Oratório Peregrino | 14 | Falando-nos ao Coração faz-nos seus discípulos

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XIV Passo | Falando-nos ao Coração faz-nos seus discípulos

 

EDUCAÇÃO PARA A ESCUTA                                                                       

 

O recolhimento é, ao mesmo tempo, capacidade de escuta. É silêncio no qual Cristo fala como Mestre a um discípulo que Ele ama.

Escutar não significa esperar uma revelação extraordinária, mas procurar respostas nas palavras do Evangelho, personalizando-as na nossa oração, como palavras de Jesus dirigidas expressamente a nós.

É descobrir a presença de Cristo na sua Palavra como resposta às nossas necessidades e interrogações. Falando-nos ao coração, Jesus torna-nos discípulos e actualiza a relação que teve com os seus, na Galileia. Ouçamos também aqui uma experiência teresiana, oferecida a quem queira seguir o seu exemplo:

 “Chegai-vos para junto deste bom Mestre, muito determinadas a aprender o que vos ensina, e Sua Majestade fará com que não deixeis de sair boas discípulas, nem vos deixará se O não deixais vós” (C 26, 10).

«Faça-se em mim»

 «O anjo disse a Maria: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. 30Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. 31Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, 33reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.»

34Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus.  Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

39Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho. 40Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Então, erguendo a voz, exclamou: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. 43E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?  45Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.»

Convido-te para escutarmos no silêncio do coração nas duas saudações que são feitas a Maria, a do Anjo e a de Isabel:

«Cheia de graça o Senhor é contigo» e «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre Jesus».

Esta escuta silenciosa vai nos permitir deixar entrar dentro de nós os reflexos da graça que encheu Maria.

Cada visita de Deus à nossa alma é uma anunciação e uma visitação.

É uma anunciação porque a presença de Deus nos enche de graça e porque a graça manifesta que Deus está connosco. Deus escolhe-nos para que sejamos anawins, para que sejamos pequenos e pobres nas Suas mãos. Pobres de Deus para nos encher da Sua graça. Os Pobres de Deus são destinados a ser manifestação da glória da sua graça.

«Cheia de graça porque o Senhor é contigo.»

O Senhor é comigo. O Senhor é contigo e esta é a nossa verdade mais autêntica – Deus em mim, em ti, em cada um de nós. O meu Senhor, Aquele a quem me dei, porque Ele se gravou no meu coração como um selo e fez do meu coração um horto cerrado só para si. Um horto cerrado onde se recreia realizando plenamente as obras do seu amor, segundo a Sua vontade. Escutemos as palavras ditas a Maria como ditas a cada um de nós: Cheia de graça o Senhor é contigo!

«Bendita és tu entre as mulheres.»

Bendita porque Deus pôs em ti as suas complacências, pousou sobre ti o seu olhar. Mas «Bendita, porque acreditaste que havia de cumprir-se o que te foi dito da parte do Senhor».

Bendita porque em ti Deus se contempla e porque em Ti tu contemplas a Deus. Bendita porque és espelho claríssimo da acção do Espírito de Amor, és manifestação da glória da sua graça. Bendita és Tu entre as mulheres porque Deus olhou para a tua humildade. Deus olhou, como são grandes os desígnios do amor de Deus para os seus anawins, pobres!

Ele enche-a de fortaleza e nada nem ninguém a pode separar do seu amor. Ela está firme para sempre fundada nos montes santos do Verbo Eterno e do Espírito de Amor.

Como a Maria, Deus quer bendizer-nos, encher-nos a sua fortaleza e enraizar-nos no seu amor para que nada nem ninguém nos separe d’Ele. Deixemos que Ele pouse o seu olhar sobre nós e nos fale ao coração.

Bendito é o fruto do teu ventre Jesus:

O fruto do teu ventre é Cristo, o Cristo que dás a cada um. O Verbo que geras na vida de cada pessoa com quem rezas e para quem te fazes espaço de oração. Templo de encontro com Deus – ventre sagrado aberto para que muitos encontrem, toquem e reconheçam o Verbo do Eterno Pai. Pão de vida eterna para todos.

O teu ventre é o espaço de revelação do rosto do unigénito do Pai e de revelação de cada pessoa como Filho muito amado do Pai – lugar de nova encarnação.

A nossa vida está chamada a ser espaço de encarnação da palavra de Deus e estamos chamados a mostrar o rosto de Cristo gravado, pelo Espírito de Amor, nos nossos corações.

Deixemos que as palavras de Paulo nos desafiem a abrir os nossos ouvidos interiores à escuta de Jesus que nos fala:

«A palavra de Cristo habite em vós com toda a sua riqueza: ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria; cantai a Deus, nos vossos corações, o vosso reconhecimento, com salmos, hinos e cânticos inspirados.» (Cl 3,16)

Oração:

«Podemos viver em comunhão perpétua com o Amor,

Unindo-nos à sua vontade.

Que não encontre resistência na nossa alma.

Que nela reine sempre o ambiente da fé.

Neste ar puro não se perde essa voz de Deus

Que deve imperar na nossa alma.

Que ela seja como uma participação d’Ele.

Deus, em si, faz sempre o que quer;

Que nós perdidos na sua imensidade,

Façamos também o que Ele quer.

Como seremos mais semelhantes a Ele,

Senão fazendo a sua divina vontade?

Ao agir em conformidade com Deus, somos outro Deus;

Numa palavra, somos Ele.»

Carmelo de Cristo Redentor


Imagem de czu_czu_PL por Pixabay