Fitas queimadas…

Fitas queimadas…

Walter Osswald (Texto)

Esta época é marcada pelas festas académicas, que sob designações várias assinalam a (previsível) conclusão do curso superior e a passagem de ano (igualmente previsível) dos estudantes dos anos anteriores. Queimam uns as fitas e ornamentam-se com cartolas; outros orgulham-se de estrear as fitas, enquanto, mais atrasados, contentam-se com o grelo ou com o simples facto de deixarem de ser caloiros os que mais recentemente encararam os atractivos e os escolhos da vida académica. Predomina pois a alegria de quem vê chegar o término de uma longa e trabalhosa fase da vida e a esperança de uma nova aventura, a da vida profissional e quiçá da realização afectiva, da fundação de uma nova família – sentimentos e expectativas dos finalistas, antecipações por parte dos que ainda não atingiram esse grau do Parnaso. Já desde o século XIII que os estudantes germânicos entoam o hino jubiloso (agora também popularizado entre nós) Gaudeamus igitur , alegremo-nos porque somos jovens e enquanto o somos…

Festa da alegria, da esperança, da juventude, justificada e acarinhada, mesmo por aqueles para quem os festejos académicos são longínqua memória ou até inexistente acontecimento. Festa tolerada com benévolo acolhimento pelo cidadão prejudicado ou incomodado na sua rotina e no seu trabalho diário pelo engarrafamento produzido pelos cortejos ou pelas ruidosas manifestações noturnas, amplificadas por potente aparelhagem. Festa é festa, eles são jovens, aproveitem que amanhã vai ser a sério, despeçam-se, sejam irreverentes, divirtam-se, também já fomos jovens. Tudo bem, mas…

A adversativa, justificam os que a pronunciam (em geral a medo, por recearem ser classificados de velhos do Restelo ou de botas de elástico) é que não seria necessário exagerar tanto (na duração e na programação – uma semana inteira, as festas com consumo brutal de álcool, a poluição do ambiente (latas, garrafas, restos de comida, a grosseria e obscenidade de dísticos, canções e caricaturas). Mais ainda, rejeita-se que haja, como há, dezenas de situações a exigir recurso às urgências hospitalares, em regra por intoxicação alcoólica, mas também por desidratação e/ou consumo de psico-estimulantes e outras drogas. Registe-se ainda o vandalismo endémico e o furto, p. ex. de carrinhos de compra de supermercados.

Acresce ainda a abjecta comercialização da festa, que pode movimentar enorme fluxo financeiro: aí estão os patrocinadores, a fornecerem cerveja e bandas, rock and roll e pimba, subsídios e descontos, num frenesim que só espíritos angélicos poderão entender como motivado por alevantado espírito mecenático.

Há sinais de que se vai formando uma mentalidade que almeja a festa académica isenta destes males, que a desfeiam e até a inviabilizam para alguns dos participantes (p. ex. os que entram na urgência em coma alcoólico). Parece-nos urgente que a sociedade dita civil reforce estas intenções, as acolha e difunda a sua prática, para que a festa seja realmente uma festa para todos os que nela participam e para todos os que, de uma forma ou outra, partilham a alegria e a esperança que animam os jovens. Só assim se justificará que, como no vetusto hino académico, nos alegremos enquanto e porque somos jovens, sem esquecer que a mesma quadra nos faz deparar com o fim da vida: alegrem-se os jovens, porque o são e porque um dia morrerão.