Como podem relacionar-se o Cristianismo e o Evolucionismo?

Condições para uma relação saudável entre ciência e religião

Luís Manuel Pereira da Silva

Cristianismo e evolucionismo: em 101 perguntas e respostas

John Haught

Gradiva | 2009 | 239 páginas

Muitos continuam a acreditar na tese de que o Cristianismo, em geral, e a Igreja Católica, em particular, estão ou estiveram de costas voltadas para a ciência. A força de uma história recontada até à exaustão, reinvocando o terrível episódio de Galileu ou a suposta discussão com Darwin (tal ocorreu no contexto anglicano), favoreceu o mito de um antagonismo que nunca existiu. Este livro serve a causa da reconciliação necessária após um suposto conflito que nunca deveria ter sido defendido nem nunca deveria ter-se invocado, em nome da religião. Na verdade, de um modo claro, simples, escorreito, Haught, um teólogo reconhecido pela sua mestria na capacidade de evidenciar que, afinal, como afirma João Paulo II, na encíclica «Fé e Razão», ciência e fé são as duas asas sem as quais não se pode voar, consegue tornar simples o que para muitos continua difícil. E a sua tese é clara. Por um lado, recupera o pressuposto de que o ser humano tem mais interrogações do que aquelas a que a ciência tem capacidade de responder: a ciência respondem às que respeitam ao âmbito dos processos, ao âmbito do «como é que as coisas ocorrem», mas escapam-lhe as que são do âmbito do sentido da existência e das coisas; por outro, vislumbra na força do pensamento de Teilhard de Chardin a capacidade de demonstrar que o que teologia sempre dissera – que tudo se haveria de consumar em Jesus Cristo como Omega da Criação – se pode compaginar com uma leitura evolucionista da existência, pois a força que se vislumbra na natureza denuncia uma potencialidade de ‘menos para mais’ que permite encontrar ecos no que a linguagem teológica tantas vezes refere: a tensão entre o já e o ainda não. Tal não lhe retira, porém, a legitimidade para criticar uma certa leitura da evolução que pretende tudo reduzir à matéria, esquecendo que a matéria, por si, não conseguiria fazer emergir o pensamento. E, também, para reconhecer que muito do suposto conflito entre ciência e fé cristã, em matérias que dizem respeito às origens, se criou a partir de uma errada hermenêutica do texto bíblico, que Haught recupera, de forma clara.

Este é um livro necessário para que, nestes tempos de escombros, em que muitos parecem querer explorar uma suposta virtualidade artística daqueles, se recomecem a edificar as boas relações entre ciência e fé que episódios como o de Galileu não podem nem devem apagar ou ofuscar. Como reconhecia A. Einstein, a «ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega».

Haught, com uma linguagem simples, objetiva e pedagógica, assegura as condições para um encontro que sempre teve no cristianismo, como religião protetora da razão e da racionalidade, o seu arauto e defensor.

 

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