Que laicidade(s)?

Que laicidade(s)?

Luís Manuel Pereira da Silva

O cubo e a catedral: a Europa e a América e a política sem Deus.

George Weigel

Alêtheia | 2006 | 151 páginas

 

O título do livro explica o seu conteúdo e desvela a sua tese. George Weigel, um reconhecido autor norte-americano, parte de um evento histórico conhecido. Na década de 80, quando se avizinhavam as comemorações dos 200 anos da revolução francesa, o então presidente Mitterrand sustentou que era inaceitável que a capital da França, símbolo da laicidade, muitas vezes matizada com traços de laicismo, pudesse ter como mais alto edifício a grande Catedral de Notre Dame. Para fazer face a tal «incoerência, propôs a construção de um grande Cubo, na zona de La Défense, capaz de ultrapassar a dimensão e grandiosidade da catedral. A este facto se deve o título da obra que aqui se apresenta. A tese, por seu turno, repercute o pensamento de Alexis Tocqueville que, já no século XIX, se dava conta de que a forma de viver a laicidade era distinta dos dois lados do Atlântico. Os franceses, muito marcados pela visão jacobina que exerceu forte influência na definição do rumo da revolução francesa, sempre tenderam a entender a laicidade como uma atitude de indiferença e, em alguns casos, oposição do Estado em relação à religião e à Igreja. Nunca foi esse o entendimento do outro lado do Atlântico. É bom, aliás, perceber que não poderia ser de outro modo, dado que a América se fez por força da determinação dos homens que, no século XVII, partiram da Irlanda e com eles levaram toda a sua cultura e visão religiosa da vida. A laicidade americana, como bem já vira o autor francês de «Da democracia na América», consistia na defesa da independência entre a religião e o Estado, não no registo de indiferença, mas de são convívio e mesmo interação. A laicidade americana é a que defende a liberdade religiosa que se manifesta na diversidade e no respeito por essa mesma diversidade. Uma laicidade que não anula as opções religiosas dos cidadãos mas que as integra na própria gestão da coisa pública. De tal modo que o não silenciamento das opções religiosas permitiu, como analisa G. Weigel, neste livro, que a atitude perante a vida e perante a fecundidade da vida não se perdesse, o que veio a acontecer no contexto europeu. Weigel atribui ao silenciamento de Deus, no contexto europeu, uma das mais decisivas causas para a diminuição da natalidade, pois a vida e a vida gerada deixou de ser entendida como dom e bem para passar a ser percebida num registo de liberdade pressuposta como autodeterminação absoluta.

Este é um livro que vai aos alicerces da modernidade e que interpela a perceber de que liberdade deverá falar-se quando se defende que a modernidade é a afirmação da autonomia humana. De que autonomia importa falar? De uma autonomia que redundará no suicídio da humanidade? Ou de uma autonomia que pressupõe que o homem não existe sem os outros e sem o Outro? Que laicidade deverá defender-se: a que silencia a voz da espiritualidade humana ou a que a integra no âmbito da coisa pública como catalisador da ação humana, individual e coletiva?

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