Pode a Europa pensar-se sem Deus?

Europa: o silêncio ensurdecedor de Deus….

Luís Manuel Pereira da Silva

Uma Europa sem Deus? A União Europeia e o diálogo com religiões, Igrejas e comunidades confessionais.

Michael Weninger

Edições 70 | 2009 | 510 páginas

 

Quando li este livro, em agosto de 2009, fui tomado por um enorme sentimento de dever de partilha do que tinha descoberto. Acabava de ler um livro que me permitia compreender um assunto que preenchia, na altura, as manchetes de muita imprensa religiosa, mas que teimava em ser silenciado na grande imprensa: o problema da inclusão da referência a Deus na Constituição Europeia que se esboçava, às mãos de um ex-presidente da República Francesa, Giscard d’Estaing.

Weninger coligia, de forma clara, os passos dados e recuados de uma decisão sobre aceitar ou recusar referir na Constituição da União Europeia a matriz cristã e religiosa como uma das que tinham permitido forjar a identidade continental. Sabemos que nem o documento veio a ter o estatuto de constituição, nem a referência veio a ser feita, no documento que veio a suceder-lhe. E os motivos são descritos com clareza neste livro. Pressões de organismos ditos humanistas, mas que preconizavam uma laicidade negativa (também designada como laicismo), conduziram ao silenciamento e à recusa de possíveis soluções que permitissem compaginar as diversas sensibilidades em jogo. Um dos grandes méritos desta obra está em, não só descrever os dados em discussão e as consequências de se ter optado por fazer de conta que a Europa não tem uma história cristã, mas também em apresentar possíveis cenários de resposta. E entre estes recolho, como ilustração do mérito desta obra, a solução que foi encontrada para a Constituição da Polónia que diz que «também aqueles que acreditam em Deus como fonte da verdade, da justiça, do bem e do belo, como os que não partilham essa crença, mas que respeitam os valores universais, assim como de outras fontes […]».

O livro é, para além de uma exaustiva descrição do processo que tem conduzido à tentativa de silenciamento do contributo ímpar das religiões para a definição da identidade europeia, um precioso documento para a problematização do entendimento europeu sobre a laicidade, tão devedora de uma leitura restritiva que se estruturou no contexto da revolução francesa e que tem conduzido à construção de uma recente história da união europeia ao arrepio do sentir dos povos que dela fazem parte. Uma tal decisão acabará por comportar, com o tempo, ou a perda definitiva da identidade ou a emergência de movimentos restauracionistas que acenderão conflitos que se julgava extintos. O desafio é o de respeitar a identidade, em nome do princípio da subsidiariedade, tantas vezes invocado neste livro. Princípio que impede a imposição artificial de soluções que podem ser preconizadas e encontradas nas próprias comunidades. Um repto que, quanto mais tarde for atendido, maiores custos comportará. Os sinais estão aí!

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