Modos de interação entre ciência e religião | Quarto passo: cultivar

Modos de interação entre ciência e religião

Quarto passo: cultivar

Miguel Oliveira Panão

“Quando anuímos a ser postos em causa na nossa fé, então, permitimos a abertura de um sulco no campo da nossa alma, e neste sulco pode rebentar uma nova semente. Pode aí reflorescer a nossa fé.” (Tomáš Halík e Anselm Grün, “O Abandono de Deus”, Paulinas, 2016)

Mergulhei fundo no vazio de Jesus abandonado na cruz para reconhecer n’Ele a pupila do olho de Deus que inverte o modo como vemos as coisas. Mas será que vemos bem? Não é possível procurar uma visão do todo sem nos mantermos na procura e a razão é relativamente simples.

Conhecem aquela pessoa que olhando nos seus olhos não podemos deixar de dizer – “que profundidade naquele olhar.” Profundidade. Um sulco para colocar uma semente é bom, mas não basta. Pois, entrando na pupila, a realidade de Deus não se reduz a um ponto, mas abre um horizonte. A terra vasta da humanidade, qual terreno para semear aquilo que nos torna, cada vez mais e melhor, o ser humano que deveríamos ser. Ou, pelo menos, é isso que pensamos, mas não será antes o inverso?

Quem coloca em causa a nossa fé, e suscita-nos dúvidas, cava um sulco em nós e, embora pensemos ser o portador da semente, acabam os outros por ser para nós uma semente. Mas não os outros por eles mesmos, e sim Deus que está também no outro. Sim, enquanto adiarmos o desenvolvimento da capacidade de ver Deus em cada ser humano, adiamos aquilo que Deus pode fazer em nós.

É este o quarto passo no caminho da descoberta da Realidade-que-tudo-determina: aprender a ver naquele que me interpela com a sua vida, Deus que me ama imensamente.

Blog & Autor