O calendário e as festas móveis II/II

O calendário e as festas móveis II/II

Pe. Cristóvão Cunha

Este artigo é uma pequena fracção de um trabalho muito maior, relativo ao Observatório Astronómico do Vaticano, que teve na sua origem, a preocupação que visava a reforma do calendário Juliano.

3. O Calendário Cristão

No início, os primeiros cristãos seguiram os hebreus no cálculo do dia de Páscoa, mas bem cedo as suas estradas se separaram, atrasando a celebração da Páscoa para o dia imediatamente a seguir ao Sábado – Domingo. Esta festa tinha também um significado diferente para os cristãos: não mais a libertação da escravidão do Egipto, mas a promessa da Ressurreição (que teve lugar num Domingo) e a libertação do pecado.
Como para os hebreus, as várias igrejas cristãs eram longe umas das outras e a comunicação não era fácil. Assim as igrejas tiveram que encontrar o modo de estabelecer a data da celebração da Páscoa de maneira completamente autónoma. Esta decisão comprometia a unidade da igreja Cristã, um problema que foi bem cedo afrontado desde o concílio de Niceia que teve lugar no ano 325 d. C..
Já neste período, o calendário de Júlio César  estava em uso em todo o império romano (Calendário de Júlio César também dito Juliano – O ano juliano dividia-se em 12 meses de 30 ou 31 dias. Começava sempre no mês do equinócio da primavera. Março era o primeiro dos meses, do deus da guerra, Marte. Abril, virá de aperire, abrir, relativo ao “despertar” das flores na primavera boreal. Maio, em homenagem às deusas Maia e Flora, reponsáveis pelo crescimento das flores. Junho, em homenagem à deusa Juno. Julho, o mês inicialmente chamado quintilius, por ser o quinto, passou depois a ter o nome de Julho em homenagem a Júlio César, que dá também nome ao calendário. Agosto, sextilis, em honra ao imperador César Augusto. Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro advêm dos originais latinos, assim: septem, octo, novem e decem. Janeiro era o décimo primeiro mês, em honra de Jano, o porteiro celestial, e Fevereiro advém de februmm que significa purificar pois era o mês em que se fazia um ritual de purificação romano).

Não se questionava no calendário a necessidade de inserir ou não meses lunares uma vez que estes foram substituídos por meses de 30 ou 31 dias. A vantagem deste sistema era a harmonia que havia entre o calendário e as estações do ano e assim, o movimento da terra à volta do sol (translação). Seguindo a interpretação feita dos textos vetero-testamentários, o concílio de Niceia fixou a data da Páscoa para o primeiro Domingo, depois da primeira lua cheia, a seguir ao equinócio da primavera. Se a lua cheia ocorresse no Domingo, pois a festa da Páscoa seria no Domingo seguinte, para que se evitassem confusões entre a Páscoa hebraica e a Cristã. Com esta definição o calendário deixava de depender de uma autoridade que anunciasse, cada ano, de maneira solene, a data da Páscoa, com as consequentes arbitrariedades e incertezas. Cada igreja, por mais isolada que estivesse, podia assim calcular com precisão quando poderia celebrar a Páscoa. Bastava procurar o primeiro Domingo, depois da primeira lua cheia a seguir ao equinócio de primavera. A lua de Páscoa – lua cheia – era assim, sempre, o dia catorze do mês lunar. A lua nova pascal ocorria entre o 8 de Março e o 5 de Abril, e assim a lua cheia, catorze dias depois, entre 21 de Março e 18 de Abril. Atendendo à possibilidade que os dias 21 de Março ou 18 de Abril fossem Domingo, as datas da Páscoa, iam, e vão todavia, do dia 22 de Março ao 25 de Abril – sendo que o 25 de Abril seria a data da Páscoa sempre que o primeiro Domingo após a primeira lua cheia de primavera acontecesse a 18 de Abril como previamente explicado.

4. O Calendário Gregoriano

Papa Gregório XIII

Os padres do concílio de Niceia (325 d. C.) aperceberam-se certamente que o calendário Juliano não era perfeito. A duração do ano solar era ligeiramente maior que o “tamanho” efectivo do ano, o que levantaria problemas em pouco tempo, uma vez que estes pequenos desfasamentos se iam acumulando. Este “defeito” introduzia um erro de cerca de um dia a cada 133 anos, e bem cedo se levantaram vozes pedindo uma reforma do calendário. No ano 1500, já a soma dos vários erros ia nos 10 dias, demasiado uma vez que o calendário se quereria o mais preciso possível. Era necessário adoptar um valor do ano que fosse o mais aproximado possível ao seu tamanho efectivo. O tamanho dos anos, estipulado nos tempos de Júlio César como tendo 365.25 dias não era suficientemente preciso, e mesmo com os anos bissextos a cada quatro anos o problema não estava resolvido porque mesmo assim havia um erro de um dia a cada 133 anos .
Os concílios da igreja, nomeadamente o de Constança (1414-1418) e Trento (1545-1563), pediram o empenho dos Papas para que corrigissem o calendário. O atraso na correcção não se deveu à negligência dos Papas, mas antes à falta de uma solução priva de ambiguidades e que fosse ao mesmo tempo simples e válida, em sintonia com quanto havia sido determinado pelo concílio de Niceia.
É elucidativa a preocupação expressa pela igreja, em particular nas palavras do Papa Leão XIII no exórdio à carta de motu próprio Ut Mysticam :
«A empurrar os pastores da igreja a procurar o progresso desta ciência e a favorecer os cultores, foi além do mais a possibilidade, que apenas ela oferecia, de estabelecer com certeza em quais dias se devia celebrar as principais solenidades religiosas do mistério cristão. E assim os padres tridentinos, bem sabendo que a reforma do calendário feita por Júlio César não tinha sido perfeita e por isso o cômputo do tempo era alterado, pediram instantemente ao pontífice romano para que, depois de ter consultado expertos na matéria, preparasse uma nova e mais perfeita reforma do calendário.»
A solução apareceu por Pietro Pilati, num tratado publicado em Verona em 1560 que resolvia a questão dos dias “a mais” que surgiam a cada 133 anos. Pois 133 vezes 3 dá 399, ou seja, praticamente 400. E, por isso, a solução passaria, e passa, por subtrair três dias a cada 400 anos: sugeria manter o ano regular de 365, os anos bissextos a cada quatro anos, excepto para os anos que acabavam com dois zeros, a menos que fossem múltiplos de quatrocentos. E este foi apenas o primeiro passo em direcção à reforma do calendário.
Outras mudanças foram operadas de modo a que o calendário fosse o mais preciso possível. Em 1577 o novo calendário com as novas regras foi enviado a todas as autoridades civis da Europa, nomeadamente às academias e universidades. Depois de verificadas as respostas, a comissão para o calendário preparou a bula Papal Inter Gravissimas, que em 1582 decretou a adopção do novo calendário.(Devido ao desfasamento que se foi acumulando no calendário, (dez dias no total) no mês de Outubro de 1582, passou-se do dia 4 de Outubro para o dia 15. Assim o equinócio no calendário, correspondia de facto, e pela primeira vez em séculos, com o equinócio de 21 de Março, o tido em conta, desde Niceia, para a marcação do dia de Páscoa.)

A sala da meridiana, Torre dos Ventos, foi a primeira sede do observatório do Vaticano. Sobre ela diz o Papa Leão XIII aquando da refundação e ampliação do observatório: «Essa torre [Torre dos Ventos ou Gregoriana] existe ainda hoje, e traz ainda a lembrança ilustre do seu munificente autor; nela se encontra a meridiana construída por Inazio Danti Perugino, onde se insere uma mesa redonda de mármore, cujas linhas, sabiamente desenhadas, quando são tocadas pelos raios de Sol que descem do alto, mostram quanto fosse necessário corrigir o velho calendário e quanto a reforma feita seja de acordo com a natureza ».

Este novo calendário, bem mais preciso, não se tratou tanto de uma reforma, mas sim de uma correcção. Para ela contribuiu como nenhum outro o padre Cristóvão Clávio (Jesuíta de origem alemã, encarregado pelo Papa Gregório XIII de orientar os trabalhos que viriam a culminar com o estabelecimento das novas regras do calendário Juliano reformado, que ficou com o nome do seu impulsionador, Gregório. O nome Clavius foi latinizado sendo que originariamente o seu nome é Christoph Clau. O seu nome, de tão proeminente e ilustre que foi para as ciências e para a astronomia, tem uma cratera homónima, na lua: Clavius. Com ele, mais 31 Jesuítas partilham essa honra, e há portanto outras tantas crateras com nomes de jesuítas, que partilham assim lugares com nomes proeminentíssimos como Tycho Brahe, Copernicus, Galileu, Ptolomeu, etc.), professor de matemática no colégio Romano, conhecido pelas suas publicações de Geometria, Aritmética e Astronomia, foi encarregue pelo Papa Gregório XIII de descrever e defender o novo calendário .

Padre Cristóvão Clávio, S.J.

O novo calendário ou o antigo calendário, agora reformado, foi aceite por todos os países católicos de então, com naturais resistências políticas e religiosas nos países protestantes. Assim, só no início do século XVIII a reforma foi aceite por toda a Europa com excepção dos cristãos ortodoxos. Apesar da precisão dos cálculos, haverá o desfasamento de um dia cerca de 3000 anos depois de aplicada a reforma. Por isso mesmo, já se fala na reforma da reforma, ou seja, se o calendário gregoriano mais não é que o calendário juliano reformado, fala-se já de uma reforma do calendário gregoriano, ainda que estejamos a mais de dois milénios da necessidade de alterar seja o que for para que o ano sideral, coincida com o ano civil .

Sendo a festa da Páscoa central no âmbito do calendário litúrgico cristão, todas as festas móveis são associadas à Páscoa, assim:
Domingo de Carnaval (ou Domingo gordo): 7º domingo anterior ou 49 dias antes;
Terça-Feira de Carnaval: 47 dias antes da Páscoa.
Quarta-Feira de Cinzas: 46 dias antes da Páscoa.
Domingo de Ramos: 1º domingo anterior ou 7 dias antes da Páscoa.
Sexta-Feira da Paixão: 2 dias antes da Páscoa.
Domingo do Espírito Santo: 7º domingo posterior ou 49 dias depois da Páscoa.
Santíssima Trindade: 8º domingo posterior ou 56 dias depois da Páscoa.
Corpus Christi (Corpo de Cristo): 60 dias depois da Páscoa, tradicionalmente, e até 2018 por causa da Troika, no domingo sucessivo a essa Quinta-feira. Se continuará depois a ser na quinta-feira ou no domingo sucessivo (e portanto 63 dias depois da Páscoa), terá que ser discutido pelo executivo então em Funções, nunciatura apostólica e conferência episcopal.

Aquando da aprovação da constituição conciliar sobre a sagrada liturgia Sacrossanctum Concilium em Dezembro de 1963, no apêndice, ficou em aberto o estabelecimento de uma data fixa para a Páscoa, e portanto um calendário fixo onde as festas ligadas à Páscoa e a própria celebração da Páscoa fossem em datas fixas, mas nada se determinou desde então.

Espero que tenhais ficado mais esclarecidos sobre os porquês de não se celebrar sempre no mesmo dia a festa da Páscoa, ao contrário do que acontece com as demais festas como o Natal, Todos os Santos, Fieis defuntos, entre outros.

Para saber mais:
Consolmagno, Guy (2009), “L’Infinitamente Grande, L’Astronomia e il Vaticano”, Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.
Máximo Ferreira e Guilherme de Almeida, (2004), “Introdução à Astronomia e às observações astronómicas”, Lisboa: Plátano Editora.
Maffeo, Sabino (2001), “La Specola Vaticana – Nove Papi Una Missione”, Città del Vaticano: Pubblicazioni Della Specola Vaticana.
Carta de motu próprio Ut Mysticam a propósito da refundação e ampliação do observatório do Vaticano de Leão XIII de 14 de Março de 1891, XIV do pontificado.
Casanovas, Juan S.J., “Determinación de la Pascua”, Rivista Liturgica, 2001.
Constituição conciliar Sacrossanctum Concilium sobre a sagrada Liturgia, (1963).