Modos de interação entre ciência e religião | Décimo passo: Deter-se

Modos de interação entre ciência e religião

Décimo passo: Deter-se

Miguel Oliveira Panão

Blog & Autor

“O ser humano que se admira é curioso, quer investigar e compreender o que o assombra. Mas, na sua tentativa de compreender, também, experimentará sempre nova admiração e deter-se-á perante novos mistérios.”, (Adaptado de Tomáš Halík e Anselm Grün, “O Abandono de Deus”, Paulinas, 2016)

 

Não teríamos evoluído sem curiosidade. Essa é o berço da aprendizagem que nos permite ir para além de nós próprios. Quando a dúvida surge em nós, e se estamos no caminho de descoberta da Realidade-que-tudo-determina, não é a desconfiança que encontra espaço no pensamento, mas a curiosidade. O querer saber mais serve apenas para compreender melhor e viver com mais sentido e significado.

Enquanto saber alguma coisa é relativamente acessível no mundo moderno e tecnológico, compreender exige interpretação e nem sempre estamos cientes da chave correcta que abre a porta do entendimento. Por isso, é normal sentirmos a dificuldade de não entender logo, de levar tempo para entender. Se a dúvida despertou a curiosidade, o entendimento desperta a humildade. Pois, não é fácil aceitar não compreendermos o que está diante de nós. É o Mistério.

A Realidade-que-tudo-determina só é apreendida e transforma a nossa vida se acolhermos humildemente o modo como essa se revela. O desafio é o de que tal revelação está sempre envolta num véu de Mistério, uma realidade escondida. Daí que o convite seja simples, embora pouco evidente.

Deter-se.

Deter-se não implica não evoluir. Muito pelo contrário. Deter-se permite dar tempo para aprofundar e deixar que o Mistério actue em nós. Não deixa de ser curioso e, aparentemente paradoxal, como o décimo passo nos convida a deter e desfrutar do tempo para continuar este caminho de descoberta da Realidade-que-tudo-determina.