Pensamento de Edith Stein | Edith Stein e a mulher

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein e a mulher

Javier Sancho*

Um dos aspectos que mais e melhor caracteriza a vida de Edith Stein é a sua grande preocupação pelo tema da mulher. Já na sua adolescência teve diversas experiências que lhe fizeram abrir os olhos diante de uma evidente desigualdade e discriminação da mulher1. Insinuávamos, no primeiro capítulo e afirmávamos no anterior, que uma só preocupação era o motor da sua busca: o sentido do ser e da existência do ser humano. E, a partir daí, põe-se como objectivo, não só descobrir respostas existenciais, mas buscar soluções para a desigualdade que a mulher sofre. Na sua autobiografia reflecte esse mesmo interesse:

«A partir deste sentimento de responsabilidade social pus-me decididamente em favor do direito do voto feminino. Isto era então, inclusive dentro do movimento cidadão feminino, não de todo evidente. A associação prussiana em favor do voto da mulher, na qual ingressei com minhas amigas, estava integrada na sua maioria por socialistas, devido a que defendia a total igualdade política de direitos para a mulher»2.

Ela própria não cairá na conta da necessidade de fundamentar antropologicamente o movimento feminista e as suas reivindicações, até que não encontre a verdade que está a buscar em Cristo. Propriamente, só depois da sua conversão, e especialmente a partir de 1928, é que encontramos nela um desenvolvimento específico de uma antropologia feminina.

Será por isso que as suas análises não são simplesmente o resultado da constatação de uma situação real e a luta por alcançar uma ligar de igualdade para a mulher. Conduz a questão feminina por outros trilos mais sérios e profundos, com a finalidade de se encontrar com uma solução definitiva. Por isso, não para normalmente em particularismos, aos quais recorre apenas como exemplos para esclarecer as suas teses. Busca o essencial. E é aqui onde manifesta o característico da sua metodologia fenomenológica:

«A natureza de um ser humano e o desenvolvimento da sua vida não se realizam casualmente, mas são, à luz da fé, obra de Deus. No fundo, quem chama é Deus. Ele é quem chama cada homem à actividade que lhe corresponde, cada indivíduo para o que ele é pessoalmente chamado; e, além disso,  chama  o homem e a mulher ao que é próprio e particular de cada um. Não parece fácil distinguir o peculiar da chamada do homem e da mulher, uma vez que se discutiu sobre o tema durante muito tempo. E, no entanto, existem muitos modos através dos quais chega até nós o chamamento: o próprio Deus nos fala no Antigo e no Novo Testamento»3.

Edith é consciente de que uma mudança na mentalidade e funcionamento dos estamentos sociais em favor da mulher e em benefício de todos, só será possível se realmente estiver fundamentada no ser autêntico do que é a mulher. Daí, a sua antropologia ter um carácter «diferencial»: é necessário conhecer e especificar o típico do ser do homem e da mulher. A resposta definitiva não a podem dar apenas as ciências humanas (pedagogia, psicologia, filosofia, biologia,…). Por isso, há que buscar u fundamento último em Deus, na sua vontade criadora, no sue plano de salvação universal. A sua visão da mulher é bíblica e teológica, e só desde aí pode ser bem compreendida.

A este ponto temos que acrescentar que a reflexão teológica e antropológica que Edith Stein faz é motivada, em grande parte, pela urgência que sente de recuperar a «individualidade do género feminino» pela qual tanto se empenhou na sua vida». Sente a necessidade e a exigência vital de estabelecer os princípios característicos da feminidade para que, a partir dos mesmos, a mulher tome consciência do seu ser «diverso» e possa desenvolver em si esses valores que não só a distinguem, mas, além disso, são o caminho autêntico para uma compreensão de si e um desenvolvimento pleno da sua vida em totalidade. É esta vocação «especial» que determina e orienta uma aproximação diferencial à mulher. E Edith vai encontrá-la na Sagrada Escritura. Determinar o sentido de quanto configura a vocação da mulher, é o motivo pelo qual a nossa autora se detém em repetidas ocasiões a analisar cuidadosamente os textos bíblicos mais importantes onde se fala da mulher.

Homem e mulher os criou

A insistência de Edith Stein no essencial da questão não é sinónimo de uma análise abstracta da realidade. O seu ponto de partida não é outro senão o da situação actual, a razão pela qual a mulher se encontrou ao longo da história e ainda se encontra hoje submetida ao domínio do homem. A leitura que faz deste fenómeno é decididamente bíblica e teológica: a situação actual é o fruto do pecado original.

Daí iniciar o seu estudo antropológico da mulher a partir do momento originário da criação do homem e de mulher onde se reflecte o autêntico estado da humanidade. Não se fecha a uma simples análise do ser da mulher, mas preocupa-se por examinar as duas naturezas originais: homem e mulher. Só partindo daqui se pode compreender o lugar de cada um na humanidade, a distinção e a complementaridade dos dois sexos. Vai ser este o seu grande mérito e inovação perante os movimentos feministas da sua época, demasiado ocupados numa simples reivindicação dos seus direitos, sem parar numa análise objectiva da sociedade composta por homens e mulheres. A mulher só poderá ter acesso ao seu lugar autêntico na humanidade se partir de uma análise completa do seu ser antropológico e teológico.

Onde encontrar o ser autêntico do homem e da mulher? Na sua origem, antes da queda no pecado e da perda da ordem primitiva. Descobre no Génesis o lugar teológico para começar o seu discurso antropológico. No princípio, Deus criou-os «homem e mulher»: «Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus, e criou-os homem e mulher» (Gn 1, 27).

Este versículo do Génesis tem para Edith Stein um evidente significado diferencial, que justifica o facto de falar de uma diferença essencial de sexos, isto é, como parte do projecto de Deus sobre a humanidade: «Já na primeira narração da criação do homem se fala da diferença entre homem e mulher»4. Esta diferença tem um sentido positivo, no qual se descobre um mistério de grande importância na hora de realizar a imagem de Deus na história:

«Se fez o homem não como única espécie, mas pô-lo no mundo como par, então a sua existência deve alcançar também um sentido social e variado. Ambos foram formados à imagem de Deus. E como cada criatura na sua limitação não pode reflectir senão uma parte fragmentária, na multidão das criaturas a infinita unidade e unicidade de Deus aparece dividida numa totalidade de raios diferentes, assim também a espécie masculina e feminina reflectem a imagem divina de diferentes maneiras»5.

Toca-se aqui o mistério da diferenciação do homem e da mulher. Não se trata de algo meramente casual ou natural, que virá superado, mas encerra em si um carácter vocacional específico chamado a realizar-se também na Eternidade. Esta diferenciação adquire um peso mais significativo na obra da Redenção, onde descobrimos novamente um par humano com o duplo rosto masculino e feminino, Cristo e Maria6.

Ajuda e companheira

As palavras da Escritura, concretamente do livro do Génesis, tomadas em sentido literal, chegamos facilmente a uma incompreensão da mensagem que nos querem transmitir. E quanto nos é dito da mulher, pode soar mesmo a uma linguagem antiquada e machista. Edith não se deixa enganar, pretende ir muito mais além da letra do texto, procura desentranhar os elementos que definem o específico do sexo feminino. Para Edith Stein há duas palavras chaves na determinação da vocação bíblica da mulher: «ajuda» ou «companheira» e «mãe». Por agora, centramo-nos no sentido de «ajuda».

Em Génesis 2, 18-25 encontramos o seguinte relato da criação da mulher:

«O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só Vou dar-lhe uma ajuda semelhante a ele”. Então, o Senhor Deus, após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, para ver como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes disse. O homem pôs nomes a todos os animais domésticos, a todas as aves do céus e a todos os animais ferozes; contudo, não encontrou para ele uma ajuda adequada. Então, o Senhor Deus fez cair um profundo sono sobre o homem; que adormeceu. E, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. Ao vê-la, o homem exclamou: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem”. Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne. Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha».

«Algo mais sobre a relação entre homem e mulher nos diz o segundo relato sobre a criação do homem. Narra a criação de Adão e diz-nos que foi posto no “Paraíso das delícias” para o cultivar e proteger; recorda que diante dele foram passando os animais e que lhes deu o seu nome (Gn 2, 18 ss). “Mas entre todos eles não havia para o homem ajuda proporcionada a ele” (Gn 2, 20). A expressão hebraica que aqui aparece não é fácil de traduzir para o alemão: Eser Kenegdo – literalmente: “uma ajuda correspondente a ele”. Pode-se pensar numa imagem de espelho na qual o homem possa ver a sua própria natureza. Por isso, as traduções falam de uma “ajuda semelhante a ele”; pode-se pensar também num complemento, num Pendant, em que as duas partes se correspondem;  mas não num sentido pleno, mas de tal modo que se completem mutuamente como uma mão com a outra. “E o Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só, vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele” (Gn 2, 18). E o Senhor fez cair sobre Adão um sono e tomou uma das suas costelas com a qual formou a mulher e apresentou-a a Adão. “O homem exclamou: Isto sim, que é osso dos meus ossos e carne da minha carne. Esta chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem” (Gn 2, 23). Por isso, o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher, e os dois serão uma só carne (Gn 2, 23). Os dois estavam nus, Adão e sua mulher; mas não sentiam vergonha (Gn 2, 24)… O facto de que o homem fosse criado primeiro, manifesta uma certa prioridade de ordem. E o motivo pelo qual não era bom para ele estar só, temos que deduzi-lo da própria palavra de Deus. Ele fez o homem à sua imagem. Mas Deus é uno e trino: como o Filho procede do Pai e do Pai e do Filho procede o Espírito, assim a mulher procede do homem e dos dois a descendência. Mais ainda: Deus é amor. O amor não é possível se não existem pelo menos dois…

Aqui não se fala de um domínio do homem sobre a mulher: a ela chama-se-lhe companheira e ajuda, e do homem diz-se que se uniria a ela e que os dois seriam uma só carne. Isto quer dizer que a vida dos primeiros seres humanos tem que ser considerada como a mais íntima comunidade de amor, que ambos colaboram em perfeita harmonia de forças num único ser, tal como sucedia no indivíduo antes do pecado, a perfeita harmonia das potências; espírito e sentido estavam na justa relação sem possibilidade de contraste. Por isso, não conheciam no início nenhum instinto desenfreado um diante do outro. Esta ideia está presente nas palavras: estavam nus e não sentiam vergonha (Gn 2, 25)»7.

Este longo texto steiniano aproxima-nos muito bem das consequências que uma boa compreensão e aplicação desta visão bíblica teria para a mulher. Falar de ajuda não é falar de um ser subordinado, nem muito menos escravizado ao querer do homem. «Ajuda» significa antes de tudo correspondência, no sentido de que o homem tem na mulher o seu semelhante, e a união dos dois reproduz a imagem completa de Deus. A mulher é a companheira do homem, o que implica que tudo quanto faz parte da vida e vocação do homem lhe afecta e interessa directamente. Na prática quer dizer «participação da mulher na profissão do homem», em todas «as coisas do homem»8. Ser ajuda «correspondente» significa, além disso, complemento: «como sua outra metade», onde se pode contemplar e encontrar a si mesmo, e com quem realmente pode realizar a sua vocação de dominar o mundo e criar continuamente a humanidade9. E de toda esta realidade deduz-se em grandes traços a vontade  anímica da mulher: «Esta primeira determinação acomoda-se ao seu modo de ser: ir ao lado do homem, tomar parte com amor na sua vida, com fidelidade e disposta a servir. É o característico da feminidade. Isto traz consigo o ter capacidade de empatia para com o outro e as suas necessidades, capacidade e docilidade de adaptação»10.

A semelhança, a complementaridade ou ajuda correspondente, que a Escritura sublinha com tanta evidência, tem uma solução ainda mais profunda no mistério de Deus, de tal modo que «a mulher foi posta ao lado do homem a fim de que um ajude o ser do outro a realizar-se», quer dizer, para que entre os dois realizem o projecto encomendado por Deus, representado antes de tudo nesse «ser imagem de Deus». Deixamos novamente que Edith o exprima com as suas palavras:

«Se se aparta o facto de que, segundo a nossa concepção da unidade completa da alma e do corpo, todos os processos corporais (quando são verdadeiramente processos corporais e não pura e simplesmente materiais) são, ao mesmo tempo, processos psíquicos, a relação da mulher com o homem não deve realmente ser concebida como uma relação simplesmente ou quase exclusivamente corporal. Devia ser dada uma ajuda (Gn 2, 18) a Adão para que “não estivesse só”. A propósito destas duas expressões não se pode pensar primeiro mais do que numa relação psíquica: “Deus criou os homens à sua imagem […] Ele criou o homem e a mulher” (Gn 1, 27) e deu-lhe a graça da fecundidade. Criou-os à sua imagem enquanto essência espiritual e pessoal. E, precisamente por esta razão não era mau que Adão se encontrasse só, visto que o sentido mais elevado do ser espiritual e pessoal é o amor recíproco e a unidade existencial de uma pluralidade de pessoas no amor? Por isso o Senhor deu a Adão “uma ajuda na presença dele”: uma companheira que lhe correspondia como uma mão corresponde a outra, que se assemelhava quase inteiramente com ele, e contudo, era, por sua vez, um pouco diferente e capaz assim de uma actividade própria e complementar, também tanto do ponto de vista do seu ser corporal como do ponto de vista do seu ser psíquico»11.

É interessante constatar como Edith leva até às últimas consequências as afirmações da Revelação. A criação do homem e da mulher à imagem e semelhança, implica não só uma capacidade de união física, mas uma união muito superior, cujo modelo é a mesmíssima vida intratrinitária. De tal modo que a complementaridade abrange principalmente a dimensão pessoal e espiritual do ser humano, capaz, neste plano,  de alcançar uma união muito superior da física ou psíquica. E aqui encontramo-nos diante de outro elemento que caracteriza a alma feminina como ajuda, complemento e companheira necessária do homem, a sua maior capacidade de se fazer dom: «Mas a força do dom não depende somente do grau de ajuda que é prestado, mas também do que se pode receber na sua alma, e por conseguinte de elevação existencial que se possa experimentar. E se a força mais importante do dom corresponde à essência da mulher, é que na união de amor não somente ela dará mais, mas também receberá mais»12. Precisamente por isso, Edith descobre na pessoa do Espírito Santo o protótipo do qual a mulher é imagem13.

*Javier Sancho. La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 93-98.
Imagem de Zhivko Dimitrov por Pixabay

1 Desenvolvi este tema, com um carácter mais doutrinal, no meu livro: Uma espiritualidade para hoje segundo Edite Stein, Burgos 1998, pp. 321 ss.

2 EA 149.

3 A vocação do homem e da mulher, em Obras 120-121.

4 Ib. 121.

5 A vida cristã da mulher, em Mulher 121.

6 Cf. Jugendbildung im Lichte des katholichen Glaubens, em ESW XII, 220-221.

7 A vida cristã da mulher, em Mulher 122-123.

8 Cf. A vida cristã da mulher, em Mulher 108-109.

9 Cf. Os problemas da educação da mulher, em Mulher 221.

10 Cf. A determinação vocacional da mulher, em Obras 92.

11 SFSE 528-529.

12 Ib. 529.

13 Cf. A vida cristã da mulher, em Mulher 122.