Igreja perdeu «criatividade cultural» mas «recuperou o seu lugar no mundo da ciência e da razão», afirma José Mattoso

Notícia e fotografia recolhidas do SNPC

O historiador José Mattoso afirmou, neste sábado, que a Igreja dos séculos XIX e XX em Portugal refugiou-se «à sombra do poder constituído», e, «enfraquecida pela perda dos seus bens e pela debilidade do seu pensamento racional, perdeu o sentido da criatividade cultural».

«Hoje, porém, graças à reflexão teológica, à crítica exegética e ao verdadeiro conhecimento do passado, recuperou o seu lugar no mundo da ciência e da razão», declarou ao receber, em Fátima, o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes 2019, atribuído pela Igreja católica.

Acompanhado por membros da sua família, José Mattoso começou por se manifestar «muito honrado» por o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura lhe ter atribuído a distinção, associando-o «a um conjunto de personalidades que têm feito da fé cristã o fundamento da sua obra cultural».

«Em vez de oporem a fé à racionalidade, inspiram-se nela para produzir cultura. Houve tempos e lugares em que esta associação se considerava impossível. A fé opunha-se à ciência, à razão e à cultura. Hoje o diálogo tornou-se pacífico, e a crença é, para muitos, fonte verdadeira de inspiração cultura, afirmou.

No passado, lembrou, «a obsessão uniformizadora do catolicismo quinhentista e seiscentista persistiu durante os séculos seguintes, e levou, por exemplo, a proibir a leitura de Erasmo, a condenar Copérnico, criar a Inquisição, a legitimar a tortura, a fazer abortar os primeiros ensaios do Liberalismo Católico.

José Mattoso evocou o P. Manuel Antunes «como modelo da conciliação da fé com a cultura», ao contribuir «para dissipar a agressividade anticlerical, e restituir à Igreja um lugar importante na promoção da cultura», através da docência na Faculdade de Letras de Lisboa, «como incansável redator da revista Brotéria, e como autor de uma vasta obra filosófica onde mostrou a independência do seu pensamento político».

«A sua obra permanece ainda hoje como um marco fundamental na história da cultura portuguesa. Foi, efetivamente, um criador de cultura, na mais vasta aceção do termo. Merece bem ser modelo da promoção da cultura cristã em todos os seus domínios», destacou na intervenção, que pode ser lida na íntegra (cf. Artigos relacionados).

Todas as personalidades distinguidas com o Prémio patrocinado pela Renascença «souberam conciliar a inspiração artística ou a competência científica com o vigor da ação social», constituindo um conjunto «bem diferente do que dominou uma época, felizmente já passada, em que a opinião pública corrente contestava a legitimidade de uma fé racional».

Depois de referir que a Pastoral da Cultura deve «incentivar a atual renovação» da historiografia eclesiástica portuguesa, José Mattoso afirmou que se atravessa hoje «uma época de reformas».

«Creio que temos alguma coisa a aprender com a História, sobretudo com a história da espiritualidade e das ordens religiosas. Tal como no século XV, procuramos conciliar a pluralidade das iniciativas e experiências, com a necessária firmeza e unidade da Igreja. Creio que só um pluralismo de raiz evangélica, fruto da Palavra única de Jesus Cristo, pode conciliar a imensidade e a multiplicidade das suas incarnações, no tempo e no espaço», apontou.

O legado das investigações de José Mattoso no campo da época medieval foi confiado «a um pequeno grupo de jovens empreendedores integrados no Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova em colaboração com o Centro de Estudos de História Religiosa».

Rui Jorge Martins
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Publicado em 01.06.2019