Misericórdia faz-se visita – 1 – ‘Visita: um diálogo de verdade’

MISERICÓRDIA FAZ-SE VISITA

Pe. Georgino Rocha

VISITA: UM DIÁLOGO DE VERDADE 

O relato da criação faz-nos ver, em estilo sóbrio e atraente, que Deus visita os primeiros seres humanos, Adão e Eva, enquanto “passeava no jardim à brisa do dia” (Gn 3, 8). Visita e fala com eles em diálogo de verdade, levando-os a reconhecer quem são e a assumir a sua nova situação. Faz-lhes ver o seu engano ao tentarem satisfazer a aspiração da vida (serem iguais a Ele), seduzidos por vozes estranhas (as da serpente) e dá-lhes garantias de que era possível a recuperação, a regeneração integral apesar da ferida aberta ir cicatrizando.

A singeleza do relato manifesta a realidade constitutiva de cada ser humano dotado de enormes capacidades e fragilidades, aberto à relação com os demais e tentado a fugir e a isolar-se no esconderijo individualista, propenso à saída de si para ir ao encontro do outro e lhe falar como ao seu semelhante. Esta realidade põe a claro uma outra dimensão: a do acolhimento e sintonia, do envolvimento recíproco e da evolução na relação, a do acompanhamento amigo. Espelha assim a nossa humanidade comum, chamada a ser peregrina de si mesma, a aceitar-se como companheira de percursos e surpresas, a visitar-se e partilhar alegrias e penas, esperanças e desilusões.

Há uma “infinidade” de visitas: umas reais, outras virtuais; umas feitas a pessoas conhecidas e amigas, em ocasiões festivas ou em situações específicas como os doentes ou os presos, outras a locais sagrados e turísticos; umas percorrendo os caminhos memoráveis da história, outras desvendando as sendas do futuro; umas ao mundo interior de si mesmo, outras indo às “periferias” existenciais e acompanhando quem nelas está envolvido. Escolho apenas algumas que considero significativas para desenvolver, ainda que brevemente, na Comissão da Cultura da nossa Diocese de Aveiro.