Modos de interação entre ciência e religião | Primeiro Ponto: Níveis

Modos de interação entre ciência e religião

Primeiro Ponto: Níveis

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

Quando desconhecemos o terreno por onde caminhamos, ou tropeçamos, ou caímos, ou voltamos para trás e regredimos. O primeiro ponto serve para abrir a mente ao diálogo entre a ciência e a fé.

O que responderiam se vos perguntasse: por que razão ferve a água num jarro elétrico?

Como professor de transmissão de calor responderia que a água ferve por lhe fornecer energia através de uma resistência eléctrica, aumentando a sua temperatura. Quando essa atinge o ponto de ebulição, começa a mudar da fase líquida para a fase gasosa, formando bolhas que me indicam ter começado a ferver. Expliquei?

Mas e se dissesse que a água ferve por querer fazer chá? Expliquei?

Ambas são razões que respondem à minha pergunta. Não competem entre si, mas exprimem algo sobre a realidade e aí está o grande valor de questões simples como esta.

A realidade é uma só, mas existem múltiplos níveis de interpretação. Uns exprimem conhecimento científico, outros uma intenção, como no caso do chá. Quando reduzimos todos os (infinitos) níveis a um só, ou a uns poucos, encontramos contradições.

Pensem num fotão. É uma partícula ou uma onda?

Uma partícula interage de um modo completamente diferente de uma onda, mas a experiência mostrou que um fotão é capaz de interagir com um electrão através daquilo que Einstein chamou de efeito fotoelétrico. E se fizermos passar um feixe de fotões por uma fenda, obtemos um padrão de difracção com traços luminosos, mais intensos no centro e que, gradualmente, desaparecem na direcção da periferia. Um comportamento típico de uma onda. Ao nível de interpretação clássica da continuidade da matéria, estas características e comportamento dos fotões entram em contradição.

A solução para esta dualidade onda-partícula surgiu apenas quando se introduziu a noção de quantum, o menor valor que certas grandezas físicas podem apresentar, ou seja, uma interpretação com base na descontinuidade da matéria. O quantum foi o “terceiro incluído” ao nível de interpretação da descontinuidade da matéria que permitiu entender não haver qualquer contradição entre ser onda ou partícula, a não ser que reduzamos a compreensão do mundo à continuidade da matéria.

Este níveis de interpretação são um ponto de abertura no diálogo entre disciplinas que parecem contraditórias. Por muito que nos pareça estranho, a séria e tremenda implicação deste ponto é a de não haver contradições na realidade. Basta encontrar o “terceiro incluído” a um nível de interpretação diferente.

Imagem de PIRO4D por Pixabay