Pessoa Notável | Maria Armanda Pêgo Guedes

Pessoa Notável

MARIA ARMANDA PÊGO GUEDES

Maria Armanda Ferreira Guimarães (Maria Armanda no texto presente) nasceu em  Bairro, Vila Nova de Famalicão a 16 de Setembro de 1928. Foi solenemente baptizada  a  30 deste mês na  Igreja da paróquia de  São Pedro de Bairro,  concelho de  Vila Nova de Famalicão,  Arquidiocese de  Braga. Os seus Pais tiveram cinco filhos, sendo três rapazes e duas meninas. O ambiente de casa era típico de uma família abastada do Minho, inserido no meio social e na paróquia.

As relações familiares e de vizinhança, as práticas religiosas e ditos populares tradicionais vão moldando o estilo pessoal de Maria Armanda e fazem desabrochar os seus dotes naturais que virá a cultivar com esmero, e a adquirir outros, fruto de amizades e contactos, designadamente no Colégio das Teresianas. À medida que foi crescendo, participa nas iniciativas da paróquia, designadamente nas catequeses e movimentos de apostolado.

Depois da escolaridade em Delães, foi educada com as Teresianas no Colégio de Santo Tirso e, ainda hoje diz “ser filha das Teresianas”.

Casa com António Acácio Pêgo Guedes em 20 de Março de 1949 e teve dois filhos, a Ana Laura e o Fernando.

Sempre em família

Andou por várias terras, uma vez que o marido era Funcionário Público: Barcelos (onde a filha nasceu), Figueira da Foz, Bragança e Aveiro/Ílhavo, onde vive e exerce a sua actividade e influência apostólicas, muito positivas, sobretudo no campo dos visitadores das pessoas doentes e idosas, nos grupos de reflexão de catequese dos adultos, no apoio a iniciativas apostólicas, designadamente aos padres da paróquia de Ílhavo e da Vera Cruz, Aveiro. Vive intensamente a ressonância dos acontecimentos sociais, sobretudo da Revolução de 25 de Abril de 1974 e acompanha com solicitude a vida da Igreja empenhada em se renovar com os fortes impulsos do concílio Vaticano II e iniciativas locais da diocese e das paróquias.

“Igreja Aveirense” traz às suas páginas algumas facetas do seu labor apostólico, feito em comunhão com a Igreja, com grande dedicação e proximidade, ora pessoalmente ora em grupo. Recorre a pessoas amigas que aceitam dar o seu testemunho e aos “Canais”, folha paroquial da Vera Cruz distribuída aos domingos e, em que Maria Armanda colabora em circunstâncias especiais, deixando aflorar capacidades, modos de colher a realidade, proximidade e calor humano especial pelas pessoas doentes e fragilizadas.

Disponibilidade apostólica

A morar em Ílhavo, apresentou-se ao Pároco, Pe. Sebastião Rendeiro, para se disponibilizar para o que fosse necessário na paróquia. Grande parte da sua vida foi por aquelas terras, sobretudo como Visitadora de Doentes.

Desde 2001 que vive em Aveiro e com o Pe. Rocha, pároco da Vera Cruz “criou” o movimento de Visitadores de Doentes e, ainda hoje, sente-se muito ligada ao grupo e está atenta a tudo o que se relaciona com os doentes e as pessoas sós. Ana Laura, filha

Nota  A atenção apostólica às pessoas doentes começa a organizar-se nesta modalidade em Ílhavo em 1967 e vai-se  progressivamente estendendo na diocese, sobretudo a “sensibilidade” pastoral.

Animadora de grupos paroquiais de reflexão cristã

Ílhavo, em sintonia com o programa da diocese, organiza a vida pastoral com base em grupos de reflexão cristã. Merece destaque o plano trienal :”O domingo na renovação da Igreja”. Estes grupos são constituídos por jovens e adultos, reúnem habitualmente em casa de algum dos seus membros que anima o encontro. Cada reunião tem normalmente as seguintes partes: acolhimento, reflexão, partilha sobre o tema indicado com anotação pelo secretário (rotativo) das questões que o grupo não consegue perceber, diálogo sobre o que exige a cada um (à família, à paróquia, à sociedade) a coerência com aquela doutrina, a tomada da resolução e oração final. (Evangelização em pequenos grupos, em Pastoral do Domingo nº 8).

Maria Armanda organiza a vida pessoal, disponibiliza a casa de família, convida pessoas, anima verdadeiramente o grupo da sua vizinhança (zona da Vista Alegre) e apoia outros em formação.

 

O sonho de uma Capela na Vagueira

O casal desloca o centro da vida para a Vagueira, praia onde tem uma casa e  onde  passa boa parte do Verão. Aqui depara-se com vários turnos de crianças em anos sucessivos que procuram os benefícios do ambiente. Enquanto permaneciam as crianças, havia missa; depois, quem pudesse tinha de ir à Igreja da Boa Hora ou à da Costa Nova, a alguns quilómetros de distância.

O Acácio, sobretudo,  começou a pensar na necessidade da construção de uma Capela. Falou com várias pessoas que mostraram interesse, algumas até em ajudar.

Falou com D. Manuel, Bispo na altura, que concordou plenamente. E prossegue com D. António Marcelino, que se entusiasma pelo “projecto”. Abordam-se pessoas que podiam dar o terreno, tijolos, cimento… E o sonho adormeceu por morte de acidente de quem o alimentava.

O Acácio foi um apaixonado pelos Cruzados de Fátima. A convite do P. Domingos Rebelo e do P. Manuel Antunes aceitou, de forma entusiasta, colaborar com o responsável diocesana. E os Cruzados de Fátima foram mais conhecidos e cresceram, até que se dá o acidente mortal. Mas a vida continua, embora com outro ritmo. Ana Laura.

Relatos de vida

Maria Armanda escreve, de vez em quando, registando algo que vivenciou de forma especial e pode servir a quem procura familiarizar-se com as pessoas doentes e seus acompanhantes. São textos breves, cheios de vida, de entusiasmo e confiança, como se pode ver nos que se seguem.

 

No Coração da Igreja

Fui educada com as Irmãs Teresianas, naquela altura quase chegadas a Portugal depois de bem fustigadas pela guerra civil de Espanha. Ainda tenho presente as coisas terríveis que passaram e nos contaram.

A minha vida ficou marcada pelo ideal teresiano. Por isso mesmo, nos momentos altos da Companhia de Santa Teresa de Jesus, aí estou eu, levada pela força irresistível de uma amizade sincera.

Nota O fundador é Henrique de Ossó que quis que as irmãs teresianas, cheias do espírito de Teresa de Jesus, se comprometessem a “estender o reino de Cristo por todo o mundo”, “formando Cristo na inteligência das crianças e jovens por meio da instrução e no coração por meio da educação”. Foi canonizado por João Paulo II, a 16 de Junho de  1993, em Madrid.

Equipa de Visitadores dos Doentes

Não sei  bem porquê, mas quando falo de esperança quero ver sempre o coração cheio. Tenho medo do vazio. Estamos cansados de ouvir, sobretudo depois do Vaticano II que nós, leigos, também somos Igreja. Esta afirmação tem exigências muito importantes: responsabilidade na missão da Igreja; papel insubstituível de cada um de nós na orientação das pessoas para Cristo; despertar o amor divino do humano; um aprofundamento sério da nossa vocação; um esforço cada vez maior para que o nosso apostolado seja sinal visível de que a Igreja pode salvar os homens hoje.

                                                               in O Canal, 31 de Outubro de 2004

Valor Humano de um Serviço

Valeria a pena, se o espaço permitisse, transcrever a parte final do trabalho do Dr. José Vaz sobre “A Família dos Doentes terminais”. Fique apenas com esta frase: ”O acompanhamento do Doente é impensável sem a Família”. Mas também esta: “É, sem sombra de dúvidas, na aproximação da morte que a Família, paradoxalmente, tem mais necessidade da ajuda que o Doente”.

 

Maria Armanda, apóstolo dos Doentes

Foi nos anos de 80 que tive a sorte de conhecer esta mulher – nessa altura ainda na companhia do  marido –   e conhecida, na paróquia de Ilhavo,  pelo primeiro nome: D. Armanda.

Sorriso franco a quem batia à porta fosse para uma visita, um almoço ou algum grupo  em formação. Mais tarde,  tive a sorte de a encontrar já em Aveiro,  na paróquia da Vera Cruz para onde o Sr. Bispo me nomeou em 2001, já ela lá vivia num 1º andar de uma casa bonita e arejada. Foi aí que a encontrei e lhe propus  uma ajuda num campo que ela conhecia muito bem e de que estávamos a precisar: ajudar a formar uma Equipa de Visitadores de Doentes. Encontrei  o mesmo sorriso de sempre e a disponibilidade a toda a prova e surgiu a Equipa  que,  ainda hoje, não dispensa uma visita, um conselho ou uma conversa a meio da tarde. A porta continua aberta, o sorriso franco e disponibilidade a toda a prova.

… Hoje, visitar a D. Armanda, é momento de encontro com uma mulher feliz consigo mesma, realizada com o passado que ela tão bem ajudou a construir em tantos momentos de serviço e entrega aos doentes, disponível para quem quiser bater à porta, amiga e preocupada com os padres  e sempre confiante num Deus amigo que a continua a animar apesar das debilidades físicas que lhe vão batendo à porta. ‘Falar com a D. Armanda é sempre um bom encontro. P. Manuel J. Rocha

Parabéns e Gratidão

Maria Armanda fez 80 anos em 2008, oportunidade aproveitada pela filha para traçar o perfil da Mãe. Recorre ao género de acróstico, estilo que lhe é familiar.

Obrigada por ser: Interessada, tolerante, entusiasta, natural, ter e transmitir, amor à família, agradecer o dom da vida, nas horas difíceis, ouve, olha, aconselha, silencia. Ana Laura, OITENTA Acróstico. Vivendo os 80, 2008 Opúsculo com recolhe de textos publicados em “O Canal”, folha paroquial da Vera Cruz, Aveiro