Um padre detetive

Um livro que diverte, ao correr do pensamento, e faz pensar, enquanto diverte!

Luís Manuel Pereira da Silva

Os melhores contos do Padre Brown

Gilbert Keith Chesterton

Assírio e Alvim | 2010 | 233 páginas

Chesterton é um génio. E, como todos os génios, tem o condão de poder ser lido de muitos modos, tantos quantos os que dele se abeirarem.

A genialidade de Chesterton evidencia-se, não só na multiplicidade de facetas com que deixou o seu nome na história (como romancista, contista, ensaísta, polemista, biografista, etc.), mas também na capacidade ímpar de dizer o que estava à vista de todos, mas que uma qualquer cegueira teimava em ocultar. Quem lê Chesterton não precisa de que se lhe diga quem é o autor. A escrita é inconfundível. Os paradoxos e surpresas são únicos. Eis Chesterton no seu melhor, aqui nas páginas de Ortodoxia: «Ninguém considera o meu caso mais ridículo do que eu próprio; leitor algum poderá acusar-me de tentar fazer pouco dele: eu sou a pessoa de quem esta história faz pouco, e rebelde algum me expulsará desse trono. Não tenho pejo em confessar que tive todas as ambições idiotas do século XIX.» ou «o que produz a insanidade é precisamente a razão. Não são os poetas que enlouquecem; são os jogadores de xadrez. […] O poeta pretende apenas meter a cabeça nos céus. É o lógico que quer meter os céus na cabeça. E é a cabeça do lógico que rebenta.» ou, ainda, «as pessoas que começam a lutar contra a Igreja em nome da liberdade e da humanidade acabam por combater a liberdade e a humanidade para poderem lutar contra a Igreja».

Neste livro, que colige uma série de contos policiais em que o protagonista, Padre Brown, desempenha a função de um detetive insuspeito, esses paradoxos emergem quando menos se espera. Assim, no meio de uma barafunda em que o crime em investigação está mais enredado do que a própria realidade faria suspeitar, a narrativa leva-nos pela mão em direção a profundas reflexões sobre a condição humana ou sobre matérias que o «Sherlock holmes católico» entenda ser oportuno. Propositadamente, recuperamos essa outra figura da narrativa policial universal. Brown não teve o mesmo reconhecimento que o seu congénere britânico, que saíra da pena de Conan Doyle, mas só por teimosia da história, pois o mérito não é menor. Talvez, até, a capacidade com que o Pe. Brown consegue concluir as suas ‘investigações’, através da análise dos traços de personalidade, pudesse ter-lhe valido um lugar maior na história da literatura. Com Brown, não apenas nos deliciamos a acompanhar a descoberta de quem será o autor de mais um qualquer «crime» como, inclusive, nos vemos enredados pela descoberta mais fundamental de que todos poderíamos ter sido o autor daquele crime, pois «nenhum homem é, na verdade, muito bom até conhecer o mal que há em si, ou que poderá haver», uma vez que os criminosos de quem Pe. Brown se abeira são, afinal, tipologias da condição humana.

Chesterton confere ao Padre Brown a condição de um agente da sua reflexão sobre a existência humana, marcada pela sua visão cristã de que somos todos marcados pelo limite, pelo pecado original que chancela toda a nossa ação. «Podemos julgar que um crime é horrível porque jamais o poderíamos ter cometido. Eu julgo-o horrível por saber que poderia tê-lo cometido.».

Chesterton é um tardio convertido ao Catolicismo (nascido em 1874, converte-se em 1922, com 48 anos, morrendo em 1936) que assume a defesa da identidade católica como uma causa pessoal, na convicção profunda de que «eu sei que as pessoas acusam a Igreja de diminuir a razão, mas o que sucede é o inverso. Na Terra, somente a Igreja atribui verdadeira supremacia à razão. Na Terra, somente a Igreja afirma que o próprio Deus está sujeito à razão.» Padre Brown dixit! Chesterton placet!

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