Modos de interação entre ciência e religião | Terceiro Ponto: Cruz

Modos de interação entre ciência e religião

Terceiro Ponto: Cruz

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

A ciência evoluirá enquanto o mundo existir. Por exemplo, só depois de surgir o carbono no universo é que seria possível prever qualquer lei referente à vida que assenta nesse elemento.

A fé aprofundará enquanto o ser humano existir. Se Deus é a realidade-que-tudo-determina, não há qualquer outra realidade que a possa conter e conhecer na totalidade. Haverá sempre algo que fica por conhecer.

Quando em ciência usamos a palavra evolução referimo-nos sempre a qualquer coisa que se transforma no tempo. Quando na nossa linguagem usamos a palavra aprofundamento referimo-nos sempre a qualquer coisa que não se esgota com o aumento da nossa capacidade de conhecer.

O tempo é a dimensão horizontal do conhecimento, enquanto o aprofundamento é a sua dimensão vertical. Daí que tenha, anteriormente, partilhado a perspectiva do diálogo entre ciência e fé como cruciforme.

A cruz expressa, também, algo de novo e perturbador em relação a este diálogo: será uma história interminável. Por isso, essa é a cruz daqueles que dão a sua vida por este diálogo, e como nunca chegarão ao fim, o seu esforço parece ser inglório e perturbador. Por outro lado, os seguem apenas a visão científica do mundo, ou os que seguem apenas uma visão fideísta, não conseguem compreender os que fazem a ponte entre as visões, e criticam-nos por serem mornos e indecisos. De certo modo, perturbam a visão a preto e branco com a cor em infinitas tonalidades. Mas é aí que reside a novidade.

O diálogo abre a visão e impele à transformação interior fazendo de cada questão, ou dúvida, uma oportunidade de evoluir e aprofundar o pensamento. A cruz expressa que a grandiosidade da ponte não está isenta de dor ou sofrimento. Não é fácil compreender a Realidade. Exige esforço, atenção, perda, e a gratificação está longe de ser instantânea.

A cruz é o ponto no diálogo entre ciência e fé que nos liberta do efémero para nos lançar no eterno.

Imagem de Alexey Hulsov por Pixabay