Phantom Thread: uma linha que não se conhece

‘8 1/2’ – Rubrica de Cinema 

Phantom Thread: uma linha que não se conhece

Pe. Teodoro Medeiros

                     Sete é o número da plenitude ou perfeição no mundo bíblico, mas é também o número que calhou à arte do cinema. Se fugirmos da poesia, então a literatura é muitas vezes menos “composta”, no sentido de menos ambígua e indefinida do que a arte cinematográfica. O final em aberto é só uma das possibilidades…

                Se lermos António Lobo Antunes, isso será mentira; se virmos este “Linha Fantasma”, pode bem ser verdade. Quis a sorte benfazeja que o autor destas linhas revisse o “Persona” do sueco Ingmar Bergman a pouco mais de 24 horas deste (de Paul Thomas Anderson). São filmes marcantes os dois mas entende-se que Bergman leva a melhor (a composição das imagens; a audácia da história!).

                O tão apreciado ator Daniel Day Lewis encarna um já maduro criador de vestidos na Inglaterra dos anos 1950; chama-se Woodcock, é génio meticuloso, alfaiate exímio, artista de olho clínico mas apaixonado, figura vulnerável e neurótica que existe em doses iguais de dependência afetiva, ritualismo obsessivo, timidez irascível e exigência desumana.

                Mas o arraial da sua personalidade é discorrido de forma mais subtil que o parágrafo anterior: a sua dependência emocional é manifesta desde cedo mas o que predomina é um certo charme e elegância. A compostura do ator é perfeita e constante e serve o propósito de cada momento: é tudo muito contido, como se espera de um britânico (o personagem, não o ator).

                Em concreto, trabalhando à mesa do pequeno-almoço, aborrece-se com a comida e exprime-o verbalmente. Ao ser acolhido de forma não servil na sua queixa, faz pouco mais do que dizer que não pode dispor da energia necessária para um confronto (“não tenho, simplesmente, tempo para confrontos agora”). As emoções são geridas com pulso de ferro portanto.

                Ela chama-se simplesmente Alma, numa simbologia que é menos imediata para os anglófonos do que para nós. É descoberta quando serve à mesa, de forma algo desajeitada. O retomar do tema do irresistível e inexplicável fascínio que o tosco e a desordem exercem sobre o seu oposto.

                A protagonista feminina funciona por contraste: apresenta-se com a espontaneidade, a falta de jeito dos jovens; não recebeu educação digna desse nome mas não se penitencia por isso; não exprime as suas emoções em frases labirínticas; não abdica da dentada na torrada e não concebe um mundo sem dança e alegria. Ela não é sofisticada.

                A operária cara bonita será a nova musa, a mais recente bela a ser promovida à vida na mansão no topo da colina: será a sua história semelhante à das anteriores? Brilhará incandescente durante um certo tempo para desaparecer a seguir, sem glória e sem herança?

                A grande mudança que com que nos vai presentear é a de que sabe que quem deve mudar não é ela. Porque Alma é resistente e vai lutar para realizar esse ponto nevrálgico mas tão esquecido do eterno feminino: a mulher gere o marido (a esposa é a segunda mãe: é incontornável!).

                Então: o que restará da colisão de duas entidades de natureza tão diferente? Poderão retomar o rumo em vista ao seu termo ou desintegrar-se-ão com tal impacto? Em caso de sobrevivência, o que ficará comprometido doravante? O milagre é serem-nos dadas a ver todas as possibilidades: estes opostos sondar-se-ão como dois pistoleiros na hora do duelo.

                Diz-se que P.T.A. (Paul Thomas Anderson) não segue as convenções do cinema e prefere seguir o seu percurso pessoal. Vendo este “A Linha Fantasma” percebe-se que a frase tem de ser lida com cuidado: a caracterização dos personagens e a sua subsequente desconstrução denunciam um espírito que (se tornou) reverente da tradição dos heróis com traços imprevisíveis.

                O equilíbrio entre a estética visiva e o glamour de um lado e a violência que lampeja aqui e ali no incontido dos protagonistas de outro não deixa margem para dúvidas: é necessário olhar para além da aparência. Esse olhar é óbvio na sequência deliciosa em que uma aristocrata madura bombardeia Reynolds com a própria insegurança.

                Essa senhora carrega todos com o fardo da sua vaidade (muito) injustificada: terá um vestido Woodcock para o matrimónio com a sua mais recente paixão mas arruinará a sua festa. As qualidades de Alma vão valer-lhe muitos pontos mas o que interessa é que se denunciou a podridão do sistema.

                Recheado destas subtilezas, o filme propõe o jogo do predador e da presa: alguém circunda, alguém ameaça, mas quem é quem? Tal como em “Persona”, redefine-se o que é o querer bem e o que é submissão desumana; a partir de que momento se deve falar de escravatura? O que é permitido nesse código ainda não decifrado a que chamamos amor?

                De referir que também no outro tratado sobre estas coisas (Persona), o personagem mais puro do duelo chama-se Alma.