Terceiro passo: visão

Modos de interação entre ciência e religião

Terceiro passo: visão

Miguel Oliveira Panão

 

“Da fé espero não só respostas, mas também a coragem de persistir no espaço aberto da pergunta, na nuvem escura do mistério.” (Tomáš Halík e Anselm Grün, “O Abandono de Deus”, Paulinas, 2016)

Saltarias para o vazio? Sentir-te-ias acompanhado num lugar frio e escuro? E se além de frio e escuro, não houvesse qualquer som? Ou qualquer sentir, incluindo o palpitar do próprio coração? A dúvida pode ser um buraco negro, frio, sem qualquer rasgo de luz ou som.

Se caminhar na descoberta da Realidade-que-tudo-determina implica mergulhar fundo, evitando tudo o que é superficial; e se o lugar da maior profundidade está n’Ele Abandonado que grita o paradoxo; como mergulhar fundo no Abandonado?

A resposta está na fé? Talvez. As respostas são importantes no caminho porque nos alimentam. Porém, como alimento é insuficiente para nos manter no mesmo lugar por termos chegado ao fim do caminho. Não. As respostas da fé servem apenas de alimento para continuar a caminhar.

Da fé espero a coragem de manter-me no caminho que é Ele-Abandonado. A pergunta que faz – “porque me abandonaste?” – abriu um espaço inesperado e revelou como mergulhar fundo n’Ele.

Por vezes estamos tão próximos daquilo que experimentamos que não nos apercebemos realmente onde estamos e o que estamos a viver. O vazio será vazio? O que estará por detrás da nuvem escura do mistério? Será a Verdade?

De certo modo, mergulhar fundo n’Ele implica procurar a visão do todo. Essa levar-nos-á a descobrir que Ele-Vazio é simplesmente uma pupila. Uma lente através da qual tudo se inverte e o que é escuro torna-se luminoso. Aprendi esta visão de Chiara Lubich há algum tempo e, desde então, intriga-me.

Contemplando o vazio em Jesus Abandonado na cruz sou convidado a dar um terceiro passo: reconhecer n’Ele uma pupila que inverte de maneira inesperada o modo como vejo o mundo.

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