Uma cidade pode ter biografia?

Jerusalém, uma cidade viva, aqui biografada…

Luís Manuel Pereira da Silva

Jerusalém: a biografia.

Simon Sebag Montefiore

Alêtheia | 2012 | 657 páginas

É possível fazer a biografia de uma cidade?

Sim, se essa cidade for um organismo vivo. E essa cidade é Jerusalém. Cidade amada, desejada. Tão amada e tão desejada quanto espoliada e devassada.

Este poderia ser o prefácio deste livro. Um livro magnífico. Tão longo nas suas páginas – mais de 650 – como sedutor no desenrolar do fio da narrativa. Quem o lê sente-se a percorrer as ruas da história que as ruas de pedra desvelam. Montefiore, também ele membro de uma família de que fala, quando chega ao século XIX, revela-se, neste livro, um ubíquo, alguém para quem não há limites de espaço, nem de tempo. Fala de cada era como se lá tivesse estado. Assim se entende que recorde pormenores como o que acompanhou o encontro entre Saladino e o cruzado Guy de Lusignan, em 1187. Sabemos, porque Montefiore no-lo conta, que Saladino estendeu ao rei Guy «uma taça de sorvete, gelado com a neve do Monte Hermon». Do mesmo modo, muitos séculos volvidos, descobrimos que a conferência de Ialta, que dividiu os despojos de Guerra entre os vencedores da II Guerra Mundial esteve programada para ser em Jerusalém. Hoje, a foto em que aparecem Estaline, Roosevelt e Churchill teria, como pano de fundo, a cidade sagrada. Estes e outros pormenores são descritos ao correr da pena que se revela sábia e sedutora nesta obra que me prendeu a alma ao longo de pouco mais de dez dias do verão de 2012. A capacidade de prender quem o lê faz de Montefiore um autor ímpar, capaz de levar pela mão o anónimo leitor que se sente privilegiado por se convencer de que a história lhe é contada ao ouvido, de tão pormenorizada ser. Um livro imprescindível para compreender como a cidade que tem a «Paz» no seu nome continua, hoje, como, afinal, sempre parece ter sido, a edificar-se sobre os escombros de si mesma.

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