Os esplendores da Ressurreição

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

«Não há nada em Cristo que, por Sua natureza e por livre decisão da Sua vontade, se opusesse ao amor. Ele viveu cada instante da Sua existência terrestre num abandono sem reservas ao amor divino. Mas Ele tomou sobre Si, na Sua encarnação, todo o fardo dos pecados dos homens; o Seu amor misericordioso tomou-os e assumiu-os na Sua alma quando disse Ecce venio [Eis que Eu venho] pelo qual começou a Sua vida terrestre. Renovou esse gesto de forma expressa aquando do Seu Batismo, assim como ao pronunciar o Seu fiat [seja feita a Tua vontade] no Getsémani. Foi assim que se consomou, no Seu interior, o fogo da expiação. Por isso as chamas expiadoras foram os sofrimentos que O acompanharam ao longo de toda a Sua vida. Estas reavivaram-se com uma intensidade acrescida no Jardim das Oliveiras e na Cruz. Nesse momento, a própria felicidade que Lhe causava na alma a união indissolúvel com o Pai acabou, para O abandonar inteiramente à Sua dor, para O deixar experimentar o último abandono de Deus. O Consummatum est [Tudo está consumado] anuncia que o fogo da expiação toca o seu termo. O Seu In manus tuas commendo spiritum meum [Nas tuas mãos entrego o meu espírito] significa o regresso definitivo à união de Amor eterno.

Foi pela Paixão e Morte de Cristo que os nossos pecados foram consumidos. Quando aceitamos esta verdade com fé e no abandono que a mesma fé nos inspira, aceitamos também Cristo inteiro, quer dizer que escolhemos imitar a Cristo, então Ele conduz-nos «pela Sua Paixão e pela Sua Cruz, à glória da Ressurreição.» É exatamente o que nós experimentamos na contemplação. Aí atravessamos o fogo da expiação para atingir a bem-aventurança da união de amor. Esta é ao mesmo tempo morte e ressurreição. Depois da noite escura é então que a chama de amor viva irradia com todo o seu fulgor…

A alma sente como se, do centro mais interior, jorrassem rios de água viva. Parece-lhe que se transforma em Deus e que, possuída por Ele com tanta força, recebe dons e virtudes tão grandes que nada a separa da felicidade, a não ser um véu finíssimo… Esta chama de amor viva não é senão o Espírito Santo… nesta transformação da alma em chama de amor, o Pai, o Filho e o Espírito Santo comunicam-Se-lhe. Ela chega tão perto de Deus que sente como que um raio de luz da vida eterna. »

*Ciência da Cruz, Edições Carmelo, 2017, p. 208-212.

 

Sete chamas de uma novena de Pentecostes

 

Convidamo-lo a rezar em cada dia – quando lhe for mais conveniente – esta magnífica poesia oferecida no Pentecostes de 1942 à prioresa do Carmelo de Echt que tinha acolhido na sua comunidade a Irmã Benedita da Cruz e também à sua Irmã Rosa como Irmã externa. A poesia foi composta para o Pentecostes de 17 de Maio de 1937, dia em que Rosa recebeu a sua Confirmação em Berslau.

 

Edith Stein/ Teresa Benedita da Cruz

 

Quem és tu, doce luz, que me preenche

E ilumina a treva do meu coração?

Como a mão de uma mãe conduzes-me

 E, se me deixasses,

Não saberia dar nem mais um passo.

Tu és o espaço que envolve o meu ser

Abrigando-o em Ti.

Se Tu o rejeitasses,

Escorreria a pique para o abismo do nada

De onde o tiraste para o levantar para a luz.

Tu, que me és mais próximo que eu de mim mesma,

Que me és mais interior que o meu próprio coração,

E, no entanto, és esquivo, inconcebível,

Para além de todo o nome,

Espírito Santo, Amor eterno!

 

Não és tu o maná tão doce ao meu palato,

Que do Coração do Filho transborda para o meu,

Alimento dos anjos e dos bem-aventurados?

Ele, que Se ergueu da morte para a vida,

Soube despertar-me do sono da morte

Para uma vida nova.

Vida nova que me dá a cada dia

 E cuja plenitude um dia me inundará,

Vida da tua própria vida,

Tu mesmo, em verdade, Espírito Santo, vida eterna!

 

Serás Tu o raio de luz brilhando como o relâmpago

Diante do trono altíssimo do Juiz eterno,

Penetrando como um ladrão na noite da alma

Que se ignorava a si mesma?

Misericordioso, implacável também,

Penetras até às suas profundidades ocultas.

A alma assusta-se com o que vê de si própria

E assim se guarda num temor sagrado

Diante do princípio de toda a Sabedoria

Que vem do alto

E nos prende a Si com uma âncora sólida,

Diante da Tua ação que nos criou de novo,

 Espírito Santo, relâmpago que nada pára!

 

Serás Tu a plenitude do Espírito e do poder

Que permite ao Cordeiro quebrar os selos

 Do decreto eterno da divindade?

À Tua ordem os mensageiros do julgamento

Cavalgam pelo mundo inteiro e separam,

Ao fio da espada, o Reino da luz

Do reino da noite.

Os céus serão novos e a terra renovada,

E tudo encontrará então o seu justo lugar

Pelo Teu sopro ligeiro: Espírito Santo, poder vitorioso!

 

Serás Tu o Mestre-de-obras,

O construtor da catedral eterna

Que da terra se eleva ao céu?

Dás vida às suas colunas que se levantam,

Altas e direitas, sólidas e imutáveis.

Marcadas pelo sinal do eterno Nome divino,

Elas lançam-se para a luz e sustentam a cúpula

Que remata e coroa a santa catedral,

Obra Tua que abraça o universo inteiro: Espírito Santo,

Mão de Deus criadora!

 

Serás Tu quem cria o espelho límpido

Muito próximo do trono de Senhor, o Altíssimo,

Semelhante a um mar de cristal onde se contempla

 A divindade numa troca de amor?

Debruças-Te sobre a obra mais bela de toda a Tua criação

 E o Teu próprio esplendor de luz deslumbrante Te reenvia o seu reflexo,

Que une a beleza pura de todos os seres

Na figura cheia de graça da Virgem,

Tua Esposa Imaculada:

Espírito Santo, Criador de tudo o que é!

 

Serás tu o doce cântico de amor

E de respeito sagrado que ecoa sem fim

À volta do trono da Trindade Santa,

Sinfonia em que ressoa

A nota pura dada por cada criatura?

O som harmonioso,

A concordância unânime dos membros e da Cabeça,

Pela qual cada um, no auge da alegria,

Descobre o sentido misterioso do seu ser

E o deixa jorrar num grito de júbilo,

libertado ao participar da Tua própria efusão:

Espírito Santo, júbilo eterno!