Segundo passo: onde

Modos de interação entre ciência e religião

Segundo passo: onde

Miguel Oliveira Panão

“(…) cheguei, através do meu duvidar à fé cristã.” (Tomáš Halík e Anselm Grün, “O Abandono de Deus”, Paulinas, 2016)

Por que razão se pensa mais em certezas, em tudo o que diz respeito à fé, do que em incertezas? Mergulhar fundo acontece como um passo na confiança de permanecermos abertos à novidade que a Vontade de Deus manifesta em cada momento presente.

Mas se vivemos de certezas, como podemos acolher o que Deus nos apresenta de novo? Na incerteza está um espaço de possibilidades infinitas. Na contingência o humus da criação que manifesta o núcleo central da acção de Deus: amor.

Porém, dada a limitação inerente ao ser do próprio mundo, nem sempre somos capazes de ver o traço de amor em fenómenos contingentes permeados de dor, sofrimento e morte. É natural. O sobrenatural é estar abertos a uma visão do Todo que não se limita aos limites. E que, por isso, diante da pouca ou muita experiência de fé, intriga-nos.

 ”Porquê?” A dúvida mais fundamental da qual pode brotar tanto fundamento. A dúvida-mor que suscita a procura insaciável de um sentido e significado para o feio neste mundo. E o mais curioso é ser essa fealdade o vértice da harmonia misteriosa entre dor e amor.

”Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mc 15, 34)

A Dúvida das Dúvidas feita por Aquele que no momento de maior sofrimento se fez Dúvida. A Dúvida de quem dá tudo, quando deu já tudo e nada mais tem para dar. Por isso, a dúvida que exprime o paradoxo d’Aquele que num momento da história, cria uma nova história, “sendo” e “não-sendo” ao mesmo tempo.

Diante d’Ele, abandonado na Cruz, percebemos onde é o lugar em que devemos mergulhar fundo e, assim, dar o segundo passo no caminho da descoberta da Realidade-que-tudo-determina.

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