Rua da Saudade | José Rui Teixeira – O mais belo livro

Artigo e foto recolhidos do SNPC

O mais belo livro

Em 2020, celebra-se o centenário da primeira edição de Clepsidra, de Camilo Pessanha.

Resultado da ação de Ana de Castro Osório e do seu filho, João, então com 17 anos, mas já fascinado com a figura do poeta e «o seu impressionante, misterioso, estranho modo de dizer».

Durante a sua última estada em Lisboa, entre setembro de 1915 e março de 1916, Camilo Pessanha frequentou assiduamente a casa dos Osórios. Nos jantares e serões que aí aconteciam todas as semanas, amadureceu a ideia da publicação de Clepsidra, que Ana de Castro Osório publicou na sua própria editora: Lusitânia.

Sem a insistência e o estímulo destes amigos fiéis, dificilmente existiria esta primeira edição de Clepsidra: sem ornatos nem quaisquer comentários ou referências, sem cólofon; um exercício de sobriedade.

D.R.
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Em julho de 1914, mês em que eclode a Primeira Guerra Mundial, Mário de Sá-Carneiro tem 24 anos; tinham já sido publicados os livros Dispersão e A Confissão de Lúcio. No dia 13 desse mês, o jornal República imprime a resposta do jovem poeta a um inquérito sobre o mais belo livro «dos últimos trinta anos». Mário de Sá-Carneiro escolheria aquele que, no seu entendimento, era o mais belo livro português publicado entre 1884 e 1914.Mesmo que se circunscrevesse à poesia, não lhe faltavam opções: Gomes Leal tinha publicado Claridades do Sul, em 1885; no ano seguinte, foram impressos os Sonetos Completos de Antero de Quental e, em 1887, Silva Pinto publicou O Livro de Cesário VerdeOaristos, de Eugénio de Castro, foi impresso em 1890, dois anos antes da edição do , de António Nobre; Fel, de José Duro, data de 1898, o mesmo ano da publicação d’O Jardim da Morte, de Júlio Brandão. Em 1914, poetas como Teixeira de Pascoaes e João Lúcio tinham já publicado parte significativa das suas obras.

Eis a resposta de Sá-Carneiro:

«À minha vibração emocional, a melhor obra de Arte-escrita dos últimos trinta anos (que a Arte timbra-se para os nervos a vibrarem e não para a inteligência medi-la em lucidez) é um livro que não está publicado – seria com efeito aquele, imperial, que reunisse os poemas inéditos de Camilo Pessanha, o grande ritmista. Ouvindo pela primeira vez dos seus versos, fustigou-me sem dúvida uma das impressões maiores, mais intensas a Ouro e gloriosas de Alma, da minha ânsia de Artista. Rodopiantes de Novo, astrais de Subtileza os seus poemas engastam mágicas pedrarias que transmudam cores e músicas, estilizando-as em ritmos de sortilégio – cadências misteriosas, leoninas miragens, oscilantes de vago, incertas de Íris. Pompa heráldica, sombra de cristal zebradamente roçagando cetim…

No entanto, para falar de obras impressas, citarei como preferidas o  de António Nobre, nas suas ternuras de pajem, saudades de luar, febres esguias – e ainda, frisantemente, o livro futurista de Cesário Verde, ondulante de certo, intenso de Europa, zig-zagueante de Esforço».

Apesar de ser notável que Mário de Sá-Carneiro tenha escolhido o  de António Nobre e O Livro de Cesário Verde, estas escolhas não deixam de ser previsíveis se tivermos em consideração o que tanto Cesário Verde como António Nobre representaram para os poetas do princípio do século XX, independentemente da pluralidade de tendências literárias que emergiram nesse contexto histórico-cultural.

Curiosamente, se as primeiras edições tiveram tiragens limitadas, as segundas edições destes livros tiveram um grande impacto: em 1898 foram impressos três mil exemplares do  e, em 1901, 700 exemplares d’O Livro de Cesário Verde. Em 1914, quando Mário de Sá-Carneiro escolhe estes como os dois mais belos livros publicados em Portugal desde 1884, já tinham sido impressas as suas terceiras edições.

Significativamente improvável é a escolha desse outro livro – «imperial» – que não estava ainda publicado: um livro que reunisse os poemas inéditos de Camilo Pessanha.

Mário de Sá-Carneiro põe fim à sua vida em abril de 1916, alguns meses antes da publicação [em dezembro desse mesmo ano] de 16 poemas de Camilo Pessanha no primeiro e único número de Centauro. Ou seja: Mário de Sá-Carneiro, em 1914, apesar de ter uma visão fragmentária da poesia de Camilo Pessanha, não hesita em considerar o seu livro [seis anos antes da sua impressão] o mais belo dos últimos trinta anos.

Em 2020, celebra-se o centenário da primeira edição de Clepsidra, de Camilo Pessanha. Recordá-lo, à luz da intuição de Mário de Sá-Carneiro, dissipa as sombras, comove os silêncios e embrandece os dias.

 

Post-scriptum
O fascínio que Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa partilhavam por Camilo Pessanha é testemunhado numa carta de 13 de dezembro de 1912. De Paris, Sá-Carneiro escreve a Pessoa: «Rogava-lhe encarecidamente que me enviasse, para mostrar ao Santa-Rita, os “Violoncelos” do Pessanha e o soneto sobre a mãe – e mesmo mais alguns se para isso estivesse. Era um favor que muito lhe agradecia. Tem apanhado mais versos dele?».
A primeira edição d’O Livro de Cesário Verde, impressa em Lisboa, em 1887, teve uma tiragem de 200 exemplares. A segunda edição: Lisboa, Manuel Gomes, Editor, 1901. A terceira edição seria impressa em 1911 e, a 4.ª, em 1919.
A primeira edição do  de António Nobre, impressa em Paris, em 1892, teve uma tiragem de 230 exemplares. A segunda edição: Lisboa, Guillard Aillaud & C.ª, 1898. Como a família se opunha à sua reedição, a procura de exemplares desta segunda edição inflacionou drasticamente o preço do livro. Em 1913, a Livraria Aillaud e a Renascença Portuguesa reeditaram-no. Em 1921 é impressa a quarta edição. Venderam-se cerca de vinte mil exemplares do  até 1930.
João de Castro Osório organizaria a segunda edição de Clepsidra em 1945 [Lisboa, Edições Ática].

José Rui Teixeira
Investigador, poeta
Imagem de topo: Gabriel Pacheco | D.R.