Pode pensar-se o Ocidente sem o contributo do Catolicismo?

Da relação entre cultura e Catolicismo: um justo reconhecimento…

Luís Manuel Pereira da Silva

O que a civilização ocidental deve à Igreja Católica

Thomas E. Woods Jr.

Alêtheia | 2009 | 273 páginas

 

Há tempos, ao apresentar este livro a um grupo de amigos, ocorreu-me que não seria de estranhar se algum livreiro o inserisse na secção de finanças, ainda que ele nada tenha a ver com economia ou matérias fiscais. Na verdade, do que aqui se trata é de uma dívida. Uma dívida de gratidão para com a Igreja Católica. Uma dívida nunca saldada e que a Igreja nunca reivindicou, mas que lhe é devida. Na realidade, este livro o que faz é desvendar, de forma descritiva e de modo factual, os inúmeros contributos da Igreja Católica para a construção da civilização ocidental. O título português é «o que a civilização ocidental deve à Igreja Católica» perdendo a força do original que é «como a Igreja Católica fez a civilização ocidental». Com efeito, o contributo católico para a construção da nossa civilização não se esgota num conjunto de factos que poderemos enumerar, pois atinge o código genético da nossa cultura, entendida aqui como todo o quadro mental que condiciona cada pequeno rumo artístico, o modo de pensar o mundo, o modo, aliás, de ser mundo. Não se pense, contudo, que este é um livro de apologia como tantos outros, edificado sobre lamentos e desejos inconfessados de restauração da influência cristã na sociedade. Antes, é um livro de justiça. O que faz é evidenciar que, sem a Igreja Católica, a civilização ocidental simplesmente não era. Muitos pensarão que tal se deverá ao seu contributo nas áreas sempre referidas, habitualmente: a arte, as catedrais, os museus, a literatura e as humanidades, em geral, como se tal já não fosse bastante. Contudo, o autor demonstra que o contributo do cristianismo para a criação das condições de liberdade no espaço académico (como o vivido nas universidades que nasceram sob a égide da Igreja), para a edificação do direito internacional, para a criação da ciência que, afinal, surge no Ocidente, e tantos outros âmbitos nevrálgicos daquilo que definimos como a modernidade têm o seu código genético nas condições que o Cristianismo permitiu assegurar para que eles emergissem. Esta enunciação das condições fundantes da civilização ocidental é feita em permanente articulação com uma escrita enxuta, que vai ilustrando o que vai sendo dito com factos que permitem confirmar a verdade do referido. É assim que somos levados a reconhecer que 35 crateras da Luz têm nomes de cientistas e matemáticos jesuítas, ou que a primeira pessoa a medir o ritmo de aceleração de um corpo em queda livre foi um sacerdote, o Pe. Giambattista Riccioli, ou, ainda, que o pai da egiptologia foi o padre Athanasius Kircher, ou que o pai de Geologia é o padre Nicholas Steno, o pai do direito internacional é Francisco Vitória, sacerdote espanhol do século XVI, defensor dos nativos do Novo Mundo, face à colonização castelhana.

Um livro que, como ocorreu na diocese de Aveiro, por ocasião da primeira semana da cultura e identidade cristãs, promovida pelo ISCRA, deveria ser ocasião para redescobrir as efetivas raízes cristãs da cultura ocidental e para repor a devida justiça, reconhecendo o lugar ímpar do Cristianismo na construção de uma civilização que, não só superou os riscos que os movimentos bárbaros tinham colocado, mas que também transcendeu as já significativas conquistas que as civilizações grega e romana tinham protagonizado, conferindo a esta a humanidade que lhes faltava. A quem se deverá, aliás, reconhecer ter-se cunhado a ideia de dignidade humana aplicável a todos sem distinção senão ao Cristianismo?

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