueles que partilham sem reservas o seu destino, devem ter em conta a divisão e os conflitos até nas relações familiares. A pertença a Cristo não passa através do clã familiar, nem se transmite com a herança do sangue. É uma escolha pessoal que, por vezes, pode pôr em discussão até os laços familiares. Na exigência de seguimento proposta por Jesus ressoa o absoluto de Deus que não admite concorrentes («O pai ou a mãe… o filho ou a filha… mais do que a mim»).

O tema da cruz e de encontrar/perder a vida, que já encontrámos nas condições para seguir Jesus (16,24-25), depois do 1º anúncio da paixão, é aqui retomado para acentuar a radicalidade da escolha prática e existencial que implica uma fidelidade total a Cristo e ao evangelho. Naquele tempo, a cruz era a pena de morte que o império romano infligia aos bandidos e marginais. Tomar a cruz e levá-la atrás de Jesus era o mesmo que aceitar ser marginalizado pelo sistema injusto do Império. A cruz de Jesus é a consequência do empenhamento livremente assumido de revelar a Boa Nova que Deus é Pai e que, portanto, todas as pessoas devem ser aceites e tratadas como irmãos e irmãs.

Este modo de falar era bastante comum entre os primeiros cristãos porque exprimia o que eles estavam a viver. Por exemplo, Paulo, para poder ser fiel a Jesus e ganhar a sua vida, teve que perder tudo o que tinha, uma carreira, a estima da sua gente, sofreu perseguições. O mesmo sucedeu a muitos cristãos. Os cristãos eram, por esse facto, perseguidos.

Jesus identifica-se com o missionário e com o discípulo. Para estes é muito importante saber que não estão sós. Se são fiéis à sua missão, terão a certeza que Jesus se identifica com eles e, através de Jesus, o Pai é revelado àqueles a quem o missionário e o discípulo anunciam a Boa Nova. E assim como Jesus revela nele o rosto do Pai, assim o discípulo deve ser espelho onde as pessoas possam captar alguma coisa do amor de Jesus.

O evangelista encerra este «manual» dos enviados com algumas normas sobre o acolhimento. Se, por um lado, são rejeitados e perseguidos, também encontrarão a solidariedade e o acolhimento de muitos. Os vários enviados representam Jesus, o enviado do Pai por excelência: o «profeta», o «justo», o que se fez «pequeno».

A quem pratica o acolhimento solidário e generoso, que vai do simples copo de água à hospitalidade, para com os enviados de Jesus é prometida a recompensa correspondente e, mais ainda, a recompensa final reservada a todos aqueles que praticaram, mesmo de forma anónima, a solidariedade evangélica (Mt 25, 34-40: «Vinde, benditos de meu Pai…»). É este o sentido profundo da declaração solene: «Não perderá a sua recompensa!».