Edith Stein | Viver nas mãos de Deus

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

 

O cristão sabe que a sua vida está nas mãos de Deus. Daí nasce progressivamente a confiança que leva a um abandono total, a viver na segurança de se saber sustentado. Isto exige em princípio o abandonar-se em fé.
Deste modo, vê-se a vida pelo prisma da fé: tudo serve para ser bem visto por Deus, no sentido da Providência divina. A vida na sua unidade adquire sentido e coerência.

 

Edith Stein*

I. Reconheço que sou fortalecido…

«Reconheço que sou fortalecido e esta força dá-me calma e segurança. Não é certamente a confiança segura de si mesma do homem que, com sua própria força, se mantém de pé sobre um solo firme, mas a segurança suave e alegre da criança que repousa sobre um braço forte, quer dizer, uma segurança que, vista objectivamente, não é menos razoável.

Com efeito, a criança que vivesse constantemente na angústia de que a sua mãe a deixasse cair, seria razoável? No meu ser encontro-me então com outro ser que não é o meu, mas que é o sustento e o fundamento do meu ser que não possui em si mesmo nem sustento nem fundamento. Posso chegar por duas vias a esse fundamento que encontro dentro de mim próprio, a fim de conhecer o ser eterno.

A primeira é a da fé. Se Deus se revela como o ser, como o criador e o conservador, e se o Salvador diz: “Aquele que crê no filho tem a vida eterna” (Jo 3, 36), estas são respostas à questão enigmática que concerne ao meu próprio ser. E se Deus me diz pela boca do profeta que me é mais fiel que o meu pai e a minha mãe e que Ele é o próprio amor, reconheço quão “razoável” é a minha confiança no braço que me sustém e como toda a angústia de cair no nada é insensata, enquanto não me desprender por mim mesmo do braço protector. (…)

É possível também que o meu ser fugaz tenha um sustento nalguma coisa finita. Mas o finito não poderia ser o sustento nem o fundamento últimos. Toda a coisa temporal, enquanto tal, é fugaz. Tem necessidade de um sustento eterno. Se estou unido a outro ser finito com o meu ser, então conservo-me no ser com ele. A segurança de ser, que sinto em meu ser fugaz, indica uma estabilidade imediata nesse sustento e neste fundamento

último do meu ser (apesar de eventuais apoios indirectos).

Isto significa certamente uma percepção muito obscura que mal se pode chamar conhecimento. S. Agostinho, que buscou o caminho de Deus sobretudo a partir do ser interior e que indicou em frases sempre novas o impulso do nosso ser mais além de si próprio para o verdadeiro ser, exprime, ao mesmo tempo e de muitas maneiras, a nossa incapacidade para captar o inacessível». (“Ser finito e ser eterno”)

II. A coerência da nossa própria vida

«A coerência da nossa própria vida é talvez o que melhor pode ilustrar o nosso pensamento. Na linguagem corrente distingue- se, por um lado, o que segue um plano – o que equivale também ao que tem sentido, ao que é inteligível – e, por outro, o que em si, parece desprovido de sentido e incompreensível.

Proponho-me fazer uns estudos e com este fim selecciono uma universidade que responda à minha especialidade. Isto é uma coerência cheia de sentido e inteligível; o facto de conhecer nesta cidade um homem que ali faz igualmente os seus estudos e estabelecer conversa com ele, sem contar, a propósito de questões sobre a representação do mundo, isto não me parece no primeiro caso manifestar uma coerência inteligível, mas quando eu repenso a minha vida depois de anos, então compreendo que esta conversa foi de uma importância capital para mim, talvez mais essencial ainda do que todos os meus estudos, e penso que me era necessário ir talvez expressamente para isso àquela cidade. O que não estava nos meus projectos, encontrava-se nos projectos de Deus.

E quanto mais a miúdo se me apresentam tais acontecimentos, mais viva se faz em mim a convicção de fé de que não existe o azar – visto do lado de Deus –, que toda a minha vida, até nos seus mais mínimos pormenores, está prevista no plano da divina providência, e que ela é, diante dos olhos de Deus que tudo vê, uma coerência inteligível perfeita. Então começo a alegrar-me de antemão na luz da glória na qual me será descoberta esta coerência inteligível.

No entanto, esta consideração não vale somente para a vida humana individual, mas também para a vida da humanidade inteira e, ainda mais, para a totalidade de todo ser. A coerência no Logos (a Palavra criadora de Deus) é a de um conjunto inteligível, de uma obra de arte perfeita, e cada traço particular enxerta-se por sua vez no seu lugar, na harmonia total do quadro segundo uma lei muito pura e muito estreita».

(“Ser finito e ser eterno”)

*Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 37-40.
Imagem de skalekar1992 por Pixabay