O SILÊNCIO DE DEUS

O SILÊNCIO DE DEUS

Walter Osswald

Pode um filme tratar de uma questão de Teologia Moral e propô-la de forma dilemática ao público? O filme de Martin Scorsese, “Silêncio”, demonstra cabalmente que tal é possível, de forma honesta e sem a mínima cedência ao populismo ou ao mau gosto.

Como tem sido noticiado, o filme parte de um livro que tem acompanhado e inquietado o realizador há dezenas de anos e que retoma um facto histórico, o da apostasia do jesuíta português Ferreira que, durante a duríssima perseguição aos cristãos, levada a cabo no Japão no século XVII, abjura da sua fé.

Porque Ferreira tinha sido superior e era tido como padre de fé inabalável e mestre de toda uma comunidade cristã, a notícia não é aceite como credível e dois jovens jesuítas, que tinham sido seus alunos, partem clandestinamente de Macau para o Japão, a fim de averiguarem o que se passa. Passam dificuldades e riscos, acolhidos em segredo pelos “Kirishtan” (cristãos) e acabam por encontrar Ferreira, mas apenas como prisioneiros, entregues por um delator, capaz de todas as traições na ânsia de sobreviver. Um dos jovens jesuítas morre, martirizado com os seus humildes companheiros; e o outro cede à argumentação de Ferreira, que lhe oferece a libertação de um grupo de cristãos, cuja tortura já se iniciou, a troco da sua negação de Cristo: seria melhor e mais misericordioso renegar a sua fé, calcar a imagem de Cristo e salvar do martírio aquele grupo de homens e mulheres do que manter-se fiel e com eles perecer.

A questão primeira é esta: é moralmente superior manter a adesão à fé e à religião, sejam quais forem as consequências para si próprio e, por arrasto, para outros, ou, pelo contrário, sacrificar-se e condenar-se, a fim de salvar outros?

Mas o filme dá-nos outras pistas. Em primeiro lugar, a estratégia da repressão passa pela brutal eliminação dos cristãos mas sobretudo pela apostasia dos sacerdotes – se os pastores abandonam o rebanho, este, supõe-se, vai ficar sem rumo e acaba por deixar morrer uma fé que não tem mediadores e servidores. Mas a desconfiança é tão grande que os padres apóstatas são conservados sob apertada vigilância, é-lhes atribuída uma família de mulher e filhos e nunca mais são livres de voltar ao seu país. Significa isto que sobrevivem, mas não são livres. Quase se afigura irónico constatar que no fim do século XIX, levantada a interdição da entrada de estrangeiros no Japão, os primeiros missionários, franceses, tenham ficado atónitos ao encontrarem comunidades que oravam em português arcaico.

Outro ponto importante é a marca indelével do sacramento do sacerdócio. Quer Ferreira, quer o jovem Sebastião Rodrigues que ele pressiona de forma tão inteligente como brutal, não conseguem deixar de ser padres, escapando àquele, quando em diálogo, a invocação do Espírito Santo; e Sebastião é enterrado com uma tosca cruz entre as mãos, colocada no féretro por sua mulher, que ele terá convertido.

Outra questão ainda aflora neste denso filme: o do perdão. Na realidade, o delator quer sempre confessar-se e obter o perdão, embora reincida na mais torpe traição. E é um Sebastião destroçado, que já abjurou, que não resiste a dar-lhe a absolvição. Setenta vezes sete, mesmo quando alguém vive na maior miséria moral.

O silêncio de Deus não existe, pois Ele fala-nos através dos acontecimentos, dos outros, da nossa própria consciência, mesmo quando atormentada e insegura. Neste filme não há música alguma, apenas o canto das cigarras, o fragor das ondas, o tamborilar da chuva, o gemer do vento: este silêncio fala.

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