Seminário de Coimbra: Aberto ao público o Espaço Museológico Cónego Póvoa dos Reis

Padre natural de Eirol, Póvoa dos Reis (1907-1991) foi um sacerdote amigo dos jovens (a vários pagou estudos) e notável cientista. No Seminário de Coimbra, três salas mostram o seu espólio de cientista.

Cardoso Ferreira (Textos)

Natural de Eirol, mas ligado à Diocese de Coimbra
Manuel Póvoa dos Reis nasceu em Eirol, no dia 20 de outubro de 1907, e morreu em Coimbra, no dia 4 de junho de 1991. Está sepultado em Eirol. Estudou no Seminário de Coimbra, sendo ordenado em 1936, altura em que Aveiro ainda pertencia à Diocese de Coimbra. Depois da restauração da Diocese de Aveiro, em 1938, continuou ligado a Coimbra. Apesar de padre, Póvoa dos Reis dedicou parte da sua vida à investigação botânica, pelo que em 1943 foi nomeado membro da Sociedade Broteriana. No ano de 1956, por alvará reitoral, foi nomeado assistente extraordinário da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. No dia de 4 de maio de 1957 foi nomeado cónego da Sé Catedral de Coimbra. No ano de 1979, Póvoa dos Reis foi nomeado membro da Academia de Ciências de Nova Iorque. Como professor, Póvoa dos Reis lecionou Educação Moral e Religiosa Católica no Liceu D. João III (agora José Falcão) e na Escola de Enfermagem Ângelo da Fonseca, e Ciências (física, botânica, mineralogia, entre outras) no Seminário de Coimbra, e assistente extraordinário para a Investigação no Instituto Botânico de Coimbra. Como lembrou o professor Jorge Paiva, apesar de Póvoa dos Reis ser uma referência nacional do século XX, talvez devido à sua humildade, é uma pessoa pouco conhecida pelo público, como se prova pelo facto de, até agora, só ter sido publicado um único ensaio biográfico de Póvoa dos Reis, obra da autoria do antigo bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade, editado em 2001. Durante alguns anos, o extinto ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro) promoveu um prémio de cultura com o nome do padre-cientista.

No dia em que se assinalou o 271.º aniversário do lançamento da primeira pedra do Seminário Maior de Coimbra, 16 de julho, o Espaço Museológico Cónego Póvoa dos Reis, constituído pela “Sala dos Bichos” / Museu de História Natural (Zoologia, Botânica e Mineralogia) e pelos laboratórios de Física e de Química, fundados pelo padre Póvoa dos Reis, foi oficial- mente aberto ao público e passou a integrar o roteiro de visitas daquele histórico edifício.

A cerimónia de inauguração do Espaço Museológico Cónego Póvoa dos Reis incluiu uma conferência que teve como oradores convida- dos os botânicos Jorge Paiva e Fátima Sales, e contou com os testemunhos de inúmeras pessoas – desde padres a investigadores universitários – que colaboraram com o padre Póvoa dos Reis ou que participaram nos “campos de férias” por ele organizados em Eirol, Aveiro, sua terra natal.

O reitor do seminário, padre Nuno Santos, enalteceu a figura do cónego Póvoa dos Reis, nomeadamente a sua vertente de cientista e de docente do seminário, realçando a importância histórica e pedagógica do espaço museológico agora aberto ao público, facto que culmina um minucioso trabalho de inventariação   e   musealização  do espólio que o padre Póvoa dos Reis instalou naquelas três salas, trabalho que tem a colaboração do investigador aveirense Paulo Morgado.

Botânico de renome mundial

Depois de recordar que também ele foi aluno de Póvoa dos Reis, Jorge Paiva, professor da Universidade de Coimbra, na palesta que proferiu, sob o tem “Póvoa dos Reis e as algas vermelhas”, recordou algumas das investigações efetuadas por este botânico aveirense, que, apesar de autodidata, foi investigador da Universidade de Coimbra e um dos maiores especialistas mundiais no estudo de algas vermelhas. Póvoa dos Reis descobriu dezenas de espécies de algas vermelhas, até então desconhecidas a nível mundial, tendo publicado as respetivas descrições em revistas da especialidade, para além de ter criado um herbário especializado nesse tipo de plantas, o qual se encontra bem preservado e disponível para consulta de investigadores.

Sala dos Bichos

Também Fátima Sales, na palestra que proferiu, intitulada “A coleção de História Natural do Seminário – herança e potencialidades”, prestou homenagem a Póvoa dos Reis, não só pela minúcia do trabalho que desenvolveu na descoberta, no estudo e na divulgação das algas vermelhas, mas também por incentivar os seus alunos a terem um conhecimento mais abrangente sobre as três grandes áreas da História Natural – Zoologia, Botânica e Mineralogia – as quais estão bem representadas na “Sala dos Bichos”, para além do seu interesse pela Física e pela Química, o que lhe permitiu criar substâncias capazes de conservar plantas de uma forma perfeita.

Alguns dos presentes, nomeadamente padres e também atuais professores universitários, recordaram as suas participações em algumas campanhas no terreno realizadas pelo padre Póvoa dos Reis, não só nos rios, de águas límpidas e correntes, da Beira Alta, em busca das algas vermelhas, mas também nos canais e terras ribeirinhas da Ria de Aveiro, onde efetuaram estudos diversos sobre a fauna e a flora local.

Humanista e benemérito social

Alguns dos presentes deram tes- temunho das suas vivências nos “campos de férias” que o padre Póvoa dos Reis promovia em Eirol nas décadas de 1950 e 1960, os quais tinham por base o IDESO (Instituto Dom Ernesto Sena de Oliveira), por ele fundado na sua terra natal.

Capa do ensaio biográfico sobre o Pe. Póvoa dos Reis. Livro da autoria de D. Manuel de Almeida Trindade.

Para além das campanhas de estudo científico, os participantes nesses “campos de férias”, oriundos de universidades e instituições de diversos países, realizavam trabalhos de âmbito social, como construção de casas para pessoas carenciadas de Eirol, bem como participavam na manutenção das instalações e nas atividades agrícolas (e não só) que permitiam a autossuficiência alimentar e económica do IDESO, entre as quais, a instalação de uma unidade de produção de cogumelos.

Como capelão da Universidade de Coimbra e também como dirigente da Juventude Estudantil Católica (JEC), o padre Póvoa dos Reis desempenhou um relevante trabalho junto dos jovens, conforme os testemunhos prestados por alguns dos colaboradores do padre Póvoa dos Reis, o qual sempre recusou o título de cónego.

Segundo um desses testemunhos, o padre Póvoa dos Reis apoiou financeiramente, do seu próprio bolso, os estudos universitários de muitos jovens,  nunca  esperando qualquer recompensa em troca.

Várias testemunhas enalteceram o facto do padre Póvoa dos Reis ter investido os seus bens pessoais, incluindo os herdados, em prol dos outros, tanto na aquisição de equipamentos científicos que disponibilizou para a realização de estudos na Universidade de Coimbra e no Seminário, como na cedência das suas propriedades de Eirol, que deixou em testamento à Diocese de Coimbra.