Rosto de misericórdia: IRMÃ MARIA ARMANDA MIRANDA RAMOS

ROSTO DE MISERICÓRDIA

IRMÃ MARIA ARMANDA MIRANDA RAMOS

 

Pe. Georgino Rocha

A Irmã Maria Armanda Miranda Ramos, Irmã Armanda no presente registo de memória agradecida, nasce a 20 de Maio de 1928, na freguesia de Airó, Barcelos, e vem a falecer a 4 de Outubro de 2016, em Coimbra. Vive um tempo longo, cheio de acontecimentos notáveis, quer na sociedade, quer na Igreja, tanto no âmbito da família como da escola e nos institutos de vida religiosa. A nível civil e político, são de destacar a progressiva implantação do Estado Novo, o movimento do 25 de Abril e consequente transição democrática; e na esfera eclesial, a reorganização eclesiástica nas dioceses e seminários e outros espaços da instituição; a família e a escola sofrem o influxo das políticas do poder que tenta “domesticá-las”; os institutos religiosos vivem este longo período com as luzes e as sombras do seu carisma configurado na cultura em sintonia com o ritmo da Igreja, em especial após o concílio Vaticano II.

A Irmã Armanda foi testemunha deste evoluir histórico e interveniente responsável em algumas áreas específicas, como referem testemunhos, agora rememorados, designadamente como religiosa do instituto do Sagrado Coração de Maria, como professora dó ensino básico e como animadora de jovens, sobretudo na pastoral diocesana de Aveiro.

A opção da revista “Igreja Aveirense” por lhe dedicar este  espaço é fruto da ocorrência da realização do Sínodo episcopal sobre os “Jovens, a fé e o discernimento”, temas que preenchem a vida da Irmã Armanda e configuram a sua paixão apostólica. A partir de Deus, como teria vivido as fases da realização sinodal!

Criança muito activa e prestável

A Irmã Armanda faz parte de uma família numerosa minhota, tem seis irmãos e recebe no abençoado ambiente da casa  valores morais e espirituais que sempre cultivou e valorizou com a sua consagração no Instituto da Sagrado Coração de Maria em 1951, refere a Irmã Lúcia Brandão no testemunho que nos mandou.

Como boa minhota, tem um ar jovial, irradia confiança, acredita nas possibilidades do presente, não mede generosidades nem sonhos de bem-fazer. Como criança, revelou já muita sensibilidade às companheiras  desfavorecidas a quem procurava ajudar com o apoio da sua Mãe. Colaborou com o Pároco sobretudo na Catequese e foi membro ativo da Ação Católica na  sua Juventude. Na vida religiosa, foi sempre dedicada e interessada  particularmente nas suas funções de professora e catequista e Movimentos de Jovens.

Religiosa do Instituto do Sagrado Coração de Maria

E o testemunho da Irmã Lúcia prossegue: Faz o noviciado em França na Casa Mãe do Instituto. No seu percurso profissional e apostólico passou por várias localidades, ensinou em colégios, empenhou-se na Pastoral Paroquial  e particularmente  na Catequese  em meios  rurais,  no Algarve, designadamente em Monchique. “Ouvimos muitas vezes a “nossa” Irmã falar dos tempos que passou lá para os lados de Monchique, “perdida” nos caminhos da serra… e os olhos brilhavam de satisfação pela Missão. E como nos rimos ao ouvi-la contar em como nem o hábito que usava nesses tempos a impedia de jogar futebol com as alunas do colégio”, refere Ondina Matos. Nos últimos anos da sua vida entregou-se de alma e coração à Pastoral Juvenil, no Secretariado Diocesano de Aveiro “a menina dos seus olhos”.

Na comunidade, era uma presença feliz entre nós, sempre com um grande sentido de gratidão por tudo  quanto de bom  a vida lhe oferecera, sensível ao sofrimento da dor humana, e sempre disponível. Era muito fiel e comprometida com os desafios e propostas da Congregação e  com grande sentido comunitário.  Deixou-nos a marca disso mesmo no último dia que passou com a  sua comunidade em Aveiro, afirma a Irmã Lúcia ao concluir a leitura condensada no seu testemunho familiar. E acrescenta: Enquanto as suas forças lho permitiram foi uma voluntária dedicada e presente no Hospital de Aveiro.

 

Rosto da Pastoral Juvenil

Após a sua chegada a Aveiro, a pedido de D. António Marcelino, colabora no Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil (SDPJ) constituído por uma equipa coordenada pelo Dr. Oliveira de Sousa (Sousa). Embora participasse nas principais actividades, era na sede do Centro de Pastoral que desenvolvia a sua missão. Muito humana ao acolher e discreta ao falar, muito atenta à leitura dos rostos e compreensiva com as mensagens emocionais aparentes, compreensiva e exigente, a Irmã Armanda faz progressivamente um caminhada de proximidade e amizade, de formação humana e cristã. D. António Francisco dos Santos manteve esta sua ligação aos jovens na equipa coordenada pelo Pe. Rui Barnabé e posteriormente por mim, informa Ondina Matos.

A Ondina, vários anos directora do SDPJ, que a conheceu bem, garante que foi um “testemunho Vivo de Deus, amando os Jovens e conseguindo, na Diocese de Aveiro, unir diferentes gerações. Foi Família das nossas famílias… confidente de todas as horas, exigente, atenta, com uma energia inesgotável. A sua presença era sempre desafiante e reconfortante, o pilar que sabíamos estar ali para ouvir os nossos desabafos dos mais íntimos aos mais stressados.

Caminhada Sinodal

O II Sínodo da nossa Diocese, o da Renovação, dedica uma atenção especial aos Jovens e recomenda um trabalho específico sobre a sua situação em geral e na Igreja e sociedade em especial. A recomendação transforma-se em dinamismo crescente e vem a corporizar-se em Caminhada Sinodal anunciada publicamente a 13 de Abril de 2003, Dia Mundial da Juventude. Vem a concluir-se a 05 de Outubro de 2004, data tradicional da abertura do novo Ano Pastoral, com a realização do quarto plenário sinodal. “A igreja de Aveiro sente-se comprometida com os jovens e a eles quer prestar o devido cuidado pastoral, atendendo à realidade das suas vidas, opções e motivações mais profundas”, garante D. António Marcelino ao finalizar os trabalhos.

Apesar da preocupação com os jovens vir de “longe” e haver iniciativas notáveis em curso, a notícia parece ter colhido de surpresa alguns sectores pastorais, mesmo paróquias. O SDPJ encarregado de ser “órgão propulsor” do novo empreendimento reorganiza-se nas funções, amplia o número de colaboradores, lança núcleos de reflexão e animação, onde ainda não existiam grupos paroquiais… E a capacidade de quem assume ser animador de animadores, sobretudo na sede de acolhimento e acompanhamento, sente o desafio da missão a exigir um suplemento inesgotável de energias. Como a “nossa” Irmã Armanda.

Gosto pelas coisas simples

Ela era a mulher que gostava de coisas tão simples como um lanche entre amigos, um brinde com espumante Murganheira, de caminhadas diárias e bem longas, de participar sempre nas prendas de aniversário, de casamento, ou na troca de prendas no Natal. Mas ela era também a mulher que não tinha medo das palavras, de dizer o que pensava, de defender os seus pontos de vista, de amar incondicionalmente a sua própria família…

É tão bom recordar a alegria do TANTO que vivemos com a “nossa” Irmã Maria Armanda, declara em relação afectiva a Ondina que conclui: E para ela, sempre, aquele Abraço Eterno!

Auto-retrato espiritual

“Estou nas mãos de Deus, seja feita a Sua vontade. Vivi 88 anos, uma longa vida!” são palavras da Ir.ª Mª Armanda, ao tomar  conhecimento  de que  o seu tempo na Terra estava a chegar ao fim.

Esquecida do seu tempo e fragilidade, a  Ir.ª Maria Armanda foi a “Jovem  octogenária”  no meio dos  Jovens que souberam mante-la  viva  e feliz  até ao fim da sua vida.  Dizem bem com ela as palavras  do Salmista:  

“Plantados  na casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Até na velhice darão frutos, conservarão a sua seiva e o seu frescor, para anunciar quão justo é o Senhor”.

 “O pouco bem que fiz (…) se fiz um pouco de bem e se ganhei almas para Deus, fi-lo através da delicadeza, bondade, paciência e uma perseverança constante sem nunca me permitir que os obstáculos ou dificuldades  me desencorajassem. Nada é tão poderoso como a docilidade, quando tem a sua raiz no amor de Deus” Jean Gailhac ,Fundador do IRSCM. (assim foi o espírito com que a Ir. Maria Armanda viveu a sua entrega,  ao longo da vida)

Serviço reconhecido, dedicação confirmada

O registo memória da Irmã Armanda inclui outros testemunhos significativos, ainda que breves. São ressonâncias de muitos outros que se fizeram ouvir por ocasião do seu passamento para a vida eterna. Ressonâncias que se repercutem em muitos corações e intensificam com a mensagem apelo do Sínodo eclesial sobre “Os Jovens, a fé e o discernimento”.

“Desejo agradecer todo o bem que Deus fez por intermédio da Ir. M. Armanda, sobretudo aos jovens, e convosco, irmãs do Sagrado Coração de Maria, peço o dom de novas vocações. Comungo da vossa dor e da alegria da ressurreição e da vida nova da Ir. M. Armanda.” D. António Moiteiro, bispo de Aveiro

“Todos devemos muito à Irmã Maria Armanda pela amizade, pelo testemunho de vida, pelo exemplo que nos deu, pelo trabalho que realizou, pelo amor à Igreja que nos contagiava e pela alegria de viver a sua consagração religiosa e por tantos dons que de Deus recebeu e por nós repartiu e multiplicou. (…) Obrigado, Irmã Maria Armanda! Junto de Deus, continue e a percorrer os nossos caminhos, continue a trabalhar, a sorrir e a abençoar-nos!” D. António Francisco, bispo do Porto

“Grande Mulher. Destemida apóstola. Corajosa lutadora, sobretudo, quando a conheci, nas causas jovens. Que o amor que tão generosamente repartiu, agora a acolha no seio de Deus. E a sua solicitude vele por nós!” Pe Georgino Rocha, pró-Vigário Geral