Entrevista | Monsenhor João Gaspar: Historiador da Diocese de Aveiro

Entrevista conduzida por Cardoso Ferreira | Correio do Vouga

 

Sócio da Academia Portuguesa de História, monsenhor João Gonçalves Gaspar é o grande investigador e divulgador da história e da arte sacra da Diocese de Aveiro, e também de Eixo, terra onde nasceu no ano de 1929.

CORREIO DO VOUGA – Como surgiu a vocação para ser padre?

JOÃO GONÇALVES GASPAR – Ainda não tinha três anos quando, um dia, em casa do meu pai, estava este e um amigo nosso, mais velho do que o meu pai talvez mais de 20 anos, ambos chamados Manuel. Estavam a provar o vinho, cada um com o seu copo. O meu pai disse: “Manuel, à sua saúde”, e o amigo respondeu: “Manuel, à tua saúde e para que este menino seja padre”. Nunca mais me esqueci. Nunca tive dúvidas que era aquilo que eu queria ser, e que essa era a vontade de Deus a meu respeito. Em 1951, quando andava no segundo ano de teologia, o da decisão final, mesmo não tendo dúvidas, ajudou-me muito a biografia do padre São Maximiniano Kolbe, numa edição em francês, padre que ofereceu a sua vida em troca da de um outro condenado à morte, no campo de concentração de Auschwitz, facto ocorrido em 1941. Confiei na Virgem Maria e, claro, na graça de Deus, e avancei. E cá estou. Nunca tive dúvidas e posso dizer que sempre fui feliz.

Após o curso, de Eixo passou logo para Aveiro, ou paroquiou por outras terras?

Nunca paroquiei, apesar de ser isso que eu queria. Queria estar no meio do povo, embora também esteja no meio do povo nas funções que desempenho. Durante cerca de 10 ou 12 meses tive a orientação das freguesias do Préstimo e de Macieira de Alcoba como diácono, o que para mim foi uma grande alegria.

Como se deu a vinda para o paço episcopal?

Ainda eu não estava ordenado, vivia aqui (no paço episcopal) o senhor arcebispo, D. João Evangelista de Lima Vidal, e como os parentes dele, por parte da mãe, eram todos de Eixo, ele ia lá passar férias. Como nessa altura, eu ainda seminarista, já o acompanhava nos passeios que ele fazia a pé por Eixo, ele trouxe-me para cá mesmo antes de eu estar ordenado. Mais tarde, eu quis sair e ir para uma paróquia, e fiz duas tentativas. Estava cá D. Domingos, então como bispo auxiliar, e quando eu lhe disse isso, perguntou-me: “Não tem pena do senhor arcebispo?”, e eu fique vencido. Depois, quando veio o senhor D. Manuel, voltei a pedir para sair, e ele perguntou: “Quem me há de ensinar os caminhos da Diocese?”. Foi tudo assim. Depois, foram 28 anos de vigário-geral que me deram muito trabalho e cansaço, mas andava de terra em terra. Com isso, fiquei a ser mais conhecido do que ser eu a conhecer as pessoas.

Com todo esse serviço no paço, ficou a conhecer muito bem todos os bispos da diocese, após o restauro desta.

Conheci-os todos. Primeiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, que foi bispo da diocese desde 1938 a 1958. Depois, D. Domingos da Apresentação Fernandes, que foi bispo da diocese de 1958 a 1962. De seguida, D. Manuel de Almeida Trindade, bispo da diocese de 1962 a 1988, ao qual se seguiu D. António Marcelino, com quem convivi e colaborei como vigário-geral. Depois, da mesma forma, com D. António Francisco, e, finalmente, cá estou com D. António Moiteiro. Agora, a minha idade já não permite ocupar tantas funções no governo da Diocese.

Sendo padre, como surgiu esse seu gosto pela história e pela investigação histórica?

Foi preciso pôr em ordem o arquivo da Diocese. Então vi que podia compilar os principais acontecimentos, desde 1938 até à altura em que escrevi esse primeiro livro sobre a história da Diocese de Aveiro. Depois, pensei em fazer o mesmo sobre a primeira Diocese de Aveiro e, então, segui diretamente com a história da velha diocese, de 1774 a 1882. A seguir, como havia tanta coisa sobre o processo da restauração da diocese, achei que devia escrever sobre esse interregno entre 1882 e 1938. Foi assim que surgiu a minha vocação pela história. Como o tinha conhecido bem, resolvi escrever a biografia do primeiro bispo de Aveiro – “D. João Evangelista de Lima Vidal no seu tempo” – baseando-me no muito que há no seu arquivo pessoal. De seguida, escrevi sobre Santa Joana, que me encanta desde os meus 10 anos de idade, altura em que, vindo de Eixo, numa excursão da escola primária a Aveiro, visitei o Museu. Quando chegámos ao túmulo de Santa Joana, o nosso professor, João de Pinho Brandão, pai do António Neto Brandão e de outros mais, e avô do Carlos Filipe, disse-nos para rezar, porque “está aqui o túmulo de uma santa”. Parámos, mas eu se calhar estive mais tempo a olhar para o túmulo do que a rezar, porque o achei maravilhoso e pensei: “Aqui deve estar uma pessoa muito importante para ter um túmulo destes”. Com o que investiguei sobre Santa Joana publiquei o livro “A Princesa Santa Joana na sua época”.  Depois desses, foram vários os livros que fui escrevendo.

Entretanto, também escreveu um livro sobre a história de Eixo, a sua terra natal…

Isso é curioso. Eu tinha escrito o livro “Aveiro na História” e então os meus conterrâneos diziam que eu só me interessava por Aveiro e nada de Eixo. No ano seguinte, escrevi “Eixo na História”. Os dois livros são diferentes no estilo. O “Aveiro na História” alude a personalidades e acontecimentos ao longo dos séculos, o “Eixo na História” é como que um calendário, de ano a ano. O Dr. António Cristo também tinha publicado o “Calendário Histórico de Aveiro”, só sobre um semestre, livro que depois eu acrescentei muitas coisas a esse escrito original, estando os meus textos e os dele devidamente referenciados, e juntei os acontecimentos referentes ao segundo semestre.

Uma dessas personalidades foi Fernão de Oliveira, biografia que escreveu e que também apresentou na sua terra natal.

O Fernão de Oliveira é tido como sendo natural de Aveiro, o que não é. Em certa altura, tive conhecimento que na Universidade de Leiden, na Holanda, está um manuscrito de Fernão de Oliveira, em latim. Fernão de Oliveira exilou-se para Paris, estando na Universidade de Paris o seu espólio, mas há um seu manuscrito que está na biblioteca da Universidade de Leiden, no qual, logo numa das primeiras páginas se pode ler, traduzindo para português: “Aveiro é a terra onde me geraram os meus pais, mas os primeiros vagidos foram em Santa Columba”, que é a padroeira do Couto do Mosteiro do concelho de Santa Comba Dão, dizendo ele ainda que nasceu “no lugar da Gestosa”. Pensei que se ele foi gerado em Aveiro e se nasceu na Gestosa, na freguesia de Couto do Mosteiro, seria interessante, e justo, que o meu livro não apenas fosse apresentado em Aveiro, mas também em Couto do Mosteiro. A população, e também a Câmara Municipal de Santa Comba Dão ficaram muito contentes por o primeiro gramático português ter nascido lá. É preciso pensar que Fernão de Oliveira é um humanista e para ele, como para nós, a vida começa no seio materno, como ele reconhece logo no primeiro verso desse manuscrito, que é em poesia, ao dizer que a sua vida começou em Aveiro, onde foi gerado, mas nasceu em Gestosa.

 

A formação de latim que teve ajudou-o nessa vertente de história?

Há documentos antigos em latim, mas aqueles que mais me interessavam para os meus trabalhos eram escritos já em português. Consultei muitos na Torre do Tombo e no arquivo da Universidade de Coimbra e, também, alguma coisa em Aveiro, mas sobretudo naqueles dois primeiros arquivos.

Esse seu gosto pela história acabou por ser reconhecido a nível nacional, ao ser convidado para sócio da Academia Portuguesa da História.

Fui. Por convite do dr. António Pedro Vicente, senhor que ainda é vivo, que é filho de Arlindo Vicente, que era do Troviscal e que foi candidato a presidente da República contra Américo Tomás. António Pedro Vicente vive em Lisboa, mas tinha oferecido o espólio dele, e de Arlindo Vicente, à Câmara Municipal de Aveiro, que o aceitou, que seria para constituir o Museu da República, parte desse espólio já tinha estado exposto em Aveiro. Mais tarde, a Câmara de Aveiro recusou esse espólio e, numa reunião com o vereador da Cultura, eu defendi a permanência desse espólio em Aveiro, porque é valioso para a história de Portugal.

Durante vários anos esteve ligado a comissões de arte e de cultura da Câmara Municipal de Aveiro.

Eu era assessor cultural, assessoria que tinha diversas funções: Comissão de Arte, Comissão Cultural e o Boletim Municipal de Aveiro, o qual terminou pouco depois de eu ter deixado essas funções, revista que tem muita coisa de história, porque a usei também para isso, com artigos de muita gente. Saiu talvez durante dez anos, e publicava-se duas por ano.

Publicou um livro, chamado “A Igreja e a Arte – De Roma, pela Europa, até Aveiro”, sobre os conceitos de arquitetura e arte sacra pós concílio Vaticano II.

Ainda estou na Comissão de Arte e Bens Patrimoniais e Culturais da Diocese. De facto, acompanhei e dei as minhas opiniões em obras realizadas em muitas igrejas a seguir ao Vaticano II, porque era preciso adaptar algumas coisas. Tive também muito preocupação com a necessidade de se preservar a arte, nomeadamente o ouro das talhas, que muitas vezes é retirado e substituído por purpurina, uma imitação de ouro. Nesses casos, mais valia que se fizesse só uma operação de conservação da talha e não de “restauro”. É um “crime” pôr-se flores junto da madeira dos altares de talha, porque a humidade das flores vai apodrecendo a madeira.

Muitos vão falando na necessidade de se criar um Museu Diocesano de Arte Sacra… 

Isso é muito sensível. As paróquias e as comissões das paróquias preferem pequenos museus paroquiais, porque as imagens, os objetos e outros utensílios ficam nas paróquias e as pessoas podem ver as suas coisas. Pode haver um espaço diocesano onde ocorram exposições temporárias, em que as peças venham das paróquias e depois regressem. Nós ouvimos os párocos e outras pessoas, e eles dizem isso mesmo. Por exemplo, em Eixo dizem: “O quê? Saírem daqui estas coisas em prata ou a imagem de Santo Isidoro, do século XV? Não. Isto é nosso”. Isto é logo o que ouvimos. Numa das salas laterais da igreja matriz de Eixo há um minimuseu.

Como já há em algumas paróquias, nomeadamente em Fermentelos, na igreja de Nossa Senhora da Apresentação, aqui em Aveiro, entre outras…

A sé também pensou isso, mas não se fez quando das obras. Eu acho interessante um “museu” com exposições temporárias, como aquela exposição ocorrida há alguns anos, onde estiveram expostas algumas das melhores obras existentes em cada uma das paróquias. Nós temos imagens do século XIII, finais do românico, temos muitas dos séculos XIV e XV, do gótico, temos algumas do século XVII, muitas do século XVIII. Tudo isso é uma riqueza que é preciso acautelar. Numa paróquia que tem coisas do século XVIII, tem pelo menos uma imagem do século XVII e, pelo menos uma imagem, em pedra, do século XV, vi esta imagem em pedra repintada. Estragaram-na. Lembro-me de numa certa capela, dedicada a S. Tomé, uma imagem do século XVII, ainda com uns restos de pinturas desse tempo, também ter sido repintada, retirando-lhe pelos menos 90% do seu valor histórico. Felizmente, depois da minha visita a essa capela, ainda foi possível retirar essa tinta que lhe tinham aplicado e agora lá está a imagem com os restos de tinta antiga e muito limpa. Em vez de restauro, mais valia fazerem trabalhos de conservação: limpar do fumo, do pó e das marcas do tempo, e pôr a imagem o mais próximo do original, mesmo que tenha alguns defeitos, mas estes indicam que também tem história. O meu interesse pela História também está muito ligado ao meu interesse pela Arte.