I Domingo da Quaresma (Ano B)

I Domingo da Quaresma (Ano B)

Pe. Franclim Pacheco

Breve comentário

O texto do 1º Domingo da Quaresma apresenta-nos dois quadros: a tentação de Jesus e o início do seu ministério.

Na primeira parte, apesar da sua brevidade, comparando com Mateus ou Lucas, o texto, mais do que uma apresentação de acontecimentos concretos, é uma verdadeira catequese, cheia de símbolos que devemos entender para descobrir a mensagem proposta.

A tentação está intimamente ligada ao baptismo de Jesus. a cena do Baptismo (Mc 1,9-11) temos a manifestação do Pai a mostrar que Jesus é Filho de Deus. Na referência à tentação (Mc 1,12-13) temos a manifestação dos anjos e demónio, mostrando-nos que Jesus é verdadeiro homem, pela tentação do pecado.

O mesmo Espírito, que desceu sobre Jesus para o consagrar para a missão que está para iniciar, e que outrora conduziu o povo de Israel através do deserto para o pôr à prova, agora impele-o para o deserto onde é tentado, isto é, posto à prova.

Por deserto entende-se o deserto da Judeia, entre Jerusalém e Belém, Jordão e Mar Morto. Porém, o deserto, na Bíblia, tem 2 dimensões: é o lugar povoado por espíritos malignos, onde o homem tem medo de passar, o lugar da luta interior. Mas também é o lugar do encontro com Deus, do convívio interior com Deus. Deus revela-se face a face com o homem no deserto do Sinai: assim Israel encontrou o Senhor; mas também foi no deserto que foi tentado a escolher caminhos contrários aos de Deus.

Logo no início da sua missão Jesus, ao mesmo tempo que se encontra com Deus para discernir os seus projectos, é também tentado a escolher o seu próprio caminho, isto é, a abandonar Aquele que apresentou como Pai: «Tu és meu filho…».

Marcos diz-nos que Jesus foi tentado durante 40 dias. 40 é um número sagrado, de plenitude, simbólico (é 10, número da perfeição com a multiplicação por 4, ou seja, o número dos pontos cardeais). A Sagrada Escritura reconhece o valor sagrado deste número: 40 dias durou o dilúvio; 40 dias demoraram os israelitas a atravessar o deserto do Egipto até ao monte Sinai; 40 dias esteve Moisés no alto do Sinai face a face com Deus; 40 anos demorou o povo a chegar à terra prometida; 40 dias demorou Elias a ir da Palestina até ao Horeb.

Marcos não diz em que consiste a tentação, mas o facto de afirmá-lo, em atribuí-la a Satanás, mostra que Jesus teve que enfrentar as forças do mal logo desde o início da sua vida pública e depois ao longo dela. A palavra «satanás» significa «adversário». É aquele que vai tentar levar Jesus a esquecer os planos de Deus e a fazer escolhas pessoais, que estejam em contradição com os projectos do Pai, enveredando pelo caminho do messianismo político e não por um messianismo marcado pelo amor, pelo serviço simples e humilde, pelo dom da vida.

A presença das feras e dos anjos foi vista logo nos primeiros séculos do cristianismo como um paralelismo Cristo/Adão. Com Jesus, chegou esse tempo messiânico de paz sem fim, chegou o tempo de o mundo regressar à harmonia que era o plano inicial de Deus. Adão cedeu à tentação de escolher caminhos contrários aos de Deus e criou inimizade, violência, conflito, escravidão, sofrimento; Jesus escolheu viver na mais completa fidelidade aos projectos de Deus e fez nascer um mundo novo, de harmonia, de paz, de amor, de felicidade sem fim.

O serviço dos anjos também nos leva ao paraíso, mas dum modo contrário. Para o homem pecador, os anjos têm um papel de castigar o homem tentado; agora ajudam o homem tentado, mas vencedor. Cristo, tentado mas vencedor, servido pelos anjos, é uma garantia de salvação. Aquele que abre as portas de acesso ao paraíso. «Jesus saiu a pregar o reino de Deus», que é a hipótese de regresso ao paraíso da felicidade eterna.

Cumpriu-se o tempo…». O «tempo» (em grego, kairos) chegou ao ao seu termo, à sua plenitude, ou seja, ao momento fixado por Deus para a vinda do seu Reino, o qual – diz Jesus – está já está próximo.

Há duas condições para entrar neste processo do Reino: Arrepender-se (metanoía) e acreditar. Arrepender-se significa arrepiar caminho, mudar o rumo para se voltar (converter) para Deus. A conversão é uma mudança radical. Deve mudar a atitude interior e a conduta exterior. Converter-se é voltar-se para Deus em atitude de obediência e acolher com alegria a sua soberania. O Evangelho é a possibilidade de experimentar alegremente a soberania de Deus na própria vida.

E é preciso acreditar, não apenas em verdades, mas n’Aquele que é a Verdade, o anunciador e o próprio Evangelho. Acreditar é confiar em Jesus Cristo que vem como resposta às nossas interrogações.  Para quem aceita estas duas condições, o Reino oferecido de graça, como dom, sendo para ele realmente uma Boa Nova.