“Gosto de pedir por ser das coisas que mais me custa fazer!”
(Padre Américo)
“Não são as coisas que se sabem dos homens de Deus, que os levam à glória dos altares. O melhor não se sabe. Eles não o disseram. Por isso é que, por muito que os autores digam, são sempre incompletas as Vidas dos Santos.”
(Padre Américo)

Henrique Manuel Pereira*

Muitos sabem que Padre Américo, Américo Monteiro de Aguiar (1887-1956), o fundador da Obra da Rua/Casa do Gaiato, é mais do que a soma dos seus escritos e obra edificada. Não foi apenas um homem bom, nem sequer um homem muito bom, mas um homem de Deus. Há muito santo no coração do povo, porventura o lugar mais nobre e difícil de conquistar, não é exagero afirmar que a Igreja tardou em reconhecê-lo. Iniciado o seu processo de canonização em março de 1986, só a 12 de dezembro de 2019, o Papa Francisco aprovou a publicação do decreto que reconhece as suas “virtudes heroicas”.

Sendo tal etapa decisiva no processo para a beatificação e canonização exigem-se agora outros trâmites canónicos e a comprovação de um milagre para que o agora venerável Padre Américo venha a ser considerado santo.

Neste ponto, e havendo lugar para tantos outros, evocam-se-me dois nomes: Eurico Dias Nogueira, futuro arcebispo de Braga, ao tempo Promotor da Justiça na Diocese de Coimbra e, mais recentemente, D. António Marcelino. O primeiro, com grande antecipação, em julho de 1956, afirmou:

“se ele, depois de quarenta anos de vida agitada e dissipada, conseguiu ser um ‘homem bom’, foi porque era sacerdote e era santo”.

Por seu lado, o bispo de Aveiro, emérito, escreveu:

“A Obra da Rua é, por si mesma, um milagre no tempo e muitos milagres enchem a sua história e acontecem nela numa referência direta ao Padre Américo. Não sei porque tardam a beatificação e a canonização.”

Gigante e modelo da caridade, recoveiro dos pobres, revolucionário pacífico, místico na ação, empreendedor social, pedagogo, renovador de mentalidades, educador da liberdade, mestre da palavra, Padre Américo foi um sinal de fogo na noite, antecipando ideias e atitudes que o II Concílio do Vaticano revelou serem fecundas. Preferindo os mais frágeis, as crianças da rua, quando pela Europa se ouviam ainda os canhões da 2ª Guerra Mundial, fundou a Casa do Gaiato ou Obra da Rua. Transparente e aberta, sem subsídios do Estado, condensa e torna visível o melhor da Igreja e da idiossincrasia do povo português.

Padre Américo não cabe em nenhum espartilho, tornando incapaz qualquer definição ou retrato. Desalinhado com o sistema, em contra corrente, pautado pelo Evangelho, incomodou o poder, o político e o religioso. Portugal tem com ele uma familiaridade filial. Prova eloquente foi o impacto da notícia da sua morte e funeral. Sinal expressivo é a estátua, na Praça da República, Porto, figurando-o com duas crianças, junto à qual, todos os dias, a rondar os 60 anos, se veem flores frescas. Ignora-se as mãos que ali as colocam. Talvez seja caso único no mundo.

Das notas fundamentais da sua vida é um desconcertante sentimento de surpresa. O ponto de exclamação que, desde a sua ordenação, aos 41 anos de idade, passou a apor ao nome (Pe. Américo!) documenta o seu próprio espanto. De resto, segundo o seu juízo autodefinitório, foi um impelido, nunca escolheu nem recebeu preparação para a vida que teve. Toda a sua Obra foi, afinal, “uma rasteira… divina!”.

Na diversidade da sua força criadora, o fundador desta Obra desassossegou consciências e foi um dos maiores revolucionários da história portuguesa contemporânea. Homens de posições políticas extremadas, crentes, agnósticos e ateus encontram nele o rosto do homem contra todo o determinismo, exploração e injustiça. Uma referência para o melhor da sua humanidade.

O frenesim da vida e a exposição pública não o roubavam a si próprio. Dir-se-ia que tudo aos olhos de Padre Américo ecoava Evangelho ou que todos os seus gestos dele faziam eco. Onde os olhos do homem não divisavam qualquer rasto, Padre Américo viu a incandescência duma Assinatura que não mais parou de proclamar. Era como se todo ele fosse apenas a voz para uma mensagem que exigia ser pronunciada.

Portugal inteiro, colónias e Brasil acreditaram nele, na sua palavra, na sua obra, na sua simplicidade sem exibicionismo. Amaram-no. Chamaram-lhe Pai Américo. Como tal choraram a sua morte. Quis ser sepultado de batina e descalço. Dizem os jornais da época que no dia seguinte ao seu velório tinha ainda o rosto quente dos beijos sucessivos com que o povo, em romagem à igreja da Trindade, dele se despediu. Pelos relatos da imprensa e pela comoção oral de quem o presenciou, nunca o Porto terá vivido um funeral tão emotivo e com tão grande multidão.

Nos seus textos, primeiro em O Gaiato, depois em livro, não registou apenas factos ou especulações, mas a alma, a sua e a dos que nela foram tocando. A sua palavra era fulgor de relâmpago para quem o escutava, queimando quem hoje o lê.

SÍNTESE DE UMA VIDA E OBRA EXTRAORDINÁRIAS
Américo Monteiro de Aguiar nasceu em Galegos, Penafiel, a 23 de outubro de 1887 e faleceu no Porto em 16 de julho de 1956, vítima de acidente de viação. Fez a primária na sua terra natal, continuando os estudos no Colégio do Carmo (Penafiel) e depois no Colégio de Santa Quitéria (Felgueiras). Em 1902 mudou-se para o Porto, onde começou a trabalhar numa loja de ferragens. Quatro anos depois foi para Moçambique trabalhar como despachante. Em 1923 inicia a ligação à vida monástica no Convento de Santo António de Vilariño em Tui. Com dificuldades de adaptação, tenta, em 1925, ingressar no Seminário do Porto, mas o bispo D. António Barbosa Leão não acede ao seu pedido. Seria D. Manuel Coelho da Silva, bispo de Coimbra, a acolhê-lo ainda nesse ano. Ordenado em 1929, Pe. Américo assume a Sopa dos Pobres e, em 1940, em Miranda do Corvo, funda a primeira Casa do Gaiato para crianças abandonadas. Começa aí Obra da Rua que se expande por todo o País. Em 1944, sai o primeiro número do jornal O Gaiato. Em 1951 inicia as primeiras casas do Património dos Pobres, sob o lema “Cada freguesia cuide dos seus Pobres”, construindo-se mais de 3500 moradias em Portugal Continental, Madeira, Açores, Angola e Moçambique. Em 1954 toma posse da Quinta da Torre, em Beire (Paredes), onde surge o Calvário, casa para doentes incuráveis e sem apoio familiar. Jaz em campa rasa na capela da Casa do Gaiato de Paço de Sousa. Após a sua morte, a Obra da Rua fundou as casas de Angola (Malange e Benguela, 1963) e Moçambique (Lourenço Marques, 1967), configurando uma expressão objetiva da Cultura Lusófona.

O maior património da Obra da Rua são os milhares de crianças a quem ela restituiu a dignidade e ajudou a serem homens.

Ninguém contesta que a história da Igreja em Portugal – sobretudo no âmbito da ação social e do pensamento pedagógico (não por acaso, em 2009, a Fundação Calouste Gulbenkian atribuiu-lhe o Prémio Educação) – pode ser feita à margem da Obra da Rua. D. António Marcelino viu nela “das páginas mais belas do Evangelho vivo e da história da Igreja”.

A “escandalosa” autossuficiência da Obra da Rua/Casa do Gaiato contrasta com a falta de pessoas que a ela se entreguem.

 

SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS:

Todos os livros de Padre Américo (https://www.obradarua.pt/editorial-da-obra-da-rua/). Depois, cingindo-nos aos mais recentes trabalhos editados em brochura – e sem esquecer outros mais antigos, nomeadamente os de Ernesto Candeias Martins – merecem relevo:
LEAL, Luís, Padre Américo Monteiro de Aguiar e a renovação do clero português na primeira metade do séc. XX. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa-Centro de História Religiosa, 2016.
LEAL, Luís [Org.], Ecos de Pensamentos de Padre Américo. Paço de Sousa: Editorial Casa do Gaiato, 2019.
MARCELINO, António Baltasar, Padre Américo Precursor do II Concílio do Vaticano. Coimbra: Tenacitas-Alforria, 2016.
MENDES, Manuel, Padre Américo: Itinerário vocacional. Paço de Sousa: Editorial Casa do Gaiato, 2014.
PEREIRA, Henrique Manuel, Raízes do Tempo: À Volta de Padre Américo. Coimbra: Tenacitas-Alforria, 2015.
PEREIRA, Henrique Manuel [Org.], Padre Américo: Frei Junípero no Lume Novo. Coimbra: Tenacitas-Alforria, 2015.
PEREIRA, Henrique Manuel, Padre Américo: Notas sobre o Artista da Palavra. Das mortes e da Vida. Coimbra: Tenacitas, 2016.
PEREIRA, Henrique Manuel, Património (Cultural) dos Pobres: Monumentos de Piedade na Diocese de Bragança-Miranda. Porto: Alforria, 2017.
SANTOS, José da Cruz (coord.), É tempo de falar do Padre Américo. Porto: Modo de Ler, 2016.

 

*Universidade Católica do Porto – Escola das Artes. CITAR

Imagem:  Padre Américo, escultura de Henrique Moreira (1959/61 – Bronze) na Praça da República, Porto