Edith Stein | Viver nas mãos de Deus II

‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
O primeiro fruto do abandono é ir descobrindo que os nossos passos são guiados pela mão de Deus, experimentando em nós a presença aqui e agora do Reino. Começa-se a saborear a vida eterna.
Viver nas mãos de Deus, viver abandonados totalmente n’Ele, é viver como seus verdadeiros filhos abertos à sua vontade. Esta entrega, que se confunde com o “caminho da infância espiritual” de Santa Teresa de Lisieux, realiza-se no dia-a-dia, nas pequenas coisas de cada dia. Esta vivência espiritual constitui-se como o fundamento da alegria e da liberdade do cristão.

Edith Stein*

III. As trevas cobriam a terra

«As trevas cobriam a terra, e Ele veio como luz que brilha nas trevas, mas as trevas não O receberam. Àqueles que O receberam trouxe luz e paz: a paz com o Pai celeste, a paz com todos os que, como Ele, são filhos da luz e do Pai que está no céu, e a paz profunda dos corações, mas não a paz com os filhos das trevas.

O Príncipe da paz não lhes traz a eles a paz, mas a espada. Para eles é pedra de escândalo, contra a qual chocam e se despedaçam. Esta é uma verdade dura e séria que não devemos encobrir com o canto poético do Menino de Belém.

O mistério da Encarnação e o mistério do mal permanecem estreitamente unidos. A Luz que desceu do céu contrasta com a noite do pecado tão escura e tão negra.

O Menino do presépio estende os seus bracinhos, e o seu sorriso parece dizer o que mais tarde pronunciarão os lábios do homem: Vinde a Mim todos os que andais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei. E sobre os que escutam o seu chamamento é derramado o orvalho da graça pelas mãos do Menino e “sentiram uma grande alegria”.

Estas mãos dão e pedem ao mesmo tempo: vós, ó reis, entregai as vossas coroas e os vossos tesouros, e inclinai-vos com humildade diante do Rei dos Reis; carregai sem demora as canseiras, as penas, e os sofrimentos que o seu serviço exige. A vós, crianças, que ainda não podeis dar nada voluntariamente, as mãos dos carrascos arrancam a terna vida, antes ainda de ter começado verdadeiramente: não podia ser entregue de modo melhor do que em sacrifício pelo Senhor da vida. “Segue-me”, assim dizem as mãos do Menino, assim dirão mais tarde os lábios do homem.

Assim falaram ao discípulo que o Senhor amava e que agora também faz parte do séquito do Presépio. E S. João, o jovem de coração puro, seguiu-O sem perguntar para aonde nem para quê. Abandonou a barca de seu pai e seguiu o Senhor em todos os seus caminhos até ao cimo do Gólgota. “Segue-me”, isto mesmo fez o jovem Estevão seguiu o Senhor na luta contra o poder das trevas, contra a cegueira da obstinada incredulidade, deu testemunho d’Ele com a sua palavra e com o seu sangue, seguiu-O também no espírito, espírito de Amor que luta contra o pecado, mas ama o pecador e que, mesmo diante da morte, intercede junto de Deus pelos seus assassinos.

São imagens da luz os que se ajoelham junto do presépio: os ternos meninos inocentes, os confiados pastores, os humildes reis, S. Estevão, o discípulo entusiasta, e João, o apóstolo predilecto. Todos eles seguiram o chamamento do Senhor. Diante deles se levanta a noite da incompreensível dureza do coração, e da cegueira: os escribas, que podiam assinalar o momento e o lugar onde o Salvador deveria nascer, mas que foram incapazes de deduzir daí o vamos a Belém; o rei Herodes, que quis tirar a vida ao Senhor da Vida. Diante do Menino no presépio dividem-se os corações. Ele é o Rei dos Reis e o Senhor da vida e da morte. Pronuncia o seu “Segue-me”, e quem não é por Ele é contra Ele. Pronuncia-o também para nós, e obriga-nos a decidir entre a Luz e as trevas. (…)

Não sabemos onde nos conduz o Menino Deus nesta terra e não devemos perguntá-lo antes do tempo. Apenas sabemos que tudo concorre para o bem daqueles a quem Deus ama.

E, além disso, que os caminhos pelos quais o Salvador nos guia ultrapassam os limites da terra.

Ó admirável comércio! O Criador do género humano ao assumir corpo e alma, deu-nos a sua Divindade. O Redentor veio ao mundo para realizar esta admirável troca. Deus fez-se Filho do Homem, para que todos os homens chegassem a ser filhos de Deus. Este é o princípio da vida eterna em nós». (“O mistério do Natal”)

IV. Se Me amais…

«Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos» (Jo 14,15). Ser filho de Deus significa deixar-se guiar pela mão de Deus, fazer a sua vontade e não a própria, pôr todas as nossas preocupações e esperanças nas suas mãos, não nos preocuparmos mais connosco e com o nosso próprio futuro. Nisto fundamentam–se a liberdade e a alegria dos filhos de Deus. Quão poucos, mesmo entre os homens de autêntica piedade, e também entre aqueles que sabem sacrificar-se heroicamente, possuem este precioso dom! Muitos vivem sempre como que oprimidos pelo peso das suas preocupações e deveres. Todos conhecemos a parábola das aves do céu e dos lírios do campo.

Mas, quando se encontra um homem que não tem fortuna, nem pensão, nem seguro, e que vive sem se preocupar com o seu futuro, então meneia-se a cabeça como se tratasse de algo de anormal. Engana-se certamente quem pensar que o Pai do Céu se preocupará continuamente do salário e do nível de vida que o homem considera idóneo, quem assim o pensar fez um cálculo muito errado. Tais condições não se inscrevem num contrato com o Céu. A confiança em Deus será inquebrantável apenas se se está disposto a aceitar tudo o que venha da mão do Pai.

Só Ele sabe o que nos convém. E se forem mais convenientes a necessidade e a privação do que uma renda abastada e segura, ou o fracasso e a humilhação serem melhores do que a honra e a fama, então devemos estar prontos para aceitar também isso. Só assim se pode viver tranquilo no presente e no futuro.

O ‘Faça-se a tua vontade’ deve ser em toda a sua dimensão a norma de uma vida cristã. Deve regular o curso do dia, da manhã à noite, durante todo o ano e durante toda a vida. Esta será então a única preocupação do cristão. Todas as outras entregou-as ao Senhor, e Ele tomou-as sobre si. Aquela, porém, pertence-nos a nós, enquanto estivermos em statu viae.

Objectivamente falando nunca poderemos estar seguros de permanecer sempre nos caminhos de Deus.

Assim como os primeiros homens caíram da filiação divina na distância de Deus, do mesmo modo cada um de nós está sempre sob o fio da navalha entre o nada e a plenitude da vida divina. E, tarde ou cedo, experimentamo-lo subjectivamente. Na infância da vida espiritual, quando começamos a abandonar-nos na mão de Deus, sentimos a sua mão a guiar-nos com força e firmeza, aparece-nos claro como o sol aquilo que devemos fazer ou omitir. Mas isto não dura sempre. Quem pertence a Cristo deve viver toda a vida de Cristo. Deve alcançar a maturidade de Cristo, e percorrer o caminho da Cruz até ao Getsémani e ao Gólgota. E todos os sofrimentos que lhe podem advir do exterior nada são comparados com a noite escura da alma, quando a luz divina já não brilha e a voz do Senhor não mais se ouve.

Deus está ali, mas escondido e calado. Porquê? São mistérios de Deus, mas que nunca se deixam penetrar até ao fundo.

Deus fez-se homem para nos fazer participar na sua vida de modo novo. Compreendemos isto como participação na vida divina. Esse é o começo e a meta final.

* Santa Teresa Benedita da Cruz, As mais belas páginas de Edite Stein. Edições Carmelo, Avessadas 2003. pp 41-45.
Imagem de Myriam Zilles por Pixabay