Uma Questão de Humildade

Modos de interacção entre ciência e religião

Uma Questão de Humildade

Miguel Oliveira Panão

Um dos embates quando procurava dialogar com os não-crentes era ficar a saber como é forte a sua convicção de saberem bem quem é o Deus que rejeitam. Para mim foi um embate porque se me perguntassem quem Deus é, a resposta mais rigorosa que poderia dar seria “não sei”.

Por outro lado, “não sei” é a grande motivação para um cientista desenvolver ciência. Caso contrário, se sabe, não investiga. Ou seja, “não saber” não é negativo, mas faz antes parte de uma qualidade importante no diálogo entre ciência e fé: a humildade.

Pelo facto de em ciência todo o conhecimento estar sujeito à apreciação da comunidade científica através da revisão por pares, reprodução dos mesmos resultados por outrem, etc., a humildade é – por assim dizer – forçada, de modo a garantir a veracidade na descrição que fazemos da realidade. Porém, não saber não elimina o desejo de saber. O contrário, isto é, aqueles que vivem apenas daquilo que sabem, correm o risco de esmorecer esse desejo.

E quanto à fé?

Não saber quem Deus é mantém a nossa mente aberta ao que Ele nos quiser revelar sobre Si mesmo.

Não saber quem Deus é protege-nos dos falsos absolutos.

Não saber quem Deus é mantém-nos na novidade da procura, no deslumbramento da surpresa, na alegria profunda do aprofundamento.

Não saber quem Deus é, acaba por tornar-se, como em ciência, numa questão de humildade. Pois, não podemos esperar saber tudo com tão pouco tempo existência face à história do Universo.

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